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domingo, 6 de março de 2011

Yeshua: Assim em Cima Assim Embaixo


Este é o primeiro volume da trilogia de Cristo sob a ótica de Lauro Ferreira, roteirista e desenhista deste grande trabalho, onde com muita fluência e competência somos apresentados a uma visão humanista do Novo Testamento, onde algumas personagens históricas convivem com a dúvida e a confusão em torno de uma profecia mística.

Isto não significa que não há aquela magia que envolve o texto original, muito pelo contrário, os anjos estão lá, assim como o sinal dados aos três magos sobre o nascimento do salvador. Entretanto Lauro não se reteve ao texto cristão, mas também pesquisou o tema em evangelhos agnósticos, recorrendo inclusive a uma filósofa especializada no assunto - que nos prestigia com uma bela introdução que por si só já valeria a aquisição do volume. Isto faz com que o "Evangelho de Lauro" seja mais rico e consolidado, ainda que desprezando o vocabulário arcaico em busca de uma proximidade simplista com o leitor.

Do mesmo modo, neste trabalho encontramos os nomes das personagens no original, logo Jesus é Yeshu, Maria é Miriam, e daí por diante. A motivação deste vocábulo é não prender o leitor aos fatos históricos, e sim fazer com que o mesmo compartilhe da experiência de uma outra visão. De fato, ler Jesus é diferente de ler Yeshu. A leitura fica mais aceitável sem distorcer o texto bíblico original.

No pósfacil do trabalho, Lauro ressalta aquilo que já é evidente no decorrer da leitura: aqui nossa protagonista é Miriam. Logo no início temos a história de sua mãe, que até então era uma mulher que não conseguia gerar filhos e sofria em silêncio com seu problema - até o dia em que um anjo aparece e lhe anuncia a boa nova. Aí já temos um primeiro conflito existencial: O mundo das aparências. Esta pobre mulher mostrava-se confiante e feliz na gestação da irmã, porém por dentro estava esgotada visto que seu sonho de ser mãe não se concretizava. Bastou virar as costas e passou a chorar devido ao seu sofrimento e a irônia da própria vida.

Logo a sua filha, Miriam - um presente do céu - se torna uma preciosidade rara e, consequentemente, o protecionismo da mãe é enaltecido devido a infertilidade. O "perigo dos homens" é uma mensagem sempre presente nos ensinamentos da mãe de Miriam, que se torna uma garota boa e bem vista pela sociedade.

Josef, homem bem mais velho, noiva com Miriam, uma bela adolescente. Nos quadrinhos notamos que um colega de Josef alertao maliciosamente sobre a beleza da garota, dando a entender que isto poderia que sua juventude e inesperiência de vida poderia trazer problema à Josef. Logo, é plantada uma pulga atrás de orelha de Josef, que se recusa a acreditar na inocência de Miriam quando um anjo anuncia sua gravidez.

De fato, até mesmo Miriam se confunde ao ser pressionada por sua mãe para saber se não foi um homem que lhe enganou passando-se por anjo. No diálogo, Miriam se sente perdida e fica em dúvida sobre o que realmente ocorreu.

É em torno de situações como estas, que dá vida a consciência das personagens, que transcorre o restante da obra. Os temores de Josef continuam. Ele mesmo não sabe se deve chamar Yeshu de seu filho. Chega até mesmo a abandonar Miriam - ainda que ela implore para ele ficar - sozinha num estábulo, em busca de uma parteira. Quando chega é tarde demais, pois Miriam já teve o filho. Um certo arrependimento lhe condena por ter deixado a esposa a própria sorte.

O livro termina com Yeshu sendo batizado por seu primo mais velho e tomando consciência de seu papel na Terra. Como testemunha da grandiosidade de Yeshu, Miriam de Magdalene é a primeira a observar a divindade presente nele. E fica uma promessa: em breve nos encontraremos novamente.

E assim finaliza o livro. O segundo volume já está disponível e o terceiro está em desenvolvimento. Não deixem de prestigiar esta obra, duas vezes bem vinda justamente por se tratar de um artista brasileiro muito promissor no cenário underground. Mesmo sendo um tema muito explorado, a visão de Lauro Ferreira é muito interessante e merece um lugar reservado em nossa estante.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Bórgia I: Sangue Para o Papa


A história de Rodrigo Bórgia já foi retratada em mais de uma oportunidade no cinema – embora nenhuma chegasse a empolgar – ao menos naqueles que eu pude conferir (Los Borgia e O Conclave). Também irá virar uma série estrelada por Jeremy Irons que irá ir ao ar ainda este ano.

Quem não conhece a história, basta dizer que Rodrigo Bórgia era um cardeal que tinha uma amante e quatro filhos com ela, a qual constituía a sua família. Em 10 de Agosto de 1492 tornou-se o Papa Alexandre VI ao suceder o Papa Inocêncio VIII, após comprar, com a sua fortuna, grande parte dos votos no conclave, explicitando assim a corrupção na igreja dentro do próprio Vaticano.

Desta vez temos um retrato da história em quadrinhos, com quatro volumes lançados no Brasil pela Editora Conrad (na verdade, o último volume continua inédito, mas foi prometido para até o final deste ano). Os autores da façanha são nada mais nada menos do que Alejandro Jodorowsky – artista chileno influente que atua em diversas frentes, como no cinema, na literatura, na poesia e no teatro – e o italiano Milo Manara, a lenda viva dos quadrinhos eróticos, responsável pela saga Click.

A primeira vez que tive contato com o desenho de Manara foi através da antiga revista Heavy Metal, que já foi publicada no Brasil num formato idêntico ao original. Uma pena que a revista tenha sido cancelada, porém não me esqueço da experiência fornecida pelos quadrinhos de Manara – em minha mente nunca havia visto tão belo retrato do corpo humano. Nem mesmo no mundo real encontramos tão belos corpos, desenhados da forma mais atraente possível.

Com esta equipe tão experiente e tão gabaritada, o primeiro volume de Bórgias (denominado Sangue Para o Papa) não poderia ter resultado melhor. Os desenhos de Manara são fascinantes e detalhados. O ritmo imposto por Jodorowsky também é excelente e combina perfeitamente com a trama. A única coisa que não me agrada é que são somente 60 páginas neste volume. Fica uma sensação de “quero mais”. Entretanto reconheço que o nível de detalhes exige que a história seja contada em poucas páginas, afinal temos um belo quadro por página.

A história também é muito boa e soa ironicamente maquiavélica (se não quiser SPOILERS, para aqui mesmo): o Papa Inocêncio VIII está velho e muito doente. Não aceitando sua própria morte, se prende há alguns rituais para manter-se vivo. Mama diretamente no seio das mulheres, faz transfusão de sangue até a morte com jovens, bate em pessoas e outras diabruras. Paralelamente Rodrigo Bórgia traça um plano para a sua família e outro plano para se tornar Papa.

Tão logo o Papa Inocêncio VIII morre, uma série de atitudes é tomada para que Bórgia se torne Papa, e o mesmo envolve muitas mortes, dinheiro, propriedades e sexo. Enfim, o que acontece no conclave é pior do que qualquer coisa retratada em qualquer congresso. A força da corrupção é notória e observamos que nenhuma das personagens acredita em Deus, e sim no poder. Ao término Rodrigo Bórgia é proclamado Papa.

Neste volume impera a ganância, a cobiça, a luxúria, a inveja, a vingança, a libido e outras palavras que, em tese, deveriam ser banidas no vocabulário do clérigo, mas que bem sabemos que faz parte pelo poder, ainda mais naquela época onde a Igreja dominava grande parte do mundo.

Enfim, o volume é uma boa pedida para quem busca uma excelente história com uma arte bonita e sensual. A única ressalva é a edição da Conrad, que é muito pobre de informação. De fato, não temos nem mesmo como saber que se trata de uma minissérie em quatro volumes, nem mesmo de que volume se trata. A única forma de descobrirmos isto é observando o título original, que diz: Borgia, Tome I: Du sang pour le Pape.

Além disto, nenhuma nota de contextualização da história, nem mesmo uma página com uma breve biografia dos autores. A última página do álbum é um quadrinho, porém no rodapé não temos nem mesmo um simples “continua”. É como se a edição estivesse faltando páginas.

Ponto negativo para a Editora Conrad, que geralmente faz um bom trabalho e está perdoada – até por que é graças a esta editora que temos a oportunidade de apreciar tão belo trabalho em língua portuguesa. Fica a dica.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Palestina: Uma Nação Ocupada


O conflito na região da Palestina é extremamente complexo e perdura há muitos anos e a expectativa é que não deverá terminar tão breve. Explicar este conflito de modo preciso e detalhado seria ter material suficiente para um blog inteiro ou mesmo muitos livros.

Por isto mesmo o jornalista Joe Sacco resolveu demonstrar parte de sua experiência no local com um gênero até então inédito: quadrinhos jornalísticos. Se a primeira impressão que temos é de estranheza, ao término do livro observamos que não havia maneira mais precisa de contar os relatos observados em sua estadia de apenas dois meses, mas suficiente para criar um material rico em detalhado.

A estadia na Palestina começou no início de Dezembro de 1991. Entre desconfiança e receptividade, Sacco ouviu uma série de relatos dos palestinos e observou uma série de momentos de pura tensão na ocupação israelita. São estas imagens que chegam até a nós, desde situações cômicas a situações dramáticas. Observamos o ponto de vista de familiares, de pessoas que tiveram experiências em prisões e torturas – algo muito corriqueiro. Também temos a opinião feminista, entre outros.

Enfim, é um belo livro que retrata cenas que envolvem sentimentos que vão do chocante ao reflexivo. Aqui vislumbramos um pouco mais do mundo ao contrário. Se o livro te ajuda a entender os acontecimentos daquela região, talvez não – visto que é uma reportagem em formato de quadrinhos – mas talvez sim – visto que lhe instiga a pesquisar cada vez mais para nos situarmos com as imagens que são retratadas para nós.
Recomendado. Livro para ser inserido com destaque especial em sua estante.

Obs: Estes álbuns geralmente custam muito caro. Entretanto a Editora Conrad lançou uma versão especial por um preço muito acessível. A diferença basicamente é a capa, que nesta edição não é dura. Entretanto o miolo é o mesmo. A loja virtual Submarino, por exemplo, tem vendido este exemplar à R$ 9,90.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Peanuts Completo Vol 1


Charlie Brown, por decisão unânime, é considerado o mais jovem existencialista da história. Mesmo criança, Charlie Brown sofre com os muitos problemas da existência, do absurdo que é a vida, do por que de existir e por quê de estar ali. De fato, Charlie Brown é um perdedor nato. Porém o gostoso é ver que Charlie Brown aceita sua condição, mesmo no calor da inocência, e sempre está lá para mais uma partida de xadrez, mais uma partida de beisebol, mesmo sabendo que dificilmente ganhará alguma vez (afinal já são mais de 10 mil partidas sem ganhar nada). Charlie Brown nunca desiste. Isto faz dele um herói.

Tudo o que foi dito acima poderia ser trágico, mas foi retrato com um humor fino e agradável por Charles Schulz, o pessimista criador de Peanuts, as tiras em quadrinhos que foram publicadas diariamente em diversos periódicos nas mais diversas línguas entre 1950 e 2000. Schulz é o pai de uma série de personagens inesquecíveis, como o cachorro Snoopy, Lucy, Linus, Paty Pimentinha e, claro, o bom e velho Charlie Brown. Charles Schulz, figura notória, foi um dos mais bem pagos quadrinistas de todos os tempos: chegava a ganhar entre 30 e 40 milhões de dólares por ano. Seus produtos até hoje são comumente licenciados, sendo que Peanuts é uma franquia de sucesso.

Suas tiras foram compiladas numa edição nobre, tão nobre quanto o seu ator, e começaram a sair por aqui pela editora LP&M, com o mesmo tratamento dado lá fora, ou seja, em edições de alto nível. Neste primeiro volume temos compiladas as tiras publicadas entre 1950 e 1952, o início de tudo. É interessante observar os costumes da época, inclusive os brinquedos, assim como a evolução do próprio mundo. Num exemplo, a chegada em massa das televisões para os lares americanos, que contagiou até mesmo Snoopy, que instalou uma antena de televisão em sua casinha de cachorro.

Como bônus, temos uma bela introdução, uma grandiosa biografia com detalhes curiosos sobre a vida de Charles Schulz e uma extensa entrevista com o autor, que revela coisas muito interessantes, como o espanto por sua obra ter se tornado tão grande, assim como a rejeição pelo nome Peanuts, a qual se diz amargurado até o fim de sua vida, nome que considera de mal gosto e obsceno. Revela também o paralelo entre o homem Schulz e Charlie Brown, cujos ambos os pais possuem uma barbearia, observam o quanto é difícil serem eles mesmos.

Charlie Brown não gosta de si, nem de sua vida. Numa tira ele reclama de como sua vida é ruim e alguém lhe diz que ele é muito jovem para reclamar tanto. Que ainda há muitos anos de vida pela frente. Então Charlie Brown diz: "é isto que eu tenho medo". Que a vida seja um tédio por tanto tempo. Tudo isto é dito sem drama, na forma inocente como as crianças se expressam. Charlie Brown necessita ser amado. Ele precisa de atenção, porém está sempre sendo rejeitado. Mas o que fazer? Tudo bem, a vida continua.

Por isto nos identificamos tanto com as personagens de Peanuts! Não só com Charlie Brown, mas todos os outros são igualmente especiais e marcantes. Lucy, de certa maneira até maquiavélica, gosta de aprontar. Gosta de torrar a paciência dos outros. Snoopy é o melhor cachorro de todos, mesmo sendo preguiçoso e inconveniente na maior parte das vezes.

Enfim, Peanuts é uma das tiras mais bacanas com a temática existencialismo. Questões filosóficas são tratadas com muito humor. Tenho certeza que ao adquirir este álbum você terá certeza que cada centavo do seu dinheiro terá valido a pena. Peanuts não se trata apenas de entretenimento, mas de enriquecer sua bagagem intelectual. De fazer você refletir em questões simples, porém com respostas complexas (quando elas existem). Quando esquecermos um pouco sobre do que se trata a vida, nada como Peanuts para nos reencontrarmos.

Peanuts Completo - Volume 1
Charles Schulz
LP&M Editora
3ª edição - 20089- 350 páginas

sábado, 10 de abril de 2010

Black Hole


Excelente Graphic Novel de Charles Burns, publicada em 2 volumes pela editora Conrad. Não conhecia nenhuma outra obra do autor, então foi com uma grata surpresa que pude saborear tão deliciosa e sombria narrativa. De fato não há nada de novo na trama presente no livro de Burns, mas a atmosfera alinha aos diálogos e desenhos são sensacionais. O clima, em minha singela opinião, é perfeito.

A história se passa em algum momento entre os anos 60 e 70 em plena época da contracultura predominantemente jovem, cujo rock psicodélico, uso abusivo de drogas, sexo livre e o movimento hippie foram ingredientes que pintaram esta década com cores vivas que jamais seriam esquecidas.

O roteiro é centrado num grupo de jovens estudantes, que partilham dos assuntos de seu tempo e convivem com uma doença transmitida sexualmente que deformam totalmente o seu corpo, exteriorizando a deformação para os olhos de quem os vê.

Isto é algo interessante, pois as pessoas contaminadas começam a formar grupos que se isolam da sociedade e passam a construir uma própria cultura freak e assustadora. Por trás de jovens comuns temos aparências bizarras que afastam qualquer um de perto.

Paralelamente a esta trama, jovens começam a desaparecer numa floresta próxima, o que dá um tom enigmático na prosa, visto que este fato não é comumente citado na história e nem é visto como ponto primordial, porém tem um papel fundamental ao término da narrativa, que liga todos os pontos e finaliza o enredo de forma muito satisfatória.

O ponto a se destacar em todos os dois volumes é a naturalidade que se expõem a humanidade (seja isto bom ou ruim) nas personagens. Mesmo em situações fantásticas, os sentimentos são muito bem evidenciados e conseguimos extrair bem o conteúdo das cenas e dos diálogos. Já foi dito por alguém no passado que prosas simples contadas com maestria valem mais do que prosas complexas contadas de qualquer jeito.

A meu ver, é o caso de Black Hole: é mais do mesmo contado de uma forma singular que nos faz querer chegar rapidamente ao fim e quando lá estamos nos lamentamos por não ter mais o que ler nestes livros. Ponto positivo para o autor: os méritos são todos seus.

Black Hole Vol 1: Introdução à Biologia
Black Hole Vol 2: O Fim

Charles Burns
Editora Conrad

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Gênesis de Robert Crumb

Em torno deste album havia uma grande espectativa de minha parte antes do lançamento. Robert Crumb é uma lenda consagrada dos quadrinhos underground que traz a tona uma série de assuntos polêmicos tratados numa visão cômica e irônica. A imagem do senhor Crumb é frequentemente associada como um ícone da contracultura hippie, tendo obtido muito sucesso nos anos 60 como expoente maior da juventude rebelde. Talvez a maior personagem desta leva seja Fritz The Cat - quem conhece o autor sabe bem o que estou falando, quem não conhece vale a pena conferir as tiras deste animal ácido e lascivo .

E então Crumb, o Jim Morrison dos quadrinhos, anuncia um projeto onde uma visão do primeiro livro do antigo testamento seria ilustrada. Cresce ainda mais a espectativa quando o autor diz: "é o primeiro livro da Bíblia ilustrado em detalhes! Nada ficou de fora!". Alie isto a polêmica causada entre os grupos religiosos com o lançamento do album e o fato do autor ser ateu. Só poderia ser algo fora de série, não é mesmo? Já imaginava um banho de heresia e violência retratada nos traços crus do autor.

Portanto quando vi o livro exposto na Livraria Cultura, num acabamento de primeira da Editora Conrad - que anteriormente já havia dado um tratamento divino na série Sandman, de Neil Gaiman - não hesitei duas vezes: vou comprá-lo e lê-lo imediatamente! Porém o que era ansiedade, ao longo da leitura, se tornou frustração: o resultado é bem diferente daquilo que eu imaginava. Fui surpreendido sim, mas de forma negativa. Não que o álbum seja ruim, está bem longe disto, porém não temos nada de novo, fora que até agora eu não sei onde reside a polêmica do livro.

Para elencar alguns pontos: Crumb utilizou o texto original do Gênesis para ilustrar o seu álbum. Não alterou nem mesmo um diálogo. Quem leu o Gênesis, seja religioso, historiador, estudante ou apenas por curiosidade, sabe que há partes extremamente maçantes e diálogos redundantes, tipo quando se descreve a genealogia das personagens históricas ("A" gerou "B","C" e "D", sendo que "B" gerou "E" e "F", que gerou "G" e "H" que habitou em "X". "C" gerou "I", "J", "K", sendo que "K" foi pai de "M" E "N", e por aí vai). Na obra de Crumb nem estas partes foram omitidas e, ao meu ver, a ação ficou restrita as limitações do texto bíblico original. Todos sabem que o Gênesis tem histórias que dariam sagas grandiosas, porém na Biblia aparece em poucas linhas. Ao invés de Crumb explorar estas lacunas e criar ações desenfreadas, ficou tão preso ao texto que algumas sagas não chegam até a sexta página após iniciada.

Ademais, a nudez que o autor sempre explorou em suas personagens pouco aparece em Gênesis. Quando aparece não chega a causar nenhum impacto. O máximo de nudez que aparece são os seios de algumas mulheres. Obviamente isto não se trata de um conteúdo pornográfico, mas cadê a polêmica? Ao que parece, o autor não agrada nem à gregos nem à troianos, ou seja, nem aos fãs de quadrinhos nem aos religiosos, pois ao ficar no meio da corda-bamba Robert Crumb deixou um certo sentimento de vazio em seus leitores.

Durante a leitura por vezes achei que aconteceria algo de especial, que ele retrataria as passagens obscuras de modo cruel e as passagens positivas repletas de luz. Porém o que vemos é algo sem sal nem pimenta (embora bem desenhado - até demais para um artista alternativo que visa, principalmente, utilizar-se da arte apenas para deixar uma mensagem). Do meio para frente, já sabemos que não teremos nenhuma surpresa e a leitura chega a ficar cansativa. Vamos ao fim apenas por uma certa esperança de algo vire do avesso, porém não é isto que acontece.

Em contrapartida, o livro é luxuoso, de primeira linha, sendo que o trabalho editorial por parte Conrad merece nota dez! A capa é simples e linda, há diversas notas explicativas - principalmente relacionada à tradução original - tanto entre os quadros como no final do livro, além de comentários do próprio autor. Na prateleira, este é um livro que se destaca dos demais. Pela arte, o livro também se salva. Porém, ao lermos, a experiência é que "já vimos este filme antes", mesmo tratando-se de um livro.

Gênesis
Robert Crumb
Editora Conrad
1ª edição - 2009 - 210 páginas

sábado, 3 de janeiro de 2009

Turma da Mônica Jovem: Quinta Edição

Depois de finalizar o arco “4 Dimensões Mágicas” fomos premiados com uma edição morna. Não chega a ser um desastre, como a segunda edição, porém não há nenhum elemento que nos deixa empolgados, afinal os nuances de nostalgia – principal característica da série, já não estão presentes.

Desta vez temos três histórias completas. A primeira, na minha opinião, é muito fraca. Ao menos, para o público mais velho ou para os garotos, talvez esta fórmula não funcione. A história se chama “Onze Coisas Que As Garotas Amam” e pelo título temos uma síntese de tudo o que acontece: shopping center, maquiagem, cabeleiros, sobremesas, etc. Tudo bem que os roteiristas prezam pela ingenuidade das personagens, mas para mim, padronizar os gostos de todas as garotas, é quase como um insulto para aquelas que gostam de coisas diferentes das demais. Mesmo porque, o público que lê quadrinho já é diferenciado dos demais: geralmente são pessoas mais inteligentes e com opinião.

A segunda história já melhora bastante. Em “Os Meninos São Todos Iguais”, Mônica, Magali e Denise decidem dar um fim numa suposta festa criada somente para meninos. Obviamente elas se enganam. Esta história é melhor porque relembra a fórmula criada para contar as antigas histórias da Turma da Mônica. De fato, se você inserir a mesma história na roupagem antiga terá o mesmo efeito. Muitas vezes a melhor coisa é repetir mais do mesmo. Aqui funcionou bem.

A terceira história, que é a melhor de todas (e fatalmente também é a mais curta), é extremamente hilária. Muito bem humorada, sem perder a inocência. Só ela já vale todo o volume. Fala sobre a relação de paixão que os homens têm com seus carros. Bem divertida mesmo.

O destaque é que é a Mônica, a partir deste volume, está mais atiçada pelo Cebolinha, de forma que ela não consegue mais conter os seus sentimentos. O problema é que o “homem” está envergonhado e não consegue dar sequencia aos seus sentimentos. Vamos aguardar o próximo volume para ver o que acontece!

sábado, 29 de novembro de 2008

Turma da Mônica Jovem: Quarta Edição

Eu preciso de apenas uma palavra para definir este exemplar: sensacional! É, de longe, o melhor volume lançado até agora! Finalmente a história ganhou um pouco mais de consistência e acredito que, a partir deste momento, a revista se consolida de vez. Esta edição confirma o que havia dito na resenha anterior: que a HQ encontrou o seu lugar.

Desta vez a turma vai para o Templo do Céu Infinito onde irão participar de um torneio no estilo Street Fighter! Novamente temos muitas referências, desta vez mais focado nas artes marciais. Por fim, eles vão parar na dimensão de Edom, que nada mais é do que grande cemitério onde enfrentarão diversas aventuras. Como não poderia deixar de ser a turma do Penadinho dá as caras: Dona Morte, Zé Vampir e todos os outros estão lá – faltou o Frank, personagem célebre. É muito legal ver estes personagens se enquadrando na trama principal! Ficou super divertido!

Um personagem que foi inserido no contexto que eu não esperava e que eu achei a melhor sacada de todo o volume, embora tenha aparecido somente em alguns quadros, foi o Piteco: ele ficou extremamente grande e bem caracterizado! Outros personagens que aparecem, ainda que apenas uma vez, são o Xavier, o Bidu e o Janjão.

Uma coisa que eu acho que não pegou e os desenvolvedores do projeto devem ter repensado foi no novo nome do Anjinho, que apareceu no primeiro se apresentando como Céuboy: agora ele pede para que os outros lhe chamem apenas de Angelo. Não ficou tão legal, mas melhor que Céuboy.

Na conclusão da aventura surge um quadro que deu o que falar em toda a imprensa na semana passada: uma leve bitoca da Mônica no Cebolinha! Isto de causar um certo frisson em muita gente, porém a coisa foi bem inocente, de tal forma que o Cebolinha foi pego de guarda-baixa e, sem saber o que fazer, saiu correndo de tanta vergonha!

A saga iniciada no primeiro volume – 4 Dimensões Mágicas – chega ao seu fim. Portanto, que venha os próximos!

domingo, 9 de novembro de 2008

Turma da Mônica Jovem : Terceira Edição

Ufa! A história deu uma excelente melhorada! Não sei se porque eu fiquei tão decepcionado com o segundo volume que não esperava nada demais no terceiro ou porque os roteiristas precisavam de mais algumas páginas para engrenar a proposta da revista.

Enfim, acho que finalmente a Turma da Mônica Jovem encontrou o seu lugar. Vamos aguardar o próximo volume para confirmar estas minhas impressões. O fato é que eu me diverti bastante lendo estes quadrinhos, assim como quando era criança e lia os gibis de Mauricio de Sousa. História simples, cheias de referência e com um diferencial: Mônica, Cascão, Cebola e Magali iniciando a juventude (espero que desta vez a turma envelheça de verdade e possamos acompanhar o primeiro emprego de uma das personagens até mesmo o papel que eles desempenharão como pais).

Continuando com a saga que deu início a série, desta vez a turma vai para no mundo virtual de Tobor. As referências à tecnologia, ao futuro, aos computadores são muitas: terras chamadas Hyperlinks, Bits e Bytes, um robô chamado Cybermaster, os inimigos jogam videogame, celulares modificados, um dos inimigos virtuais se chamam ‘Kraker’ (referência ao Cracker, que é uma espécie de hacker que modifica programas originais para que rodem ilegalmente nos computadores).

O Cebola ganha uma armadura que lhe deixa semelhante ao Megaman, a Mônica um coelho-robô que parece aqueles robôs gigantes que aqueles grupos japoneses (como Changeman) entram nos finais do episódio para combater uma imensa criatura, o Cascão ganha uma moto futurista, parecida com aquelas da gangue do desenho Akira. Ou seja, o episódio ficou muito legal, principalmente para aqueles que conseguem perceber estas referências muito bem humoradas.

O destaque fica para alguns outros personagens do mundo Mauricio de Sousa que ganharam versões adolescentes também: a bela Marina (namorada do Franjinha), o Astronauta (que agora é adulto), o Blog (que antes era conhecido como Bloguinho) e a linda vilã Cabeleira Negra.

Desta vez, mudo a minha opinião e acredito que se seguir esta linha a Turma da Mônica ainda terá muito que explorar! Recomendo!

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Turma da Mônica Jovem: Segunda Edição

Finalmente chega as bancas a segunda edição do sucesso Turma da Mônica Jovem. Conforme um informe do próprio Mauricio de Sousa, Turma da Mônica Jovem superou todas as espectativas quanto a tiragem inicial, onde mais de 200 mil exemplares foram vendidos. O sucesso, como ele mesmo mencionou, se deve ao fato das pessoas ficarem curiosas de como seria a Turma da Mônica se eles pudessem crescer.

O primeiro volume responde a estas questões e introduz uma história, onde uma feiticeira chama Yuka aprisiona os pais da turma, sendo que estes só poderão serem soltos assim que a turma encontrar quatro artefatos espalhados por quatro dimensões diferentes.

Sendo assim, neste segundo exemplar a Turma da Mônica é transportada para Mavidele, uma dimensão cercada por anões, trolls e criaturas pequeninas. Em referência aos RPGs como Dungeons & Dragons, cada personagem da turma encarna um papel: a Mônica é uma elfa, o Cebola é um guerreiro paladino, o Cascão é um ladino – um ladrão especialista em abrir portões, cofres e armadilhas – e Magali é uma maga.

Depois da novidade inicial, resta que a história seja um atrativo para manter os leitores fiéis a revista. Porém a história é massante, muito morna e os temas desenvolvidos já estão mais do que batidos. As piadas utilizadas não têm mais tanta graça e algumas vezes confesso que não entendi qual era a ironia da situação.

Seria mais interessante se a história acontecesse em nossa realidade, como na primeira edição, ao mostrar o dia-a-dia da turma. Como o cenário se passa em outro ambiente, a magia por trás da nostalgia acaba por se perder. Claro que nem tudo está perdido, afinal este é o somente o segundo número, porém os responsáveis pela produção da história terão que se reunir e planejar melhor o enredo, caso contrário ficará muito cansativo acompanhar histórias que já não funcionam mais.

O ponto forte continua nos pontos onde relembramos as personagens infantis. Quase sempre eles se confrontam com situações onde a personalidade das personagens de outrora continuam presentes na adolescência. Outra coisa que vale salientar é o desenho, que para mim funciona perfeitamente quanto a proposta da revista.

Continuarei acompanhando a revista e postando minhas impressões aqui. Espero que a Turma da Mônica Jovem encontre o seu caminho, pois a HQ promete bastante!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A Guerra dos Ratos, Gatos, Porcos e Cães


A literatura por trás da Segunda Guerra Mundial é vasta e muito bonita. Por trás de um acontecimento tão cruél e violento surgem centenas de histórias comoventes de resistência e heroísmo. O nazismo, definitivamente, antes de tudo foi uma epidemia de insanidade coletiva que assolou a Alemanha no passado.

Hoje ninguém consegue entender exatamente o porque aquilo aconteceu, nem mesmo os nazistas, após serem capturados, conseguiam justificar com clareza as atrocidades que cometeram, justamente porque não havia explicação: foi tão somente o lado bestial humano liberado para que a sua face animalesca prevalecesse sob a falsa razão, aparentemente, dominante. Quando cai a máscara percebemos que o animal mais selvagem que todo o reino selvagem continua sendo o homem, como se fosse um berserk.

Para mim, o retrato mais cru e emocionante de um destes episódios não está presente nem na tradicional literatura, nem no cinema, mas sim nos quadrinhos: falamos de Maus (ratos, em alemão), do ganhador do prêmio Pulitzer Art Spiegelman – publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras e compiladas em um único volume. A história é retratada através de uma série de entrevistas que ele realizou com o seu pai, um dos sobreviventes judeus e refugiados nos EUA.

O que faz Maus ser diferente de tudo o que você já viu é a forma como o relato é apresentado: nos traços simples e sem grandes detalhes de Spiegelman, temos os judeus retratados como ratos – fazendo uma analogia com os seres que sempre estão fugindo. Os nazistas são os gatos, aqueles que estão sempre atrás dos ratos. Os poloneses são os porcos – animal que não inspira confiança e acaba por trair o seu próprio povo em busca da própria salvação. O exército do EUA acaba por ser os cães, aqueles que caçam os gatos e salvam os ratos.

Além disto a trama é apresentada de forma direta e sem adornos, sem música de fundo, sem diálogos complexos ou comovidos, são simplesmente pessoas fazendo o que têm que fazer para sobreviver, se adaptando ao conflito e aprendendo a conviver com as perdas e a transformação de um cenário tranquilizador para um cenário caótico.

O pai de Spiegelman é retratado como um judeu chato, irritante, porém sincero e honesto. Isto não faz dele somente um herói, mas um homem como um outro qualquer inserido num contexto insano. Se o nosso mundo fosse virado do avesso como reagiríamos? Em Maus observamos pessoas nesta situação. Não há exageros nas histórias de seu pai, nem enfeite, nem cores e nem pinturas. Tudo é contado com naturalidade e frieza . Talvez seja este não carisma que torne os personagens tão carismáticos.

Talvez porque eles não sejam nem um pouco perfeitos é que podemos sentir, através da leitura, um pequeno fragmento do que experimentaram, visto que nós nos reconhecemos como seres imperfeitos, e isto dói bastante – a ponto de derrubar lágrimas durante as páginas.

E mesmo após a leitura deste clássico – e de tantos outros que já foram lançados acerca do tema – e mesmo após assistir tantos filmes tão bem representados, continuamos sem entender do que se trata tudo isto e quem é este ser que aparece toda a manhã em nosso espelho.

sábado, 23 de agosto de 2008

A Turma da Mônica Adolescente

Nesta semana chegou as bancas de todo o país uma HQ de conteúdo duvidoso, porém instigante: Turma da Mónica Jovem (Editora Panini - R$ 5,90) dos estudios Mauricio de Sousa. Se trata nada mais nada menos - como se espera no título - do que a velha turma da Mônica numa versão adolescente.

Ao saber do projeto a primeira coisa que me veio a cabeça é uma certa repulsa. Afinal, para quê estragar personagens de nossa infância com personagens que podem descaracterizar toda uma época? Sim, a primeira imagem de divulgação (que você vê logo abaixo) me causou um certo mal-estar.


 A temática iria envolver problemas como sexualidade, drogas, relacionamentos amorosos, e todo o inferno que somos obrigados a passar na fase de transição de uma criança para a maioridade. Era o fim. Porque Mauricio de Sousa se permitiu tamanha ousadia? E o respeito com os leitores antigos? Enfim, não estava mais somente desconfiado, porém muito bravo.

Eis que finalmente o projeto se realiza e a primeira edição chega as bancas. Não me contive. Uma curiosidade maior do que a minha indignação fez com que eu adquirisse a edição e lê-se imediamente. Como é que seria o projeto? Como será que Mauricio de Sousa imaginaria suas criações se elas pudessem crescer? Portanto a sorte estava lançada.

Após a leitura, um certo alívio: o resultado ficou bem legal, acima das minhas espectativas em relação a idéia, embora esteja aquém em relação à uma boa história de quadrinhos. Tudo bem que é só uma história de entrada e a trama promete bastante. Toda a experiência durante a leitura é um misto de nostalgia com ousadia, e isto o projeto soube explorar com muita competência.

Mônica cresceu, é uma linda garota, ainda dorme com o seu coelhinho Sansão, inteligente - logo na primeira cena ela dorme com um livro na mão - com um temperamento forte e com muita personalidade.

Cebola está com um corte de cabelo bem legal, fez tratamento para a dislalia e agora só troca os "r" por "l" quando está muito nervoso - geralmente na presença de uma garota, principalmente a Mónica, por quem sempre teve uma queda.

Cascão sempre está envolvido com esportes radicais. Agora ele toma banho e demora horas debaixo do chuveiro. Magali continua gostando de comer, porém agora mantém uma dieta controlada para manter o seu corpo sempre em dia.

Franja continua inteligente e trabalha num museu. Licurgo - o antigo Loko - agora é professor dos mais excêntricos. Céuboy - o antigo Anjinho - é um guerreiro divino com longas asas. Poeira Negra - o antigo Capitão Feio - é o grande vilão.

Enfim, a turma continua sendo a mesma. A história continua sendo agradável e bem humorada, nada muito polêmico ou que pudesse surpreender demais. É apenas um outro universo, com personagens mais velhos situados nos dias de hoje, onde computadores e celulares prevalecem. Recomendo este Turma da Mônica Jovem e continuarei acompanhando as próximas edições, pois como entretenimento é uma ótima pedida, assim como os momentos de nostalgia que os autores sabem aproveitar, fazendo com que os leitores antigos possam relembrar a sua própria infância onde Mônica e seus amigos sempre nos acompanharam.

Ótima supresa.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Os Leões de Bagdá: Uma Leitura Existencialista

Não é de hoje que eu digo que quadrinhos não é mais somente coisa de criança, afinal as crianças de outrora cresceram e adaptaram algumas diversões da infância para os seus dias - a história se repete com o videogame. Grandes celebridades intelectuais, reconhecidos inclusive pela literatura, estão presentes neste meio, como é o caso dos britânicos Alan Moore (criador do aterrorizante e apocaliptico V de Vingança) e Neil Gaiman, que colocou uma HQ (história em quadrinhos) pela primeira vez na lista dos livros mais vendidos da New York Times.

Atualmente temos uma série de escritores de HQ que desenvolvem histórias com temáticas adultas e complexas, que vão desde critícas ao sistema político americano até a extremidade da crueldade e violência entre os homens. Um destes escritores é Brian K.Vaughan, que já colocou um ex-superherói como presidente da república (Na série Ex-Machina) e um mundo onde existe apenas um homem e o restante da população é composta por mulheres (Y - The Last Man). Neste mês, a editora italiana Panini soltou em bancas e livrarias especializadas a sua obra "Os Leões de Bagdá", brilhantemente desenhada por Niko Henrichon. Esta é uma das grandes obras da literatura em quadrinhos, onde podemos tirar inúmeras lições e nos permite uma série de reflexões.

A história é baseada em acontecimentos reais, quando em 2003 quatro leões, sedentos e esfomeados, fugiram do zoológico, em plena ocupação americana, para as ruas de Bagdá. Seguindo esta premissa Brian K. Vaughan cria uma obra de características existencialistas e que faz valer a pena a leitura cuidadosa de cada página da graphic novel.

Já faz tempo que a comida não chega. Os leões tentam entender o porque não estão sendo alimentados, embora o seu universo seja restrito e eles não conseguem imaginar o que está acontecendo. Porém logo uma bomba cai no zoológico e eles têm a possibilidade de fugir em liberdade. Surge a primeira discussão, eles devem ir embora ou devem esperar que as coisas se restabeleçam?

Existe uma predisposição a se manter em seu local de origem justamente pelo medo do desconhecido. Afinal, o que estaria do lado de fora? Porém, vale a pena se arriscar? Os riscos trariam recompensas? Se os leões estavam felizes, porque trocariam o certo pelo duvidoso? Estas questões estão intrinsicamente ligadas a humanidade do ser, afinal quantas vezes não nos deparamos com a mesma situação? Quando sabermos qual é o momento certo de acelerar ou frear nossas vontades e nossas intenções? Enfim, desgraçadamente, somos obrigados a tomar uma decisão: seguir adiante ou nos mantermos inertes?

Na história, a fome e o desejo de ser livre faz com que três leões decidam tomar os caminhos da rua, afinal, como um deles afirma, a liberdade não é privilégio dos homens - se eles conseguem nós também conseguimos. Isto é uma crítica brilhante ao caracterizar o homem como um estranho a si mesmo, que não se entende, sempre está em conflito, comete atrocidades e ainda assim se firma como um ser livre. Se uma criatura tão problemática pode declarar a sua liberdade, porque eles, os leões, não podem?

No decorrer, o outro leão que havia ficado para trás também se junta ao grupo. Um universo totalmente desconhecido surge para eles: neste momento, o que há é somente a existência. Eles somente existem, mais nada. Com as experiências que eles irão adquirir em sua jornada é que eles formarão a sua essência. Eles foram arremessados no mundo e precisam tomar decisões.

Tudo é novo neste universo e tudo é muito estranho. Algumas pessoas estão mortas no chão, porém por mais que a fome seja grande, eles decidem não comer os corpos, afinal pessoas semelhantes a aquelas até há pouco tempo lhes alimentavam. Animais também tem o seu código de ética e moral. Mais uma vez Brian K.Vaughan faz uma crítica ao egocentrismo do homem. Conviver em sociedade não é uma característica do homem e todos os seres-vivos sabem fazer isto a sua maneira. Aqui há uma inversão: os homens foram mortos por eles mesmos, e quando os leões decidem não comê-los eles estão enaltecendo a propriedade animalesca do homem. É como se o autor quisesse dizer que mesmo no reino animal há respeito e moral entre os seres, e se há um animal selvagem de verdade este é o próprio homem.

Ao término, os quatro leões são chacinados por metralhadoras americanas sem saber a razão. Não há ameaça. Eles nem, ao menos, observam de onde vem os tiros. Simplesmente morrem. No contexto existencialista, onde a vida é um absurdo onde por mais que se faça algo, o fim será sempre a morte, este final é mais do que adequado. Não há significado em toda a trajetória dos leões. Em um momento eles estavam vivos, ainda que perdidos e sem entender sua própria realidade, e no momento seguinte estavam, inesperadamente, mortos.

O que Brian K.Vaughan desenha em seu enrendo é o próprio desenho da vida no contexto existêncial. As coisas ocorrem sem que haja sentido, tudo parece uma grande irônia. As decisões que os quatro tomaram entre ficar no zoológico e tentar a liberdade nas ruas não trouxeram nenhum significado para a história de vida que eles haviam construído até ali. Eles simplesmente existiram, miseravelmente começaram a adquirir uma essência, fizeram escolhas que não levaram a lugar algum e, fatalmente, morreram. Será que esta seria a liberdade que eles tanto procuravam conquistar? E qual a finalidade desta liberdade?

Para o existencialismo, a liberdade serviu, penosamente, para que eles escolhessem um caminho. Eles também poderiam ter optado por ficar no zoológico, mas preferiram descobrir a vida nas ruas. Sabemos que este escolha os levou a confusão e a morte, porém o que aconteceria se eles tivessem ficado? Não há como saber, pois não há previsibilidade na existência. Sabemos apenas que existimos, o resta se dá com a própria vida. Independente do que você faça, seja para o bem, seja para o mal, as consequências são aleatórias.

Enfim, como já dito, toda a vida não passa de um grande absurdo.

Os Leões de Bagdá
Brian K.Vaughan / Niko Henrichon
Panini Comics
* Vencedor do HARVEY AWARDS® 2007 como melhor graphic novel.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

The Passenger

A editora americana DC Comics, responsável por nada mais nada menos que os dois melhores personagens já visto nos quadrinhos, Superman e Batman, e pela criação do estupendo selo Vertigo, que lançou clássicos como V de Vingança, Sandman, John Constantine e Preacher, acaba de investir numa nova tendência do mercado editorial de quadrinhos: o chamado Web Comics. Como o nome sugere, são quadrinhos desenvolvidos especialmente num formato onde possa ler lidos na tela de um computador de forma agradável e cômoda.

Para isto a DC criou o selo Zuda Comics, que pode ser acessado através do site http://www.zudacomics.com, para hospedar e gerenciar o novo formato. Entre os trabalhos selecionados pela Zuda Comics se encontra o promissor "The Passenger", da autoria do brasileiro Alexandre Vidal, conhecido no site pelo usuário falexvidal.

A história trata das aventuras de Alberto, um fracassado bêbado que entra em um táxi muito bizarro, que acaba deixando o protagonista desembarcar em uma outra dimensão.

Por enquanto, a Zuda Comics disponibilizou somente as 8 primeiras páginas da história, que serve como uma excelente premissa do que vem por aí, além de deixar a personalidade do anti-herói bem evidente. Logo na primeira página temos o retrato perfeito de um perdedor. O roteiro é bem construído, recheados de irreverência e humor negro, assim como o excelente diálogo entre Alberto e o exotérico motorista de Taxi.

Mas o que chama a atenção de imediato ao se deparar com a obra de falexvidal é sua impressionante arte. Todas as páginas são surpreendentes e lembra bastante o traço do grande Fernando de Felipe, espanhol natural da cidade de Zaragoza, que ilustrou e escreveu histórias para a revista Heavy Metal e alguns roteiros para o cinema, porém o trabalho com as cores que falexvidal realiza deixa o seu trabalho ainda mais vivo e fantástico, como fica evidente em todas as 8 páginas desenhadas.

Pois chega de conversa! Entrem e confiram vocês mesmos. Não esqueçam de votar, e se possível, deixem a sua opinião registrada.

The Passenger
por Alexandre Vidal
http://www.zudacomics.com/node/261
Site Oficial do projeto: http://iam-thepassenger.com/

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Remember, remember...


... The 5th of november. Assim se inicia a magistral obra V de Vingança, da autoria de Alan Moore, que ficou mais conhecida, pelo público em geral, depois da adaptação para o cinema - que não agradou muito o autor, visto que grande parte da história sofreu alteração (ainda que a essência e a mensagem fossem mantidas).
V de Vingança se passa num futuro não muito distante, onde uma única voz guia todas as vontades e desejos através de um governo totalitário e o ser humano não passa de um fantoche deste sistema
V, que é uma espécie de herói, é quem trama a libertação desta sociedade fazendo enxergá-la coisas, além de introduzir novos conceitos, que até então as pessoas não conheciam, fazendo despertá-las para uma nova realidade. Entretanto, para o seu plano se concretizar, havia a necessidade de derrubar o governo e devolver o poder para a sociedade.

Esta obra representa, em essência, todo o ideal do anarquismo. Talvez um regime que tenha uma forte aproximação com a anarquia seja a solução para a primeira grande mudança, que deverá se configurar apenas como uma mudança provisória até uma nova organização política - visto que a organização é necessária para a evolução, caso contrário haverá apenas o caos. O importante é devolver ao povo aquilo que ele transferiu, obrigatoriamente, para uma outra pessoa que representasse os seus interesses e que acabou, fatalmente, lhe traindo.

Hoje, porém, eu percebi que as pessoas não estão prontas para esta mudança visto que elas nem ao menos se conhecem. Elas ainda precisam da ajuda de outros para poder se elevar, alcançar objetivos e dar um sentido a sua existência. É fácil ver um ser humano chorar, basta que alguma outra pessoa lhe magoe ou que lhe traga uma lembrança de algo que nunca mais irá retornar. Ela, apenas por si só, não consegue suportar a dificuldade que é a vida.

Como dito em posts anteriores, ela está sempre a fugir de si mesma. Porém o foco deste post é apenas fazer lembrar esta data (05/11) para refletirmos sobre outras idéias, sobre outras alternativas.

E que possamos considerar esta data como o "Dia Internacional da Consciência Anarquista".