Uma das invenções mais espetaculares do imaginário popular é toda a mitologia e misticismo que rodeia a cultura do vampirismo, afinal o mesmo é fonte de inspiração para inúmeros livros, canções, filmes, séries de televisão e jogos eletrônicos. Sobra até mesmo espaço para algumas lendas e relatos de pessoas que juram de pé junto a existência das abomináveis criaturas. Aqui no Brasil também temos vasto material de ficção acerca do tempo – basta ver que em todas as livrarias tem, ao menos, um livro de destaque do gaucho André Vianco que, assim como Annie Rice, se especializou em escrever romances vampirescos.O que faz um vampiro se tornar tão interessante é que ele é uma criatura das trevas, porém extremamente humano – tanto em feições, como na grande parte dos seus hábitos. Ele é alérgico a luz, imortal e tem sede de sangue. Geralmente vive uma vida reclusa e o mais discreta possível. De resto, é em tudo parecido conosco. Porém ele leva uma vantagem: como é imortal, já passou por mais coisas na vida do que o mais velho de todos os seres humanos, também é mais culto e, por isto, mais romântico e sedutor.
Porém esta imortalidade, que a principio parece ser um bom negócio, se converge em maldição: ele não pode se apegar a ninguém, pois logo esta pessoa irá morrer. Como o lado emotivo humano fala mais alto, nem sempre é possível não se apegar, afinal ele é uma figura solitária e sempre se apaixona por pessoas que compartilham sentimentos com ele. Por isto mesmo ele é obrigado a conviver eternamente com lembranças dolorosas. Além disto, só a noite pode mostrar as caras, ou seja, sua vida é mais melancólica do que as demais: a luz da esperança jamais irá brilhar para ele e enquanto todos estão nas ruas ele está a dormir, quando todos vão dormir e ele está acordado.
Enfim, com um personagem tão complexo disponível para domínio público muitas histórias extremamente competentes e bonitas surgem em nossa cultura. Recentemente tive a feliz oportunidade de prestigiar o filme suéco Låt den rätte komma in – em inglês Let The Right One In – baseado num livro de John Ajvide Lindqvist, que trata com maestria o belo romance melancólico deste facinante tema. Em meio ao clima sombrio de um intenso inverno e de cenas fortes de assassinatos, temos uma história de amor muito bonita contada com elegância. Estamos diante de um clássico gótico e que certamente figura entre os melhores filmes vampirescos de todos os tempos!
Oskar é um menino de 12 anos que sofre com os atos de bullying de seus colegas da escola. Não há um dia em que ele não seja agredido, sendo que o ódio lhe consome internamente: ele sonha com o momento em que ele se vingará de seus agressores. Simultaneamente ele esconde os ferimentos de sua mãe e cria desculpas para que ela nunca desconfie das coisas que acontecem. Paralelamente, uma menina da mesma idade – Eli – se muda para a casa do lado, ao mesmo tempo em que um homem passa a assassinar moradores do vilarejo e enche um galão com o sangue das vítimas.
Oskar irá conhecer a menina numa noite gélida e irá estranhar o fato que mesmo estando tão frio ela anda de pés descalços pelo gelo, é tão branca como a neve e têm certos hábitos que faz com que pense que ela seja alguém problemática. Porém nesta estranheza surge uma certa paixão entre os dois: ele pela curiosidade e ela por encontrar uma amizade numa vida que é totalmente solitária. Paralelamente a sede por sangue é cada vez maior. Conseguirá o amor prevalecer sobre um vício quase incontrolável? Conseguirá a pequena vampira não ceder ao desejo de abocanhar o pescoço do garoto?
Em meio à mortes, investigações, atos de bullying e selvageria, temos este romance onde a dúvida paira sobre nós o tempo inteiro, sendo que a garota não consegue sucumbir aos seus desejos e acaba, inevitavelmente, envolvida sentimentalmente com Oskar. Porém, ela sabe que uma hora tudo isto acaba: Eli viverá eternamente com 12 anos de idade, enquanto o menino irá envelhecer – O assassino do galão de sangue sabe bem do que estou falando – porém como frear a paixão? Como controlar os sentimentos? Questões humanas para um paradoxo vampiresco!

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