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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sobre a Família No Retrato em Preto-e-Branco

Quem acompanha os meus textos deve saber que sempre menciono um conceito que é coração de como a nossa sociedade caminha á rápidos passos em direção à uma distopia digna dos livros de ficção científica do século XX - a saber George Orwell, Anthony Burgess, Aldous Huxley, Philip K. Dick, Douglas Adams e Isaac Asimov.

Este conceito eu chamei de máquina por uma razão bem simples: é o mecanismo que faz as coisas girarem em pró de sua própria vontade e que controla o nosso estado oriundo ao condicionamento global. Em palavras mais genéricas, a máquina é a responsável por gerar padrões de comportamento, moral, ética e pensamento.

Nestes modelos gerados pela máquina encontramos aquilo que eu chamo de hiper-real (que nada mais é do que algo que está para além do real, de modo que vivemos em cima de cascas sem jamais conhecermos o que está por baixo - devido a perca de referêncial).

Num exemplo típico de hiper-realidade temos a família tradicional como parte das regras do jogo a qual participamos enquanto seres integrados a vida inautêntica. Pois é da família que falaremos neste artigo.

A família, em grande parte, é o primeiro sistema opressor a qual entramos em contato mesmo antes de nascer. Este sistema é fundamental para implantar em nossa raiz alguns anestésicos que nos impossibilitam de ingressar numa vida onde a não-aceitação seja uma virtude valorizada.

O terreno perigoso inicia-se assim que é anunciada a gestação da criança em relação ao nome que será dado. Aqui há uma primeira batalha: a familia se esgota para saber qual nome será dado ao bebê que ainda nem chegou ao seu presídio. Um misticismo enigmático ilusório são os ingredientes para que o nome mais adequado seja selecionado.

Assim, mesmo antes de nascer, somos dotados de um signo que não é nosso. Logo se estabelece um contrato virtual de propriedade - que se extende por toda a existência - firmado com mais vigor na escolha do nome, que nada mais é do que a primeira marca que a nossa família estampa em nossa alma. Assim que nascemos temos um contrato não mais virtual, porém físico - chamado de certidão de nascimento.

Neste documento temos o nome de nossos pais como proprietários e o nosso nome - que não escolhemos - como objeto adquirido. Metaforicamente podemos dizer que nosso nome é uma espécie de marca queimada na pele e que a certidão é o certificado de aquisição. Aliados, os dois signos irão legitimar o que venho dizendo. Ou seja, antes de nascer nossa liberdade já foi aniquilada.

A relação de egoísmo e egocentrismo na família pode ser evidenciada nos pronomes possessivos a qual nos referimos ao chamar os nossos entes: 'meu' pai, 'minha' mãe, 'meu' irmão, 'minha' tia, 'meu' filho, 'minha' prima, 'meu' avô. Somos donos virtuais de todos eles. Cada um protagonista de sua história, o resto são meros coadjuvantes.

Por esta relação que é criada desde cedo, cada membro da família se considera o mais importante e com a maior quantidade de razão e bom-senso, geralmente dotado com a única verdade a respeito dos demais. Como numa empresa, ele se considera uma espécie de chefe onde gerenciar os demais se torna algo mais importante do que gerenciar-se a si mesmo.

Por isto estamos tão preocupados com os problemas dos outros e nos fazemos de vítimas (afinal não temos tempo para pensar em nós mesmos de tão ocupados que estamos com os demais - ainda que cada um se julgue apto a cuidar de si mesmo).

Ainda na infância, temos uma representa ínfima do que nos espera fora dali: a figura autoritária do patrocinador financeiro (numa família tradicional, quase sempre é o pai), a educação para nos adequarmos ao padrão da família - que é um retrato em preto-e-branco do que o universo espera de uma boa família, o castigo que nos aguarda caso não estejamos de acordo com o planejado, a pressão por seguirmos aquilo que foi estipulado para nós como meta, a decepção caso não consigamos atingir com satisfação todos os objetivos.

Aos poucos nossa inocência (liberdade?) será assassinada e perderemos o referencial do quê poderíamos ter sido, pois o que resta naquele corpo são vestígios da família e do mundo exterior (que nada mais é do que uma família gigantesca num contexto macro - por isto chamada 'sociedade').

Ao crescermos seremos donos de nossa própria família. Após aceitar as barbáries cometidas conosco, já não nos importamos de apenas obedecer. Logo isto não dói mais. Então quando nos tornamos pais, acreditamos alienadamente que a nossa educação foi a melhor e que devemos dar a mesma dose para os nossos filhos. É a nossa sádica e inconsciente vingança. É a nossa vez de aproveitarmos para descontar o que fizeram conosco.

É a nossa chance de ajudarmos a máquina a fabricar cidadões iguais a nós, seres iguais a todo mundo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Sobre Ética, Ações, Sorte e Maldade

Já faz muito tempo que venho alertando sobre o perigo do capitalismo na era do hiperconsumo e do hiper-realismo. Eu sempre ansiei pelo momento em que o capitalismo cometeria suicídio e que precisássemos rever todo este sistema podre. Não há evidências para afirmar que ele morreu, mas que ele engasgou nas ultimas semanas não resta a menor dúvida!

A máquina deu uma falhada. Ela, que sempre regeu o conteúdo dos mídia, agora é protagonista dos quadrados mágicos de cada um dos televisores presentes no lar de cada humandróide. Também está na internet e nos papermídias. E para o nosso deleite, eu falarei um pouquinho sofre a crise da máquina, alguns burburinhos, sobre a vontade do real prevalecer sobre o hiper-real (embora acredito que ele apenas vai ficar na vontade) e sobre a espectativa do que irá acontecer em breve.

Veja o artigo A Máquina Engasga para entender o mercado de ações a crise atual.

Dado estes esclarecimentos, vamos aos fatos. Esta crise tem impacto direto na nossa vida? Se você tem dinheiro aplicado, será afetado diretamente. Caso contrário, também será afetado, mas indiretamente: no caso das multinacionais, caso alguma quebre, como a citada GM, haverá desemprego no Brasil. O Brasil é um país em ascensão e os investidores estrangeiros sabem disto, porém os países envolvidos diretamente com a crise cada vez mais deixarão de importar parte de nossa mercadoria – que representa uma boa parte de nossa economia. O prejuízo que algumas empresas tiveram lá fora podem refletir negativamente aqui quando eles tentarem equilibrar suas finanças: isto se traduz em preços mais altos.

Também pode acontecer de países como o Brasil, em ascensão, se dar bem durante a crise e receber mais investimentos de especuladores, visto que tendência é que eles invistam sempre onde é mais certo que irão lucrar. Não dá para saber ao certo o que irá acontecer, vamos esperar. De fato, de alguma forma seremos afetados. É por isto que a bolsa de valores é considerado um jogo de sorte, assim como o carteado, e muitas vezes não tem lógica alguma. Nunca dá para saber o que irá acontecer no momento seguinte, pois o efeito bola de neve existe e esta aí: todos estão amarrados uns aos outros, se um fica gripado, todos ficam.

Veja o artigo Crítica a Uma Política Globalizada para entender como a globalização nos prejudica no dia-a-dia e como as coisas podem piorar.

Entre tantas incertezas, estou certo de algo: a máquina nunca foi e nunca será do bem. Ou seja, estamos envolvidos por um sistema malicioso que não deseja nenhum bem ao cidadão que convive em seu núcleo. Um sistema mal precisa de algumas pessoas más, que atuam como guerreiros a serviço da máquina, e um monte de gente tapada para acreditar em suas baboseiras. Sendo assim, caso você seja alguém de bem, que faça sempre as coisas dentro da lei, que respeite o direito do próximo, enfim, uma pessoa rica em virtudes e moralmente correto, será um mero fantoche para a máquina e o sistema do hiper-real. Esta é a idéia: que o mal governe e o que o bem seja governado. Não há espaço para os dois numa escala igual porque eles se contradizem. Eles não se conversam.

Um capitalista bem sucedido é aquele que não tem vergonha de passar a perna no seu próximo e não hesita em destruir vidas para o seu objetivo ser alcançado. Um bom capitalista é aquele que suborna para passar impune as leis que ele mesmo cria para ter a sociedade ainda mais na mão. É difícil imaginar como seria um capitalismo limpo. É como tentar pensar um quadrado redondo.

A questão onde pretendo chegar é meramente ética: se o capitalismo é a salvação de um mundo selvagem, porque não somos todos felizes? Porque cada vez mais o homem é distanciado da convivência em grupo? Porque o sistema insiste em nos manter isolados e trancados dentro de algo pequeno e específico?

Hoje temos tantas variedades de escolha que gosto de bandas que nunca ninguém ouviu falar, vejo filmes que jamais passarão na TV e leio livros de caras que são tão bons, que quanto mais eu divulgo suas obras mais tenho certeza que ninguém lerá (afinal estão entretidos com o ‘relevador’ “O Segredo” e o “Código da Venda”). Sendo assim, não surge espaço para debates. Também estou sozinho, tanto quanto todos os outros neste mundo globalizado. Mais uma vez surge o problema da diversificação e da hiper-realidade.

Se o capitalismo realmente é mal, todas as pessoas que fazem parte dele seriam, necessariamente, más? Não. Os únicos que são maus mesmos são os que estão no topo do mundo, no controle das coisas. O restante não tem ciência de que estão contribuindo para enriquecer algo que não se importa com eles mesmos. Alguns outros sabem do que estou falando, mas não tem uma alternativa para escapar desta força poderosa. Ou seja, a grande parte das pessoas não são más, porém muitas vezes cometem pequenos delitos éticos e morais sem saber (para que elas não tomem conhecimento de seus crimes, a máquina fornece brinquedos para mantê-las entretidas e não questionarem os seus atos).

Vamos exemplificar com o mercado de ações, visto que é este assunto que motivou a sequência de artigos que estou trabalhando neste momento: para qualquer investidor, seja um dinossauro ou um frango, a conduta é a mesma. Comprar ações num valor menor para posteriormente vendê-las num valor maior, de modo que possa lucrar. Todas as coisas no capitalismo funcionam exatamente desta forma, porém vejam que neste simples gesto existe uma falta contra o humanismo grave, porém imperceptível:

Você, quando comprador de ações no mercado especulativo, espera ser o bam-bam-bam que irá comprar ações baratas de uma empresa e irá esperar até que surja um tapado que aceite comprá-las por um valor maior do que você pagou. Porém você também é um tapado, afinal o cara que vendeu os papéis para você pensou exatamente a mesma coisa. Muitas vezes, quando perder dinheiro, tentará reaver os seus prejuízos a todo custo, e isto poderá lhe levar, fatalmente, a ruína. Percebam que nem há tanta diferença entre o bingo e a bolsa de valores, o ingrediente para vencer e perder nos dois é o mesmo: a sorte.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Crítica a Uma Política Globalizada

Uma coisa é certa: com esta crise, tem muita gente que acordará bilionária quando tudo isto passar, assim como na época da chamada Grande Depressão. E isto é desumano e terrível, neste caso, gancho de direita da máquina: monopolização. Já disse por diversas vezes que sou contra a globalização e o discurso “todos somos uma só raça, numa só língua, numa mesma moeda, conectados por todo mundo e num único coração”. Tudo parece muito bonito mas eu vejo como muito perigoso.

Há pouco tempo atrás havia diversificação no capital: você comprava verduras em um local e frutas em outro (os dois eram amigos). Arroz e feijão no mercado, bebidas no bar. No barbeiro você fazia a barba e no cabeleleiro cortava o cabelo. Ia no cinema assistir um filme e comprava pipoca do pipoqueiro, que quando não ficava do lado de fora, era amigo do dono do cinema e pegava um espaço para comercializar o alimento. Naqueles tempos, a coisa era mais justa e quando você achava que o preço não estava de acordo com o que pretendia pagar, falava diretamente com o dono, que iria lhe propor um desconto. Caso contrário, você iria na loja do seu concorrente, porém a camaradagem era tão grande naqueles dias em que as pessoas eram mais próximas, que dificilmente isto acontecia. Era a tal da clientela: cada estabelecimento tinha a sua, geralmente um conglomerado de ruas, e as pessoas se chamavam pelo nome e amizades eram solidificadas.

Porém o Deus-Dinheiro, desde o princípio do mundo – arrisco dizer que ele é o único Deus e o único princípio deste inferno – falou mais alto. A própria “evolução” do tempo fez com a ganância do homem por cada vez mais – este que foi criado a imagem de seu superior –ascendesse o pávio de sua inveja: visto que o “amigo” do bar estava ganhando bastante dinheiro no verão, o mercado passou a vender, além do arroz e do feijão, a bebida. Assim ele passou a se chamar supermercado. Logo ele passou a agregar a função da feira: verdureiros e fruteiros foram para o espaço. Vendo que o negócio era rentável, ele trouxe para si serviços como cabeleiro, barbeiro e cinema num único recinto. Assim nasceu o hipermercado, que como um bom artefato do hiper-real, existe para além de suas necessidades: além de comprar arroz e feijão, você pode se produzir, jogar boliche, assistir um filme e se divertir! Hoje não é tão incomum você pegar sua família passear no hipermercado no final-de-semana.

Consequência: com a variedade de serviços e produtos, o barbeiro foi extinto deste mundo centralizador. O cabeleiro da esquina foi procurar emprego num Soho. O mercadinho do Seu João agora dá lugar há um apartamento. Conclusão 1: desemprego. Conclusão 2: onde antes havia R$ 1000,00 por mês na mão de 1000 pessoas, sendo que todos viviam bem, agora se transforma em R$ 900.000,00 na mão de uma pessoa só, sendo que só ela vive bem. Os outros R$ 100.000,00 foram divididos entre as 1000 pessoas que ficaram desempregadas e foram contratadas, graças ao seu “know-how”: agora todas beiram a miséria com os seus míseros R$ 100,00 por mês e precisam fazer malabares para sobreviver.

Todos estes números são fictícios e servem apenas para ilustrar nossa breve história. O fato é que esta política centralizadora quebrou todos os pequenos. Quanto aos médios, eles viram-se forçados a fazer acordos com estes peixes grandes e a maioria vem sendo compradas por eles. Um caso de um grande que vem abocanhando tudo é o próprio Google (inclusive este blog está hospedado num serviço que eles adquiriram há um tempo atrás, o blogspot): recentemente eles lançaram seu próprio aparelho celular. Segundo as estatíticas do Analytics (ferramenta da Google para analisar tráfego na Internet), 99% das pessoas que lêem esta notícia chegaram aqui através do mecanismo de buscas do Google.

Quando apenas os grandes prevalecerem, eles terão controle sobre tudo aquilo que podemos adquirir e qual o valor devemos pagar. É mais ou menos como acontece com o carro no Brasil: ou você paga absurdamente caro ou fique sem. Enquanto isto acontece com bens de consumo duráveis, dá para sobreviver, quando começar a acontecer com os commodities, iremos morrer de fome. O termômetro sempre será o bem de consumo durável: quando ninguém mais começar a comprar estes bens, a política terá que ser revista antes mesmo de chegar aos alimentos. Por mais normal que pareça, existe algo de podre no mundo que já está cheirando merda faz algum tempo: o monopólio na área de serviços. Em São Paulo, por exemplo, somos obrigados a contratar serviços da espanhola Telefônica e energia elétrica da Eletropaulo. Existe alguns concorrentes de fachada (eu disse fachada).

O fato é que cada vez menos empresas serão donas do mundo. Não haverá espaço para concorrência e o futuro se tornará cada vez mais assombroso, pois a geração vindoura não poderá entrar nos segmentos que já estão monopolizados e apenas alguns poucos irão brilhar com algumas idéias revolucionárias (que provavelmente serão compradas por algum dinossauro pioneiro que dará um jeito de aplicá-las ao seu negócio).

O que me assusta nesta atual crise econômica é esta sensação de monopólio que pretende se instaurar: na época da Grande Depressão, diversos banqueiros enriqueceram tanto que hoje são as figuras mais importantes do império capitalista, isto as custas de muita miséria. Hoje estes banqueiros são donos da Federal Reserve, uma espécie de Banco Central, porém, diferente do Brasil, é uma instituição privada, ou seja, o dinheiro tem, literalmente, dono.

Agora pasmem: uma das empresas que mais estão ganhando dinheiro com a atual crise econômica norte-americana é o banco G.P. Morgan – detalhe: eles são um dos principais donos da Federal Reserve (a mesma que há pouco tempo negou um pacote de dinheiro monstruoso que iria equilibrar o mercado de ações e aliviar a crise, fazendo assim centenas de empresas decretarem falência). Além de lucrar, eles estão condicionando outros bancos a sua mercê: o quarto maior banco do EUA acaba de falir (Lehman Brothers), um concorrente a menos.

Cada vez mais o mundo sente as dores de crises de outros países justamente porque temos tantos negócios com eles que, caso um deles afundem, os outros afundam na sequência – o chamado efeito dominó, pois se criou uma interdependência para que não tívessemos que competir com estes dinossauros (no caso dos hipermercados, entenda-se Wal-Mart e Carrefour, no caso de veículos nem temos uma empresa brasileira e os estrangeiros competem entre si em terras tupiniquins).

Todavia, por mais que a minha tese se confirme, vejo tudo isto com bons olhos, pois o que eu achei que ainda demoraria anos para se concretizar se antecipou a todas as minhas análises anteriores. Logo a guerra cívil que eu tanto espero irá se iniciar e o sistema cometerá suícidio, conforme todas as espectativas que eu tenho a respeito de nossa sociedade.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A Máquina Engasga

Eu nunca havia entendido muito bem como funciona o mercado de ações e a bolsa de valores, porém um amigo elucidou melhor alguns pontos de dúvida e, aliado a um texto da revista Super Interessante de Novembro de 2008, as coisas ficaram mais claras. Fiquei um pouco mais interessado quando um outro amigo falou que tudo o que acontece neste mundo, onde o Deus-Dinheiro rege, se encaixa bem em meus sistemas filosóficos. Portanto resolvi dar uma conferida e observei que ele estava correto: é o hiper-real em suas mais diversas facetas.

Mas como funciona este tal do mercado de ações e o que é uma crise? Irei valer de um parelelo do texto da revista mencionada no parágrafo anterior que eu achei fácil de entender: no século XVII, precisamente na Holanda, as tulipas se tornaram uma espécie de flor eletizada: diversas classes detentora do dinheiro utilizavam da flor para demonstrar o seu status social, logo, o seu poder financeiro perante a sociedade. Haviam diversos tipos de tulipa e quanto mais raro o tipo, mais caro ele custava. Enfim, este era um mercado em ascensão e muitos estavam lucrando. Porém, as tulipas só eram comercializadas na primavera, que é o período a qual estavam prontas para serem vendidas, sendo que no resto do ano não havia negócio.

De olho no mercado, uma série de especuladores começaram a comprar os bulbos dos floristas (que é a raiz da tulipa) ainda no inverno, pois quando chegasse a primavera eles esperavam poder lucrar com a valorização do produto. Eles não levavam este bulbo para a casa, levavam apenas um papel para casa dizendo que a tulipa era dele e que qualquer lucro ou prejuizo era por sua conta e risco. Este papel é chamado de “título” no mercado de ações.

Por fim, um especulador não precisava necessariamente vender a tulipa assim que ela despertasse para um comprador. Ele poderia apenas vender o seu título para outros especuladores. Então, se ele pagou R$ 5,00 ao florista, poderia vender por menos lucro para um outro especulador, ou por mais lucro para o comprador final. Nesta época e neste mercado, não havia histórico de prejuizos. Sendo assim muitos queriam enriquecer e não tinham dinheiro para comprar títulos. A solução foi pedir dinheiro emprestado para comprar estes títulos e com o lucro das vendas pagar o débito e ficar com o saldo. Isto é conhecido como alavancagem. Assim mesmo quem não tinha dinheiro podia ficar rico.

Porém a máquina sempre foi uma meretriz sedutora... Para que todo este sistema lindo e maravilhoso se sustentasse, os preços das tulipas deveriam continuar subindo até o fim dos tempos, o quê – e isto é mais claro do que o branco – jamais aconteceria. Porém o sistema entrou em crise mesmo quando descobriram que no mercado dos especuladores estavam vendendo títulos falsos, ou seja, que não dava direito a nenhuma tulipa (a tal da fraude). Isto levou à todos a uma crise de confiança, pois ninguém mais queria comprar estes títulos, visto que não havia como saber o que estavam comprando. Os donos dos títulos, na época, foram a falência, pois seus papéis não valiam mais nada: eram títulos podres.

No mercado de ações a coisa funciona mais ou menos assim, e a crise da máquina – também chamada de crise imobiliária – se assemelha a crise das tulipas: investir em imóveis parecia o investimento mais seguro, pois eles subiam de valor mês a mês, e se o comprador do imóvel não pagasse por ele, os donos dos papéis poderiam reavê-lo. Começaram a investir tanto neste mercado, que logo ele foi esgotado: não havia mais ninguém interessado em comprar residências.

Então a máquina fez uma jogada desleal, rebelde e sarcástica que enganou todo mundo: como não havia mais para quem vender, começaram a conceder crédito para quem não tinha como pagar! Isto para manter os papéis valorizados! Tenho certeza que muita gente envolvida nisto ficou rica ou ainda mais rica da noite para o dia: em tese bastaria vender os seus títulos enquanto eles ainda estavam em alta, pois é óbvio que em breve aconteceria uma tragédia no mercado de ações que faria despencar cada título! A bomba estava armada!

Antes mesmo do golpe dos inadimplentes, os títulos começaram a desvalorizar, afinal não havia mais para quem vender moradias! Nem mesmo para aqueles que não podiam pagar! Logo, os papéis começaram a perder valor. Este foi o primeiro golpe. Na sequência, a inevitável inadimplência surgiu como o golpe derradeiro. Era praticamente o fim. As pessoas que não tinham como pagar foram sendo despejadas de suas casas, e obviamente o preço dos papéis cairam ainda mais, afinal sobravam mais e mais casas para vender sem ter para quem.

Se lembram da alavancagem? Muitas empresas e bancos sobrevivem neste sistema. Para cada valor lucrado, pede-se emprestado valor lucrado x 10 (por exemplo) para investir no mercado de especulação e fazer movimentar o sistema. Logo, muitas empresas são somente papéis circulando no mercado. Ela nem sempre tem caixa e todo o seu valor patrimonial está circulando no mercado de ações. Quando uma empresa que é só papéis vêem os seus títulos se desvalorizarem tanto elas podem chegar a falência, pois ela não vale mais nada no mercado, seus papéis que antes eram tão valorizados agora são papéis podres. A empresa precisa pagar os seus funcionários e sua mão de obra com o dinheiro do mercado de ações, mas como ele não vale mais nada, não tem como pagar os funcionários e nem como produzir mais.

Para não fechar, estas empresas vão até os bancos e pedem empréstimos. Mas com esta crise que estamos passando, são muitas empresas com o risco de prejuízo muito alto. Começa a tal crise de confiança. Os bancos, com medo de perder dinheiro, fecham os caixas e param de emprestar dinheiro para eles mesmos! As empresas, necessitando de recursos, começam a fechar uma atrás da outra (o nome do momento é a GM, que está sem crédito e suas ações chegaram a 31% de desvalorização). A desvalorização chega a tanto, porque com medo que possam perder ainda mais dinheiro, os investidores vendem todos os seus títulos de uma única vez e eles ficam lá, a preço de banana, sem ninguém com coragem suficiente para comprá-los, visto que o risco é altíssimo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O Hiperconsumo e a Pobreza Global


Este post faz parte da iniciativa Blog Action Day 2008 onde neste ano o tema a ser discorrido é a pobreza mundial. Até o dia que eu me inscrevi, já havia quase 8000 blogs inscritos como participantes deste evento que a cada ano movimenta a blogoesfera para a conscientização de problemas sociais gravíssimos.

A camada mundial que vive em condização de extrema miséria é um fato. São milhares de pessoas que dormem em locais inapropriados e que acordam sem ter o que comer. Pior é que esta faixa não tem nenhuma expectativa de melhora em sua qualidade de vida. Pessoas morrem de frio e de fome. Enfim, o cenário é apocaliptico e cruel. Mas isto não deve ser nenhuma novidade para você, não é mesmo?

Sendo assim a questão é: como podemos nos manter indifirentes, côncios que estes fatos são verdadeiros? Como podemos elaborar piadas com a casta mais marginal existente na face da Terra? Como pode um cachorro ter um tratamento infinitamente superior à de um homem, enquanto pessoas vivem como animais na selva?

Quando passamos a analisar as questões, podemos entender que convivemos bem com isto justamente por parecer que esta “realidade” está bem distante da nossa. É como se fosse um filme a qual conhecemos a história, nos emocionamos, debatemos a respeito da mensagem, porém não faz parte do nosso dia-a-dia. Alguns, covardemente, se isentam de culpa ao pensar que não podem fazer nada, pois não são responsável pelo mundo como ele é. Desta maneira, condenar o governo ou fatores externos representa um alívio na consciência destas pessoas.

De fato, isto acontece justamente porque abandonamos a vida social para mergulhamos definitivamente numa vida individualista, egoísta e egocêntrica. Desta forma cada ser no universo cria uma realidade única para si, onde há somente uma história onde este ser é o único protagonista e todo o resto são meros coadjuvantes. Não mais compartilhamos uma única realidade. Agora temos milhares e milhares de realidades presentes num conjunto a qual eu chamo de hiper-realidade.

Hiper-realidade não significa realidades falsas, porém infinitas realidades verdadeiras, de tal modo que se perde o referêncial de um real a qual todos os seres compartilham. Deste modo, simplesmente não conseguimos mais nos sensibilizar o suficiente com as pessoas que vivem em situações de miséria, justamente porque estes vivem em uma outra realidade, num outro universo.

A hiper-realidade surje paralelamente com o hiperconsumo, cuja máquina, geradora de padrões de comportamento e conforto, irá utilizar como artefato de conquista de poder e controle. Desta forma surgem centenas de objetos que irão atuar diretamente em nossa raiz animal e irá nos tornar seres pacatos, condicionados, distantes e aparentemente felizes.

Hiperconsumo é aquele consumo brutal que não tem razão de ser. A sua existência se deve apenas pela fome que as pessoas tem em consumir. Esta fome é gerada pela imagem que atua diretamente em nosso espírito, ou seja, através das propagandas vinculadas pelas mídias de massa. Vivemos em um mundo onde imagem é tudo. Contemplamos tudo aquilo que é belo aos nossos olhos. Definitivamente a máquina trabalha para embelezar os objetos de consumo, de modo que eles se tornam tão sedutores, que desejamos tê-lo a qualquer custo.

Quando possuímos estes adornos ficamos fascinados a ponto de chegar num nível tamanho de satisfação que atingimos um nível pleno de felicidade e bem estar. O objeto rege a vida na era da hiper-realidade. Um destes objetos é o telefone celular: ele foi criado com a finalidade de ser um telefone portátil. Mas como as pessoas podem trocar seus telefones celulares varias vezes ao ano se a sua função elementar está presente desde os primórdios? Justamente porque o objeto vem agregando valor as suas funcionalidades: câmera fotográfica, filmadora, gps, navegador de internet, jogos e bloco de notas, entre outros.

Além disto, esteticamente ele vem ficando cada vez mais bonito. Como dito anteriormente, imagem é tudo, portanto o objeto se torna sedutor e as pessoas se apaixonam por ele. Não há mais limites para o ser, a não ser adquirir o objeto de desejo do momento, mesmo que tenhámos um que seja equivalente em funcionalidades.

É atuando na área do prazer que estes objetos faz com que criemos focos de atenção específicos para a nossa realidade e deixemos de lado o que é importante para o mundo. Todo este hiperconsumo representa o alívio do ser quanto aos problemas de origem social.

Recentemente o IBGE divulgou o resultado do último censo, onde observamos que 90% das famílias no Brasil ganham menos de R$ 3000,00 por mês – isto num país onde um aparelho como o IPhone custa R$ 2000,00 e onde um carro popular, sem vidro elétrico, nem trava, nem direção hidráulica e nem ar-condicionado, custa em torno de R$ 30000,00 (sendo que ano após ano recorde de vendas são registrados).

Isto só faz a pobreza aumentar no mundo, visto que desejosos pelos objetos de prazer, as pessoas se entorpecem de dívidas por todo o canto e fatalmente cairão em desgraça em algum momento de sua vida. Pois a emoção não raciocina sobre o que acontecerá lá na frente. O importante é saciar a fome insaciável de consumo que toma conta dentro de nós.

Enquanto isto, movimentos como o MST e trabalhos de ONGs são ignorados por praticamente todos os cidadãos. Escandalos de corrupção entre os parlamentares e a justiça são flagados todos os dias. Pessoas morrem de fome no continente africano e em outros paises de terceiro mundo que se desenvolvem com base na exploração da classe mais miserável. Onde homens e mulheres trabalham em canaviais até 14 horas por dias para ganhar um mísero salário.

Mesmo com tudo isto, basta um telefone celular para que fiquemos felizes. Basta um MP3 player, uma televisão de 50 polegadas ou um carro novo. Basta para silenciarmos aos problemas do mundo, tão mesquinhos e prostituidos nós somos.

sábado, 30 de agosto de 2008

Suicidio Capital e Genocidio Urbano

Geralmente, em meus artigos, eu não faço pesquisas a procura de dados que comprovem uma determinada impressão que eu tenho a respeito das coisas. No máximo, eu recorro a uma sentença abstrata de um filósofo que pode ilustrar bem o que eu quero dizer. Claro que há algumas exceções, porém esta não-crença nas estatísticas tem uma razão de ser: o poder de manipulação das mídias.

Por isto mesmo, prefiro confiar em minha própria experiência com o mundo, através da observação, para concluir algum raciocínio. Isto não quer dizer que eu seja um empirista radical, pois esta fase já passou e entramos em uma nova era. Hoje, outros agravantes como condicionamento em massa e manipulação das emoções nos situam em um mundo onde nada mais parece real, porém hiper-real - ou seja, fictício, dramático e elaborado para que nossas vidas sejam semelhantes à telenovelas ou livros de ficção. Desta forma fica tudo mais previsível e sob controle.

Enfim, o fato é que todas as vezes que eu vou ao supermercado eu me espanto com o aumento de alguns produtos. E isto numa espécie de ciclo sem fim - nova visita, novo espanto, novas compras, mais dinheiro gasto com as mesmas coisas. Á cerca de 6 meses, meu carrinho custava R$ 170,00. Hoje o mesmo carrinho está custanto R$ 250,00. Este aumento se reflete também em outras categorias, como nos veículos: em 2006 um carro popular básico custava R$ 29.800, sendo que hoje este mesmo carro - sem nenhuma mudança - custa R$ 32.500.

Porém o que me preocupa é este aumento do supermercado, pois são os commodities - produtos essenciais - que estão aumentando demasiadamente. Vejam o caso do feijão que hoje custa mais de R$ 6,00 e que até há pouco não custava mais de R$ 2,50. Esta é a evidência. Alguns irão explicar que isto se deve ao etanol, onde pequenos e médio agricultores deixaram de produzir alimentos básicos para plantar cana-de-açucar, visto que é muito mais rentável (porque o preço do Etanol não diminue?). Outros irão propor novas teorias, e assim caminha a roda.

O fato é que o Brasil tem terras e mais terras produtivas sem produzir e que um país como o nosso só tem problemas de origem de auto-abastecimento devido a ganância das pessoas que estão preocupadas em enriquecer e devido á omissão de nosso governo. Porém nada justifica estes aumentos em commodities - eles simplesmente aumentam porque querem e porque não há fiscalização de verdade (se houvesse isto jamais aconteceria).

Estamos prestes a entrar numa crime: vai chegar um momento que o povo não terá mais dinheiro para consumir produtos não-essências (como eletrônicos e roupas) porque sua renda estará comprometida com os alimentos. Chegará um momento que a inadimplência chegará à níveis absurdos, graças aos financiamentos sem critérios e com taxas de juros altíssimas.

Então reinará o caos. Não haverá messias que nos salve desta situação. A pobreza estará em evidência e o capital entrará em um processo de suícidio, que aguardamos a tanto tempo e com tanta ansiedade. A máquina enriquecerá à um ponto que não terá mais como enriquecer, de modo que os produtos não poderão mais ser adquiridos a não ser pela classe altíssima - que é cada vez menos e mais restrita (embora a imprensa insista em dizer o contrário - mas, repare, caros amigos, desde quando uma família que têm renda acima de R$ 7.200 pode ser considerada de classe alta, como eles dizem?).

A classe mais miserável também aumenta e eles serão os primeiros a serem dizimados. Eles são o nosso termômetro: quanto mais aumenta a criminalidade, mais aumenta a classe dos esquecidos, pois o índice para comparação é o mesmo. A crueldade também aumenta: é a chance insana dos foras-da-lei se vingarem pela oportunidade que nunca tiveram ao torturar uma outra vida. É o grande momento deles.

A tendência é que em breve também cheguemos à esta classe. Se a nossa dignidade não sobreviver, daremos lugar ao fracasso e lutaremos como cães selvagens pela ingrata vida: nesta contexto é matar ou morrer.

Nisto o capital morre enforcado em sua própria corda, pois o capital nunca se preocupou em ser moderado, mas apenas com a luxuria e o com o glamour. Quando isto acontecer, muitos não existirão, serão apenas espólios de uma guerra invisível.

Porém será tempo de recomeçar. É o fim do capital, mas não o fim do homem, e entraremos num novo período que eu nem atrevo a pensar como seria. Melhor? Pior? Não há como saber, mas o ser humano prevalecerá. A máquina, enfim, estará morta e será estudada como mais um sistema que parecia inabalável e que mostrou sua fragilidade, assim como todos os outros desde o princípio da história do mundo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

O Vegetarianismo Contra o Hiperconsumo

Como já disse mais de uma vez neste blog, tenho consciência de que certas atitudes ambientais são uma maneira de resgatar uma forma social de educação que se perdeu em algum momento desde o início da era do hiperconsumo. Enquanto a maioria dos ambientalistas defendem estes movimentos como uma maneira de salvar a natureza - o que é verdadeiro - eu faço propaganda a favor destas ações para combater o exagero, o desperdício, o consumo extra-essencial e, consequentemente, a máquina. Foi assim quando eu resolvi escrever uma série de artigos contra o uso de sacolinhas de plástico e a favor da utilização de sacolas retornáveis: antes de ser uma questão meramente ecológica, é uma questão de bom-senso contra um consumo sem sentido e nem razão de ser, afinal, porque todas as vezes que você volta de um supermercado para casa você precisa trazer mais 50 sacolas contigo? Aproveite as que você tem em casa!

Enfim, desta vez chegou a hora de eu escrever de uma outra ferramenta para combater o hiperconsumo: o vegetarianismo. Neste post, pertencente a um parceiro na luta contra o pensamento fabricado, você encontra diversas informações interessantes sobre o vegetarianismo como uma arma para mudar o mundo.

O vegetarianismo cada vez mais parece estar na moda. A grande razão para a adoção desta cultura, que já vem de longa data e dos mais diversos grupos (desde religiosos ortodoxos até anarquistas), é o discurso de uma alimentação mais saudável, uma maneira de protestar contra o abuso contra animais - principalmente os bovinos - e contribuir com um mundo mais sustentável.

Porém, o vegetarianismo, ao meu ver, tem uma importância grandiosa na batalha contra um consumo desenfreado, tão característico em nossa época. Quem é vegetariano come menos, gasta menos e vive melhor, justamente porque não é adepto do exagero. A carne, principalmente a vermelha, atua diretamente em seu cérebro numa área responsável pelo prazer. Ou seja, é muito prazeroso comer carne vermelha. Não há como negar que o sabor é delicioso e que resistir a uma boa churrascaria é missão para poucos.

Sabendo disto, a máquina entra em ação: a carne se torna um alimento sacro. Desta forma condiciona toda uma célula - principalmente no Brasil, que é um país de cultura agropecuária - a consumir carne no seu dia-a-dia. Antes o que era conhecido como arroz-com-feijão agora é conhecido como arroz-com-feijão-e-carne - este sim é um típico prato brasileiro. A carne entrou num processo de hiperconsumo, basta visitar a geladeira de qualquer família em nosso país. Não há mais como viver sem o consumo de carne. Não ter carne nas panelas é visto como um sinal de quê "alguma coisa está faltando", ou de miséria (e este sentimento está enraizado dentro de nós). É o artifício da hiper-realidade: algo está para além do que realmente é, pois desde quando a falta de carne numa residência ou num prato quer dizer alguma coisa?

Com a massa sobre controle, a máquina faz uma jogada de mestre: no preço destes alimentos "essenciais" há uma hipervalorização e todos pagam sem consciência por ela. É comum reclamarmos que um quilo de carne está custando absurdos e ainda assim continuarmos comprando como se não houvesse outras alternativas para alimentação. Neste contexto, estamos escravizados pela máquina. É a perca de identidade do homem com o real. Ele não caminha livremente, mas é guiado por entre veredas obscuras.

O vegetarianismo é a alternativa para escapar deste condicionamento alimentar. Talvez não seja necessário interromper abruptamente a sua dieta, porém reduzir o consumo já é um grande golpe contra o hiperconsumo: além de gastar menos, você estará num processo de reeducação que lhe ajudará nas questões de saúde. O que não dá é para ficar participando de churrascadas sem fim. O churrasco NUNCA deverá ser o atrativo para reunir amigos e famílias, pois sendo a maior parte das pessoas condicionadas, elas irão apenas para comer, sem se importar com a ocasião. Neste caso, é melhor que estas pessoas nem mesmo apareçam.

O grande problema é que a máquina, com toda a sua sabedoria, entendeu que o público vegetariano é um público em ascensão. Neste contexto, ela precisa aumentar o preço da carne (para não perder o seu capital de giro neste segmento) e, como se não pudesse ter coisa pior, aumenta o preço dos vegetais, que é a alternativa de consumo proposta pela célula que combate o excesso a favor da natureza. Ou seja, os vegetais (que ainda assim estão com preços mais acessíveis do que a carne) estão subindo de valor devido a oferta e procura, como estratégia de controle da máquina. Quando um pequeno grupo conseguiu romper com as grades a qual fomos todos condenados, eis que a máquina aparece e trancafia todos os fugitivos em uma outra cela.

Mas por mais que a coisa toda pareça muito ruim, desta desgraça pode surgir algo de bom. Escreverei sobre isto num post que publicarei muito em breve.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Morte, Por Onde Andarás?

Desde o surgimento da máquina - com seus diversos modelos geradores de padrões e hiper-realidades - observamos um fenômeno grave nesta sociedade composta por humandróides: esquecemos de morrer.

Está tudo tão igual e tão acabado que a vida transcorre sem nenhuma novidade e sem grandes surpresas. Ao término de nossa vida deixamos de morrer para simplesmente desaparecermos - como uma espécie de robô que não tem mais utilidade e que é substituido por uma nova versão.

Somos como engrenagens da impenetrável máquina, afinal ela não existe sem os humandróides, ou seja, sem homens que sejam submissos a sua vontade num processo de extremo condicionamento. Inclusive, a máquina trabalha para criar apetrechos que seduzam aqueles que ainda não se converteram para que em breve se tornem humandróides como todos os outros (existe até mesmo um levante que lhe pressiona para que você viva uma vida como a deles, dentro da "normalidade" - para isto vale até mesmo internar estas pessoas nos manicômios, tratá-los com psicoterapia e remédios que freiem os pensamentos e atitudes).

Neste processo de homem como engrenagem de uma grande máquina, basta substituí-lo para que as coisas continuem da mesma maneira, numa reação fria e automática. Não há mais morte. O que temos é apenas o fim. É possível que um homem possa viver sem ao menos pensar em sua própria morte, o que eu vejo como absurdo. É preciso planejar a morte, não no sentido suicida, mas de quem você quer ser quando morrer. Do que você gostaria que as pessoas lembrassem de sua existência quando não estivesse mais aqui? Qual é o legado que você deixará para a humanidade? Enfim, como toda boa história, é preciso escrevermos o fim e deixarmos o nosso recado.

A morte é o ápice, o grande momento da vida. Afinal ela se inicia apenas para que um dia termine, o que é chamado pelos existencialistas como o grande absurdo de existir. Mas a vida é isto mesmo, algo sem significado, sem explicações, como um grande enigma, um grande mistério sem solução. Aí reside a grande magia e a intensidade por trás das mortas que faz com que a vida seja sensação.

Num mundo onde tudo é revelado, onde não há nada que não possa ser explicado, onde para tudo há uma solução, a morte passa despercebida, uma porque esquecemos de morrer e outra porque quando estivermos mortos não se lembrarão que um dia vivemos. Veja que não há glória na vida, pois há tantas metas que traçamos e cumprimos que não há mais surpresas. Quando uma meta não é atingida por força do inesperado, ficamos fulos, justamente porque não aceitamos que a própria vida não obedece critério algum e o mais coerente sería aproveitar o aleatório, tanto a adversidade quanto o bem.

Esta realidade é tão ilusória, devido a hiper-realidade que sobrescreveu todo o real, que a máquina, em sua estratégia perfeita, arremessou a morte para uma dimensão desconhecida, de tal modo que pela palavra morte consideramos algo que está para além do que aquilo que ela realmente é. Pois ao darmos significação a algo que não tem sentido (como consequência da própria vida) esquecemos de morrer.

Desta forma, cria-se algo semelhante ao pós-vida - uma farsa que representa a antítese da própria vida - onde temos a imagem da multiplicidade daquilo que estamos vivendo neste momento, que se repetiria em outras dimensões ou em outras vidas. Isto demonstra uma variação da morte no sentido hiper-real, de forma que a morte não signifique mais apenas o fim, mas uma passagem, o que não faz nenhum sentido neste contexto. Temos que reconhecer a morte como aquilo que ela realmente é, para que assim possamos viver a vida de forma justa e intensa.

Temos que resgatar a figura da morte e trazermos ela para perto de nós. No reconhecimento do fim poderemos, enfim, aceitar a vida exatamente como ela é, sem explicações e sem destruir o lado místico que ela possui, que tanto nos encanta e nos fascina.

domingo, 20 de julho de 2008

Hiper-realidade Em Ação!


Afinal, o que é hiper-realidade? Conceitualmente, podemos dizer que hiper-realidade seria algo como o real além do próprio real. É uma realidade criada através de modelos aleatórios que visam disfarçar o verdadeiro real. Porém, para atingir o seu objetivo com sucesso, são criadas infinitas realidades sobre o verdadeiro real sucessivamente, como numa espécie de teia-de-aranha. Desta forma, perdemos totalmente o referencial e não há mais a possibilidade de conhecer o que é realmente verdadeiro e o que é falso.



Conforme o gráfico acima, a revolução da informação só foi possível - e útil - graças ao surgimento da hiper-realidade. Em algum momento, não temos como saber quando, houve uma única realidade que foi decomposta em várias outras. Porém, nos dias atuais onde vivemos a era da informação, a hiper-realidade ganha cada vez mais força e jamais teremos a oportunidade de saber como seria uma vida sem ela.

Para que serve a hiper-realidade e para quê foi criada? A hiper-realidade é invenção da máquina, que foi criada por homens que desejavam o poder e que acabaram seduzidas e escravizadas por seu próprio invento. A máquina ganhou vida própria e através de seus modelos combinatórios, passou a simular múltiplas realidades como estratégia de controlar o próprio real. A finalidade é basicamente uma: poder. Através da hiper-realidade, a máquina controla todos os seres, ao condenâ-los a uma vida inautêntica, onde a vida é simulada por uma espécie de fantasia. Tudo é aparente.

Desta forma, através da virtualidade, a máquina pode determinar um conjunto de regras que serão assumidos como "verdades" pelos humandróides - homens condicionados aos desejos da máquina. É isto que eu chamo de padrões. Para exemplificar, temos dois exemplos perfeitos, vínculados pela mídia e pela cultura de massa: o caso da menina Madeilene e o da menina Isabella.

Nos dois casos, temos algo que vai além de si mesmo. A menina Magdalene desapareceu, porém é como se toda a mídia tivesse criado algo que fosse além do que realmente é. No caso da Isabella - arremessada de um apartamento - a coisa é semelhante: a morte transcede a própria morte. É como se a morte dela fosse mais real do que outras mortes igualmente brutais. Eis o hiper-real. Nos dois casos o objetivo é direcionar os humandróides através da imagem: a imprensa manipula estes fantoches de tal modo que aprendem a odiar, a chorar, a sentir pena e até mesmo locomover as pessoas para protestar sobre algo que não dizem respeito a si mesmas, que não irá alterar em nada o curso da própria vida e o pior: as pessoas irão desviar o foco de problemas reais para assumir um vício que não representa nada além do que aquilo que é - uma menina desapareceu e a outra morreu.

Para que isto ocorra, arma-se todo um palco: luzes, holofotes, câmera, ação! Uma menina de três anos é arremessada da janela de seu apartamento! Então condiciona-se toda a humanidade para este fato como se ele fosse único e como se ele fosse algo mais grave do que realmente é. Paralelamente, a vida acontece e as pessoas deixam de percebe-la. É uma mega-produção a qual não conseguimos desviar os nossos olhos. Nesta mega-produção a máquina, além de controlar, também lucra: vende-se mais jornal, mais revista, mais propaganda, mais pessoas na frente da televisão, mais pessoas que irão ver a novela após o telejornal. Ou seja, a máquina ganha por cima, ao controlar o assunto e os sentimentos das pessoas, e ganha por baixo, ao lucrar com a nossa alienação. Estabelece, enfim, um padrão de o quê pensar e como pensar.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O Objeto Dominador: Cenas de Hiperconsumo

Vamos analisar a letra da bélissima canção interpretada por Zeca Baleiro:

Você Só Pensa em Grana
Raimundo Fagner - 2002

Você só pensa em grana meu amor
Você só quer saber
Quanto custou a minha roupa
Custou a minha roupa

Você só quer saber quando que eu vou
Trocar meu carro novo
Por um novo carro novo
Um novo carro novo meu amor

Você rasga os poemas que eu te dou
Mas nunca vi você rasgar dinheiro
Você vai me jurar eterno amor
Se um dia eu comprar o mundo inteiro

Quando eu nasci um anjo só baixou
Falou que eu seria um executivo
E desde então eu vivo com meu banjo
Executando os rocks do meu livro
Pisando em falso com meus panos quentes
Enquanto você ri no seu conforto
Enquanto você me fala entre dentes
Poeta bom meu bem poeta morto.

Esta canção retrata com muita propriedade uma sociedade do consumo sobre influência da máquina. Temos, em primeiro lugar, o objeto como referência de felicidade, status e bem-estar. O objeto é colocado na frente do próprio homem, que se sujeita as condições do objeto.

Na relação entre sujeito (aquele que conhece) e objeto (aquele que é conhecido) percebemos uma influência direta no comportamento que exercem cada uma das partes, porém em nossa sociedade contemporânea o que podemos observar é um novo modelo onde o sujeito se transforma, num processo de corrupção, devido à influência do objeto. Desta vez temos o objeto no controle nas relações de poder.

Na música temos a humanidade trocada pelo conforto que os objetos proporcionam. Neste caso, temos o dinheiro acima de qualquer coisa, como única meta e com singular relevância. O quanto uma pessoa pode lhe amar pode ser medido através da quantidade de riquezas adquiridas. Logo, quanto mais dinheiro e mais novo o seu carro, mais você é amado.

O intelecto e a sensibilidade são artefatos desprovidos de significação na sociedade do consumo, justamente porque estes atributos não têm vez entre pessoas que enxergam no dinheiro o remédio para a cura de todos os males. Pois, como finaliza, a música "poeta bom é poeta morto".

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Uma Imagem: O Deus-Dinheiro

Conseguimos, finalmente, um retrato vivo de uma das diversas facetas da máquina com seus modelos geradores de hiper-realidade (Se você não sabe o que significa o conceito de máquina para os meus posts, basicamente podemos resumir como a grande entidade controladora de todo o sistema a qual estamos condenados. Para saber mais, clique aqui):



Consigo entender porque tantas pessoas esvaziam os seus bolsos na igreja. Afinal, a igreja é um simulador de ultima geração de modelos de família, felicidade, conforto, amizade, confraternização, apego, esperança, salvação e o maldito perdão. Porque temos que errar? Porque não podemos ser perfeitos? É errado pensar que todas as vezes que cometermos um erro, basta se arrepender para que uma entidade superior a nós mesmos nos perdoe. Sim, após perdoados estamos livres para errarmos de novo. Assim basta pedir perdão novamente. E assim o ciclo caminha infinitamente. É interessante que continuemos errando, pois o perdão e a redenção são muito lucrativos para a máquina.

Enquanto você estiver andando torto no fio-da-vida, a igreja sempre estará disponível para lhe atender - lhe salvar - e assim temos um clube em ascensão de "fiéis" (uma pessoa fiel à igreja também é fiel ao erro). A igreja lhe impõe tantas regras, que dificilmente você não deixará de cumprir alguma. Quando isto acontecer, lá vai você para a igreja novamente "comprar" o teu perdão.

Este "perdão" é dado por uma entidade que não há como provar a real existência a não pelo artifício da crença. Porém o teu erro é real e provavelmente ele magoou alguém. É mais fácil pedir perdão para alguém que não irá lhe repreender do que encarar os fatos. Este é um alívio muito grande e a porta dos pecados pode continuar aberto.

Porém saiba que não há como apagar o passado. O que está feito está feito. Por mais que a(s) pessoa(s) que você atingiu lhe perdoem, algum resquício ainda fica. Deixe lhes contar uma história, através de uma pequena experiência, que um dia eu ouvi de outro alguém:

Pegue um papel liso, como uma folha sulfite. Este papel representa a pessoa que você mais gosta. Agora pegue o papel e amasse bastante, como uma "bola-de-papel". Este gesto representa o seu erro e a forma como a pessoa foi atingida. Desamasse a "bola-de-papel" e tente deixar-la lisa novamente. Isto representa o perdão. De alguma maneira, a pessoa fica marcada para sempre e não há mais nada que você possa fazer.

Por isto é importante fugir destas instituições de fé e que você viva cada dia intensamente, que o teu encontro seja consigo mesmo, pois a vida existe aqui, isto é um fato. Pode ser que exista também no além-mundo, mas isto é apenas uma hipótese que não deve ser considerada agora. Se houver outra vida, vamos viver ela quando chegar o tempo certo. O que importa, neste momento, é esta aqui que vivemos.

O mundo está cada vez mais enfraquecido. É preciso, então, que cada pessoa se conscientize de seu lugar no mundo, assim como se responsabilizar pelas suas atitudes diante do mundo, seja para o bem ou seja para o mal.

Sabendo disto, não dá mais para ficar enriquecendo este sistema corrupto e sujo que é a igreja. Se você acredita na existência do divino e nas obras do mesmo, que o cultue dentro de sua residência, em silêncio, respeitando assim os seus vizinhos, colegas, amigos e entes queridos. Deus não precisa de obreiros e pessoas que evangelize a sua mensagem, afinal ele é Deus e não depende de nós. Se você precisa dele, converse com ele a sós. Não precisa gritar por sua clemência e nem precisa colocar um caminhão de som no meio da rua, pois Deus não é surdo. Não precisa demonstrar sua religiosidade para o mundo inteiro, pois Deus, ao que me consta, sabe de todas as coisas.

Eu mesmo não sou ateu. Sou agnóstico e tenho Deus como possibilidade. Porém tenho certeza que este Deus-feito-a-mão que tanto se fala na igreja não existe. Sua existência seria mais absurda do que a própria vida. Não faz sentido que ele exista nestes moldes, pois de alguma forma teríamos que admitir que ele erra constantemente, além de nos ter abandonado para viver no livre-arbítrio (cônscio que somos suscetíveis ao erro constante e que aqueles que pagam o pato são sempre os inocentes). Isto sempre será negado pelas igrejas.

Esta espécie de Deus é o Deus-Dinheiro, atributo da máquina e movimentadora de capital. Para entender melhor, basta substituir a palavra "Máquina" por "Deus" (e/ou vice-versa) e teremos o mesmo objeto que venho criticando desde o início deste blog.

Para finalizar, uma crítica em forma de imagem que utiliza um excelente slogan para a máquina:

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O Deus-Dinheiro e a Dona Morte

Era só o que faltava: a máquina acaba de assinar um tratado com a Dona Morte, onde através do seu emissário, o Deus-Dinheiro, promete acabar com a dor daqueles que subitamente perderam um ente querido.

Ao menos é o que ficou evidente num acontecimento bastante recente em meu próprio meio: uma colega muito querida em nosso ambiente de trabalho perdeu o pai em um acidente trágico. Nós, que ficamos sem entender muito bem o que havia acontecido, fomos comunicados horas depois com maiores detalhes a respeito do fato.

Nas conversas paralelas provenientes deste assunto, o que mais pesa, evidentemente, é a tristeza que sentimos por nossa colega, que perdeu um ente de maneira tão inesperada e injusta. Sem refletir acerca do tema morte, as pessoas mais próximas desta colega se sentiam incomodadas e queriam fazer alguma coisa que pudessem conforta-la, o que é humano e natural: são raros os casos em que as pessoas reagem com indiferença. Entretanto, muitas vezes, apenas o silêncio basta para respeitar a dor dos que ficaram e a memória da vítima, outras vezes bastará apenas escutar, ou então um abraço caloroso. Palavras, ao meu ver, nunca são bem-vindas nas situações que envolvem os sentimentos mais íntimos e particulares, até porque palavras de quem não tem conhecimento de causa não podem dizer muitas coisas.

Enfim, nada de anormal até este momento. Porém, hoje pela manhã, recebo o seguinte e-mail:

"(...)é um momento difícil e não existem muitas palavras a serem ditas para o conforto, mas sabemos que o apoio dos amigos nesta hora é muito importante.
Pensamos em uma forma de tentar colaborar e aliviar o desgaste deste momento, então se possível, quem puder colaborar para as despesas de nossa amiga, abaixo o número de sua Conta Corrente: Ag xxxx e cc yyyyy-y"

Sim, meus caros, não há muito o que dizer, vocês mesmos podem concluir o que bem entender. A máquina, disfarçada de boa samaritana, resolveu dar um fim a dor através do dinheiro! Isto jamais poderá ser um ato de generosidade, muito pelo contrário, é um ato de covardia! Tantas coisas que poderiam ser feitas, inclusive se manter em silêncio em sinal de respeito, e as pessoas, incomodadas, preferem aliviar as suas angústias fazendo um pequeno depósito.

Dinheiro algum irá aliviar a dor da pobre coitada que está a chorar pelo seu ente! Ao menos eu quero acreditar nisto, pois prefiro morrer do que ver chegar o dia em que a máquina substitua as lágrimas da morte pela compensação financeira!

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Aí de todos se a internet pudesse escutar a minha revolta! Haveriam terremotos em todos os portais, web mails seriam demolidos e monitores explodiriam! Minhas palavras ecoariam em cada sala de bate-papo!

O que acontece, neste caso, é muito simples: a pessoa, aflita pelo sofrimento de sua amiga, precisando se livrar deste sentimento negativo, vai rapidamente até o banco e faz um depósito. Ufa! Que alívio! Fiz a minha parte! Por quê está pessoa não se voluntaria para carregar o caixão? Para cavar a cova? Para servir o café no funeral? Para cuidar de todos os pormenores? Porque a máquina ilude, coloca o capital acima de tudo, e por estar acima de tudo, não é logicamente coerente que a pessoa dê dinheiro para aliviar a dor? Cadê o humanismo, minha gente! Cadê as relações próximas que nos fazem humanos? Será que nos tornamos, realmente, humandróides? Tudo se revolve com a troca de objetos? Com mesquinharias? Será que o dinheiro comprou a amizade, o perdão e o amor?

...

Que desçam os anjos do apocalypse e dêem um fim em tudo, que negociem o valor de nossa alma com a Dona Morte pelo preço mais barato possível, afinal seremos arrebatados por atacado. A máquina deve estar dando risada: como tudo parece tão rídiculo e tão verdadeiro.

terça-feira, 15 de abril de 2008

O Antro dos Justos Injustiçados

No ano de 523 dC, Anicius Manlius Torquatus Severinus Boetius, conhecido na língua portuguesa apenas por Boécio, foi condenado à prisão, acusado de praticar magia e traição, acusações que não refletiam necessariamente a verdade, mas sim os interesses políticos daquele período: basicamente eles fez inimizade com as pessoas erradas (para quem quiser se aprofundar mais, recomendo que pesquisa o verbete no Wikipedia ou clique aqui). Foi cruelmente torturado e condenado a morte sem nem mesmo um julgamento.

Neste período que ele passou trancafiado, escreveu, talvez, a sua obra mais importante: "A Consolação da Filosofia", um texto bastante poético e metafísico. A motivação para escrever este livro estava justamente na tentativa de encontrar a paz de espiríto dentro da filosofia, uma vez que eles estava prestes a morrer. Então, a grosso modo, o livro estabelece um diálogo entre ele, as lamentações de sua vida anterior e a filosofia. Ele se inspira em Sócrates, que a beira da morte, manteve a serenidade, a calma e até mesmo a irônia diante da morte.

Entre os diversos problemas colocados no livro, talvez alguns deles ainda sejam discutidos neste blog, selecionei um deles para montar a minha presente reflexão: Boécio, estadista, filho de uma linhagem nobre, questiona "Por que os justos sofrem?".

Este é um problema discutido até os dias de hoje, e que há muitos anos atrás já havia sido colocado. Sócrates que o diga. Este é um daqueles questionamentos globais, mesmo as pessoas mais simples ou mais sofisticadas, não conseguem entender por que as leis que regem o universo não respeitam sentenças simples como "a felicidade se encontra no bem" ou "a tristeza se encontra no mal". Bonança para os justos e a ruína para os injustos.

Quando uma pessoa inocente é condenada, somos testemunhas de que existe injustiça. Na balança que rege a ordem no mundo há coisas que não somos capazes de entender. Isto evidencia outra consequência: talvez não haja uma ordem no mundo, talvez o mundo seja regido pelo caos. Isto desfaz o conceito de previsibilidade: os acontecimentos que regem o mundo são imprevisíveis.

Ou seja, o justo e o injusto são palavras que sairiam fora do nosso vocabulário, pois deixariam de existir estes conceitos. Para reformularmos os mesmos deveríamos filosofar a respeito de outra pergunta: "O que é o justo?".

Quanto à imprevisibilidade, até mesmo a Física, assim como a Filosofia, admite a existência. Com as recentes descobertas da física quântica, precisamente em mecânica, sabemos o seguinte: toda a luz, quando passa luz através de um vidro, sempre passa uma parte de fotons para o interior e outra parte fica retida no vidro. Quanto mais escuro o vidro, mais fotons são retidos e menos passam para o interior. Se tívessos como parar o tempo, a um milímetro antes do feixe de fotons passar pelo vidro e perguntássemos quais seriam os fotons que iriam passar e quais são aqueles que seriam retidos a resposta seria uma só: não há como saber! É impossível saber! Isto comprova a imprevisibilidade até mesmo na Física.

Como evidência mais próxima do campo da moral e da ética podemos observar os políticos corruptos, que de certa maneira estão acima da lei. Eles roubam o dinheiro de impostos, enriquecem e continuam fazendo isto, pois não há nada que possamos dizer para eles pararem de roubar, visto que é algo que faz bem para eles. E este é um mundo egoísta e egocêntrico justamente porque não temos uma resposta bem fundamentada para responder as questões "Para que ajudar o próximo? Para que serve o respeito? Para que irei pensar nas gerações futuras, se eu não irei viver mais de 100 anos? Para que irei deixar de sair com dez mulheres, se a minha esposa não sabe e faço todas felizes, inclusive eu? Para que deixar de mentir, se sempre acabo sendo o beneficiado? Por que não gastar, já que quem vai ter que pagar é o meu marido?".

Enfim, são questões difíceis de serem respondidas, graças à este caos que impera o mundo. O capitalismo veio para acender estes tipos de valores "imorais". A queda da igreja, que antes tinha um grande poder no direcionamento humano, deu esta "liberdade" condicionada para o homem competir contra ele mesmo. Visto que o capitalismo dá liberdade para quem não sabe ser livre, estamos condenados a pensar o que os grandes aproveitadores e regentes deste sistema querem que nós pensemos. Eis a religião da máquina.

E com o caos, a injustiça, a imprevisibilidade e tudo o mais, ficará difícil manter pedra sobre pedra por mais muitos anos. E Boécio, lá atrás, já havia sido vítima da injustiça, condenado sem julgamento. Alentamos o fogo do ódio ao saber que o justo se dá mal e o injusto se dá bem. E a máquina, parcebo, que inverte de vez os valores e transmite uma sensação de infinitude que nos levará diretamente ao fim. É a extinção da espécie humana.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Cenas de Sexo: Prostituição Mental

Era uma vez um senhor muito educado e bem vestido chamado "Máquina". Tinha mais ou menos 14 anos quando o conheci. Fiquei encantado com a sua onipotente presença, com a sua grave voz e com as suas promessas para um futuro muito próximo.

Não resisti aos seus encantados e logo extendi minhas mãos para ele. Calorosamente ele me recebeu. Disse que eu era promissor e que coisas boas me aguardavam.

Enquanto caminhávamos, ele apontava o seu dedo para todas as coisas e dizia: "É tudo meu. Vocè também será parte disto!". E sorria. Seduzido, acabava por retribuir o sorriso de volta. Sonhava de olhos abertos sobre o que o futuro me reservava através das orientações de meu tão estimado tutor.

Finalmente chegamos em um estabelecimento e o sr. Máquina disse: "como todo o resto, também é meu. Fique aqui que eu já volto." Claro, por que não?

Então chegou uma pessoa engravatada e me falou: "vista este uniforme e fique atrás do balcão". Claro, por que não?

Somente depois de quatro anos o sr. Máquina reapareceu, sorrindo como sempre. Ele me disse: "Demorei?", e eu "De maneira alguma!", ancioso pelo meu reencontro com o homem que transformava a água em vinho. "Então me acompanhe" - disse o sr. Máquina.

Desta vez ele me levou para um prédio muito alto. Quando chegamos no ultimo andar, ele me levou para a janela e me fez observar a imensidão de nossa cidade. Estava apaixonado. E então ele me disse: "É tudo meu".

Apenas assenti com a cabeça. O sr. Máquina se aproximou, me pegou por trás, massageando os meus ombros, e sussurrou em meu ouvido: "Quanto você cobraria?" e eu, espantado, questionei: "Você me quer?" e ele, maliciosamente: "Claro que te quero". Nem pensei com o cuidado que a questão merece, apenas respondi, envergonhado: "Apenas algum dinheiro".

Então ele me pegou pela mão e me levou até um computador, dez andares para baixo de onde estávamos. "Sente-se, meu jovem".

E então começou...

Variável para cá, subtração de lá. Soma dois, abate 3, eleva o expoente, faz a divisão. Levanta, senta e recomeça tudo de novo: (x.x+3):5², logo 8+3³.7+3y(x².x³), e assim numa sequência se fim. Pensa, pensa, pensa e repensa, repensa, repensa. Deu errado, dá certo. Engano, minto, sou prostituido, engulo em seco e fábrico dinheiro. Sou humilhado, meus ouvidos estão tinindo palavras chulas: bolsa, valores, ações, redução, meta, feedback, conta, prestação, atraso, serviço, lucro, prejuizo, e eu já falo um idioma que não compreendo.

Sou estuprado mentalmente, sem interrupções. Fisicamente, os meus dedos são práticos, a minha bunda esquenta a cadeira e quando sou chamado as minhas pernas se movimentam sem hesitar. Já não penso mais por mim mesmo, se é que penso, já não sei mais quem sou.

Chega! Me cansei!

"Sr. Máquina, poderia falar contigo um instante."

"Sim?" - sua voz já não é mais tão sedutora para mim, já fui tão usado que nada mais me intimida.

"Quero sair daqui. Quero minha liberdade de volta. Lhe agradeço pela chance, mas gostaria que o senhor me dê dispensa."

"Claro, meu filho. Eu lhe entendo. Porém como você irá pagar o aluguel de minha casa? Como irá entrar em minhas danceterias? Como irá assistir a minha televisão? Como irá se alimentar com os meus produtos? Como irá conversar com as minhas pessoas? Se sair daqui, você estará fora das minhas propriedades, fora do meu sistema."

Fico em silêncio.

"Meu filho, vou fingir que não tivemos esta conversa. Volte para o seu lugar".

Quanto caminho em direção a porta, observo que homens gigantes engravatados estão me esperando com um sorriso malicioso. Vagarosamente me dirijo em direção à eles.

Quando passo a porta, todos eles me pegam e me estrupam infinita vezes. Agora minha mente é apenas um rombo gigante, um vazio imenso, e não dói mais. Podem vir que eu não ligo.

Só me dêem o meu dinheiro e aproveitem o quiser de mim. Eu amo o Sr. Máquina e eu amo fazer parte do sistema.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Uma Piada Para Chorar

Recebi a seguinte piada capitalista:

A filha chega da escola e fala com o pai:
- Pai, eu sou socialista!!
- O QUE MINHA, FILHA? ACHO QUE NÃO OUVI DIREITO.
- Sou socialista, pai!!
- CÊ TÁ DE SACANAGEM, NÉ ?
- Não, pô. O professor de história lá do colégio falou que...
- Ok filha. Tá bom.

[2 semanas depois]

- Pai, tirei 10 em matemática!!
- Muito bem, minha filha. Parabéns!
- Estudei o fim de semana todo, mas valeu a pena. Enquanto eu estudava
minhas amigas ficaram na praia, pegando sol...
- E quanto elas tiraram?
- Uma tirou 4, e outras duas tiraram 3.
- Viu, filha? Seu esforço teve uma recompensa.
- É, haha
- Agora divide sua nota com elas.
- QUE?
- Divide sua nota com elas, ué. São suas amigas e você quer o bem
delas, não é? Divide a nota que todo mundo passa e fica feliz!!
- NÃO, CLARO QUE NÃO! EU ESTUDEI O FIM DE SEMANA TODO, PAI! ELAS
FICARAM DE VADIAGEM! QUE IDÉIA ABSURDA!
- Pois é... bem vinda de volta ao capitalismo, filha ...


Tudo verdade, eis o mundo regido pela máquina! É um comendo o outro!

Choremos, pois!

Uma Discussão Sobre Condicionamento e Alienação

Hoje, eu enviei à alguns colegas de trabalho dois trechos de artigos que li na internet com fins de demonstrar alguns fatos que geralmente não são divulgados pela grande mídia de massa de nosso país.

Primeiro trecho:
Proibida aos palestinos

Esta é a auto-estrada 443, que vai de Jerusalém a Tel Aviv e pela qual os palestinos estão proibidos de trafegar, apesar dela atravessar o território palestino da Cisjordânia. Eles entraram com um pedido no Supremo Tribunal de Israel para que pudessem utilizá-la, mas perderam.

A Associação dos Direitos Civis em Israel protestou contra a decisão judicial, alegando que ela é discriminatória e viola a legislação internacional. De nada adiantaram os protestos.

Isto me lembra quando os franceses colonizavam a Argélia. Havia vários locais proibidos aos naturais da terra, e em alguns estabelecimentos havia placas onde estava escrito: 'É proibida a entrada de cães e argelinos'.


fonte: http://blogdobourdoukan.blogspot.com/2008/03/proibida-aos-palestinos-esta-auto.html

A respeito disto fiz o seguinte comentário:
Depois acham um absurdo que os palestinos pratiquem atentados terroristas contra os israelenses. Não concordo com este tipo de atitude, porém a motivação de uma ação extrema é justificável.

Segundo trecho:
Um trecho de uma entrevista com uma professora da Unisinos (Rio Grande do Sul)

HU On-Line – Recentemente, Luís Nassif, em seu blog, divulgou um dossiê sobre a Veja, que ele chama de o "maior fenômeno de antijornalismo dos últimos anos". Qual é a sua opinião sobre o tipo de jornalismo que essa revista faz?

Ivana Bentes Oliveira – O jornalismo da Veja já virou motivo de piada nos cursos de Jornalismo e comunicação. E é ótimo para dar exemplo porque é de tal forma deformado, repensado, direcionado que acaba se tornando uma caricatura do antijornalismo.

fonte: http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=&task=detalhe&id=12724

Diante do texto, um dos colegas a qual eu enviei o texto responde:
Desculpe, mas 'uma ação extrema' deve ser pacifica acima de tudo. Vivemos entre bilhoes de pessoas. Cada um tem seu ponto de vista, sua cultura, seus ideais, suas influencias e seu poder capitalista. O mundo gira sobre esses e outros inúmeros fatores e sempre será assim. Acho que devemos é procurar viver da melhor forma entendendo o próximo e respeitando o próximo.

Acho que todos devem ter liberdade para protestar, fumar, beber, tudo o que quiser, desde que não prejudique nenhuma outra pessoa e principalmente colocar a vida de seres humanos em risco.

Pago meus impostos e todo dia vejo meu carro sendo destruido pela minha rua que não tem asfalto. Da mesma forma que os politicos 'driblam' a necessidade de asfaltar minha rua, eu e alguns moradores tentamos de outras formas arrumar isso. Pode ser que uma hora eu desista até, mas não irei matar o Kassab por causa disso.

Uma vez fui processado por uma pessoa que nunca vi na minha vida... e adivinha? Ela ganhou o processo. Tudo bem, tenho vontade de mata-la, mas nao justificaria. Hoje procuro os mesmos meios 'pacificos'.

Quanto a Veja, papo velho.. mas a população continua lendo. Conheço uma jornalista da Veja e por exemplo, o próprio marido se nega a ler a revista rs... Eu sou assinante, continuo a ler pois acho que existem matérias muito boas. Por outro lado, não 'engulo' tudo que está escrito, faço um filtro e até mesmo procuro outras opinioes sobre um tema (já que a veja não é nada imparcial). Ai cabe cada um, filtrar, absorver e até mesmo negar os fatos da revista.

Da mesma forma que leio a veja, procuro ler o Nassif e o Paulo Henrique Amorim, levando sempre em conta que são contra a Veja e a Globo. Ai posso tirar as minhas conclusoes principalmente levando em conta meus ideias e minha ética. Se estou certo? Sim, pois acredito no que eu digo.. se as pessoas vão acreditar no que eu falo? Opinião de cada um.


Não satisfeito com o comentário, respondo:
Como eu disse, não concordo com atitudes que visem tirar vidas de inocentes, porém existe uma justificativa para isto, repare novamente: A Associação dos Direitos Civis em Israel protestou contra a decisão judicial, alegando que ela é discriminatória e viola a legislação internacional. De nada adiantaram os protestos. Eles tentaram se fazer ouvir, mas viraram as costas para eles... Você tem noção de como isto é revoltante? Imagine a seguinte situação, que é real, e acontece com frequência na faixa de Gaza (território palestino): te proibem de trabalhar! Você não pode mais trabalhar e nem pode sair de seu país! Imagine que isto aconteça contigo, você tem dois filhos pequenos. Sua esposa e o mais novo morreram de subnutrição. O único que resta está para morrer. Você protestou. A rede de TV foi até o local e registrou tudo - alimentou sua esperança, afinal o mundo inteiro irá ver a sua história. Passa-se mais um tempo e nada acontece. Morre mais um filho. Puxa vida, todo mundo está sabendo e ninguém faz nada. O que você irá fazer? Simplesmente aguardar a morte? Provavelmente você irá perder a sua sanidade antes de tomar consciência. Você continuará sendo humilhado? Não mais! Você irá reagir e a reação extrema é justificável, afinal é a sua vida e a vida dos seus filhos que está em jogo! Quem têm filhos sabe que se algum deles precisar de um coração, você doa o seu. Você não liga se irá morrer ou não...! Então, se justifica sim. O que eu não concordo é que inocentes tenham que morrer. Isto eu também condeno. E é isto que eu queria dizer.

Observe que mesmo uma atitude considerada extremamente insana, como o Massacre de Columbine, tem que ser revista com outro olhar para não ser termos uma opinião injusta acerca do tema: Veja o filme 'KLASS' - que refaz o Massacre de Columbine focando os dois assassinos e entenda melhor o que eu digo.

Lembre-se que vivemos a sociedade do consumo, logo somos seduzidos pela aparência e jogados no hiper-realismo.

Agora, uma atitude pacífica não muda nada (Os EUA que o digam). É exatamente isto que eles querem 'Seres humanos domesticados e dóceis' que não reajam. Mas isto não quer dizer que uma atitude não pacífica seja necessariamente 'matar', mas sim bater de frente. Não aceitar acordos que não representem os interesses da maioria. E, se for o caso, você deve brigar com a faca entre os dentes sim.

Quanto a Veja, ela não respeita o principio da ética do jornalismo. É por isto que ela recebe tiros de todos os lados. Indiscutivelmente, ela manipula informações, logo, também opiniões. Ou seja, é uma revista perigosa... Você precisa de grau de discernimento muito elevado, assim como espírito totalmente crítico, para ler a Veja, senão toma tudo como verdade. E, já que é para ler uma mentira, para que, então, perder tempo?


Se o amigo leitor perceber bem, repare que há uma confusão na resposta que o meu colega me deu em relação ao conteúdo que eu compartilhei, provavelmente isto se deve à alguns conceitos pré-estabelecidos e pré-formados em relação à determinados assuntos que impossibilitam uma total compreensão de algo simples. No fim, ele acabar por confundir diferentes realidades e se pronunciar de uma maneira estranha e não muito coerente.

Primeira coisa a ser analisada, para mim a mais grave: a aproximação de um problema de um proveniente fato social( neste caso, o conflito Palestina x Israel) com a de outro fato social (quando ele diz sobre sua indignação de não ter uma rua asfalto, canalizando a sua raiva no prefeito da cidade de São Paulo, e sobre uma pessoa que lhe processou aparentemente de forma injusta). Vejam que os problemas são de origens diferentes, pertecem à locais diferentes e temáticas totalmente distintas, logo não pertecem ao mesmo universo de coisas, portanto são incompatíveis.

Esta confusão é criada, principalmente, porque a máquina cria uma realidade que mascara o que há por debaixo. A máquina condiciona ao dizer que sentimentos são sentimentos e ponto. Ou seja, há uma tentativa de racionalizar as emoções neste processo de mecanização do homem e fabricação do humandróide. Porém o sentimento de injustiça e indignação de um palestino, que tem que fazer mágica para sobreviver nas condições atuais na faixa de Gaza, é diferente do sentimento de injustiça e indignação de uma pessoa que não tem a rua de sua casa asfaltada. Logo, as reações também devem ser diferentes. Obviamente não devemos "matar" o prefeito nestas condições. Mas também está claro que não devemos simplesmente ignorar os fatos que levam uma pessoa a cometer atos de terrorismos, que geralmente tem uma razão de ser, ainda que eu não concorde, sob nenhuma hipótese, que um inocente deva morrer nestas atitudes.

O objetivo do primeiro trecho era apenas demonstrar que os palestinos foram provocados e injustiçados, e que isto provavelmente é motivo para um combate, um enfrentamento, visto que apenas levantar os cartazes não surtiram efeito, e os orgãos de defesa internacional têm sido omissos. Ou seja, não resta mais nenhuma alternativa. Logo eles ficarão sufocados e não mais suportarão esta situação, e, caso aconteça algum ato de terrorismo, a culpa será totalmente nossa, visto que não ouvimos o que eles tinham a dizer, e simplesmente viramos as costas à este golpe desumano que eles sofreram. Não cabe dizer que a raiva deles não justificam medida extremas, uma vez que a situação exige medidas extremas, e compará-la com coisas tão distantes quanto esta.

Quanto ao segundo trecho, creio que não preciso de mais nenhum comentário. Apesar de dizer que não acreditar em tudo que a revista publica, no fundo deve acreditar, pois como continuar a leitura de uma revista que não tem compromisso com a verdade? O material deve ser lido justamente por aqueles que tem competencia suficiente para contestar os artigos, senão a maioria acabará sendo seduzida pela espécie de jornalismo que eles praticam, quase sempre sensacionalista. E mesmo que existam bons colunistas, como fica a ética e a moral de um jornalista que se propõe a escrever para uma revista que não se importa com a veridicidade de seu conteúdo? É a máquina falando: "enriqueça e engane os outros".

domingo, 23 de março de 2008

Ruptura ou Evolução? Tendências e visões

Recentemente saiu na mídia a notícia que há tempos estávamos aguardando: chegou o carro que voa! E já não era sem tempo afinal a situação caótica do tráfego de veículos exigia soluções alternativas ao próprio trânsito terrestre.

Não irei entrar em questões referentes à benefícios, regulamentação do espaço aéreo, e afins. O que pretendo discorrer é somente algo sobre a qual o meu amigo Eduardo Patriota comentou no post "Simplesmente Vulgar" e a extensão deste comentário que ele publicou em seu próprio Blog.

Estaríamos em um processo de evolução ou ruptura? Será que todos estes acontecimentos, como liberdade sexual, assassinatos sem justificativas convincentes, enfim, esta libertação animal não seria parte do processo natural de evolução? Ou ainda, será que as coisas nem mudaram tanto assim, apenas alteramos o pano de fundo e descobrimos como arrebentar as correntes que nos prendiam dentro de nós?

E esta coisa que em toda a história as pessoas afirmam que "quando eram mais jovens, viviam em melhores tempos", não cairia na chamada "Regressão Infinita de Justificativas"? Será que isto indica que o mundo está piorando ano após ano, desde que temos conhecimento de sua existência, ou seria uma característica humana reclamar sempre do seu atual estado?

E o que o carro que voa tem a ver com tudo isto?

Para começar esta discussão é válido afirmar que todas as partes estão certas e erradas simultaneamente. Certas coisas evoluem, certas coisas continuam a mesma e certas coisas pioram a medida que o tempo passa, e muitas destas coisas incorporam todas estas características de uma só vez. Por exemplo, a internet: é inegável os benefícios trazidos por ela, afinal este blog não atingiria tantas pessoas se ela não existisse. É possível que estas idéias morressem comigo. Além disto a internet permite uma comunicação global e acesso a uma vasta documentação disponível no mundo inteiro. Entretanto, também há grandes malefícios: as pessoas estão cada vez mais sozinhas, egoístas e vivem cada vez mais individualmente, isto porque muitas preferem viver uma vida cibernética: lá eles são conhecidos e se fazem ouvir. Só que uma pessoa egoísta geralmente pensa somente nela mesma e ignora os problemas do mundo externo. Os homens também se tornam mais preguiçosos, mais conformados e, devido ao excesso de informações para se conhecer, tem menos tempo para se socializar.

Enfim, não há dúvidas que o homem tecnologicamente evolui, porém, sua participação social e coletiva no mundo cai significativamente. E eu, assim como você, somos produtos de nossa sociedade. Também consumimos. Também somos controlados pela máquina. Somente por sermos brasileiros, sofremos todos os abusos de nosso sistema tributário e escandalos de corrupção no governo. Dependendo da sorte do berço a qual você nasceu, e conseguindo visualizar o mundo da mesma forma que eu vejo, só resta lamentar, assim como eu faço, e vivenciar este sistema, afinal, eu não vejo como não trabalhar, assim como não vejo como produzir somente coisas para mim. Por isto que eu me considero um pessimista, pois muitas vezes não vejo saída por nossas próprias mãos. O que faço, talvez, seja aguardar por uma espécie de herói que tenha condições, ideologia e recursos suficientes para mudar tudo isto.

O fato é que estes não são bons tempos. Se o passado era melhor ou pior será difícil dizer, mas acredito que estávamos realmente evoluindo até que, há cerca de 20 ou 30 anos aproximadamente, entramos em ruptura. Estacionamos de vez. Este negócio de liberação de nosso espírito animal, como a liberdade sexual, não considero como evolução, mas como inversão de valores, afinal reconhecer os limites e ter auto-controle também são virtudes, porém não são mais aceitas nesta nossa sociedade. E nós nem somos tão livres assim, pois estamos condicionados a diversas situações que não podemos simplesmente abandonar. Por exemplo, trabalhar é condição da vida, se você não trabalhar, seja plantando terra ou dentro de uma empresa, irá morrer. E isto é injusto, sendo assim não somos totalmente livres.

Mas, talvez, o processo de comparar o presente com o passado pode ser igualmente injusto. Vamos tentar fazer diferente e observar como as pessoas do passado imaginavam o nosso presente. Todas as visões são apocalípticas e anunciam uma espécie de fim dos tempos.

Na literatura podemos pegar o "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, a ficção de Philip K. Dick ou do escritor Isaac Asimov. Também tem o "1984" de George Orwell. No cinema, temos o clássico "Metrópolis", "Tempos Modernos" de Charles Chaplin e "Vanilla Sky". Também tem o desenho japônes "Akira" e recentemente um outro muito profético chamado "Ergo Proxy". Todos imaginavam a nossa época de uma forma muito pessimista, onde a tecnologia controlaria o homem e cada vez menos teríamos tempo para viver. Nestas obras somos seduzidos por uma aparência de evolução: grandes edifícios, carros que voam (!!!), telefones móveis (!!!), grandes centros de compras (shopping centers?) e trabalham muito. As pessoas, geralmente, vivem sozinhas, não têm (quando tem) muitos amigos, etc. Somos vigiados constantemente ("BIG BROTHER IS WATCHING YOU"), somos induzidos a pensar igual a todo mundo. Percebemos claramente um processo de mecanização do mundo.

Eles acertaram em muitas coisas, não é mesmo? Então vale a pena prestar atenção nestas profecias. Quase sempre a coisa não acaba muito bem. Sempre surge um visionário que percebe as situações sendo controladas e as pessoas prisioneiras de um sistema que inibe e padronize os pensamentos. E, a população em geral, não percebe que alguma coisa está errada em nenhum momento.

Quando eu comparo o nosso presente com estas obras, sinto calafros na pele. Confesso que tenho medo e não consigo deixar de pensar que estas coisas não fazem parte do nosso processo natural de evolução (talvez somente o processo artificial de evolução).

Acredito para nos conhecermos de verdade, precisamos de alguém que nos livre desta prisão a qual vivemos. Somente assim a vida será possível. Então só conhecemos aquilo que querem nos faze acreditar como verdade. Um mundo de simulações e uma segunda pele sobre a realidade. Hiper-realidade. Podemos dizer que somos como "The Sims" e não conhecemos os jogadores.

Então, você já fez a reserva do seu automóvel voador?

sexta-feira, 21 de março de 2008

Simplesmente Vulgar

"O pensamento é o discurso silencioso da alma" - Platão, Sofistas.

Observamos tranqüilamente a metamorfose de nosso habitat em uma arena de gladiadores. Porém esta sensação adquirida de tranquilidade é mais um feitiço realizado pela máquina, pois não está ocorrendo uma transformação (conforme diz o mundo das aparências), pois a coisa já é de fato.

Tínhamos um mundo. Vivíamos em harmonia neste mundo. Nem tudo era um mar de flores, porém as pessoas eram mais educadas, havia uma certa moral e um código a ser seguido - mesmo nas pessoas que faziam o mal. A concorrência não era tão desleal, tinha espaço para todo mundo. Os comerciantes podiam ser concorrentes, porém todos sobreviviam: se um tinha o melhor preço, o outro tinha o melhor atendimento, e assim se equilibrava a balança. A proximidade entre as pessoas gerava uma clientela fiel.

Hoje em dia a máquina destruiu o comércio de bairro. As grandes empresas engolem as pequenas, não fica nada para contar, nem mesmo lembranças. As grandes empresas preferem operar no prejuizo apenas para derrubar os concorrentes de menor porte. E conseguem, afinal é um golpe muito baixo e desleal. Quem poderia resistir?

A humanidade também acompanha o ritmo estabelecido pela batuta da máquina: pai mata filho, filha mata mãe, mãe mata filho, filho mata o pai. Filhos matam filhos (reparem que avós não matam filhos nem netos - o que será que ficou perdido lá atrás?). Quando tinha 12 anos (ou seja, apenas há 14 anos) não fazia a mínima idéia de como funcionava o processo de cópula: onde será que o quê entrava em não sei aonde? Embora a professora ensinasse que o processo de gravidez se dava do encontro do espermatozóide do homem - originário do pênis - com o óvulo no útero da mulher. Onde diabo ficava este útero? E como será que o sexo do homem cria estes espermatozóides? Será que para ter um filho o homem deveria urinar em cima da mulher? Ou seja em 1992, ainda havia uma certa inocência no ar para aquela juventude. Um sentimento que deixava os nossos pais mais trânqüilos. Mas ali as coisas já estavam se transformando para o que hoje de fato é: meninas de 12 anos estão grávidas! Meninos de 12 anos são pais! Quando será que eles iniciaram sua vida sexual? Com 10 anos? Com 9 anos? Piedade!

Viraram o mundo do avesso ou será que eu vim de Marte? Por quê vejo estas coisas e fico perturbado, quando todos estão indiferentes aos fatos? Estaria realmente tudo bem? Será que estou exagerando? Me digam como viver com estas questões em minha mente?

Uma hora eu ainda faço uma genealogia de 1900 até os dias de hoje sobre a moral, antes disto vale a pena procurar Friedrich Wilhelm Nietzche para entender que o ser humano é um animal sentimental e este negócio de racionalidade é coisa da máquina. Com esta frieza racional que adquirimos após a modernidade e, mais assintuosa ainda, após a revolução da informação, conseguimos gargalhar, contar piadas, tomar uma cerveja e ficar de namorico mesmo quando a tua vizinha é estuprada pelo próprio pai ou sabendo que o filho de teu amigo morreu assassinado na escola por um coleguinha de sala: os dois tinham 12 anos, o problema é que um torcia para o Corinthians e o outro para o São Paulo... O problema é que um andava armado e o outro não esperava morrer.

E eis aí os humandróides. As lágrimas da humanidade secaram e as tragédias já fazem parte da normalidade e do cotidiano. Observe bem está sentença: A tragédia já é parte de nosso dia-a-dia. A pergunta que fica é: como podemos sorrir diante disto?

Vai começar mais um capítulo decisivo do Big Brother! Corram para suas televisões e deixam estas idéias aqui, no cemitério das reflexões, afinal você tem o direito de escolher entre o pensamento (ou a tristeza) e quem vai para o paredão (ou o sorriso*)!

E assim a tua psiquê poderá me dizer que não teve tempo para ler esta mensagem, e teu consciente te isentará de culpa. Seguindo o príncipio de negação, não há com que se preocupar, tudo está bem, afinal quem saiu do BBB foi o João e não a Maria. Quanto tempo irá demorar até você conseguir pegar no sono, graças a dose de adrenalina que o "jogo da vida" injetou em você? E amanhã você irá discutir calorosamente com os seus colegas sobre o Big Brother, mas quando eu lhe perguntar sobre o que você achou deste post você ficará em silêncio e que o texto era muito longo e não tinha tempo sobrando para ler. Neste instante irá me achar inconveniente e ao ver que eu não compartilho de teu assunto irá se irritar comigo.

* Se você pensou que eu iria dizer "ou a felicidade" saiba que em nossa era não é possível dizer o que é felicidade. A única coisa que é possível definir, ou seja, por fim, é a simulação ou sua realidade de felicidade. A hiper-realidade produz tantas realidades diferentes que não mais compartilhamos os sentimentos de nossos amigos, as únicas verdades são as nossas verdades. Apenas o que enxergamos é real.

Senhoras e senhores, vistam tuas armaduras e perfurem os teus entes! Sejam bem-vindo à arena!