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domingo, 28 de agosto de 2011

Louca Obsessão



É incrível como os filmes baseados nas histórias de Stephen King que não são do seu gênero mais conhecido, o horror, são de uma qualidade impressionante. Temos vários exemplos, como “A Espera de Um Milagre”, “O Aprendiz”, “Um Sonho de Liberdade”, “Eclipse Total” e “Louca Obsessão” – todos excelentes e sem precisar valer-se de criaturas ou demônios da escuridão.

Os dois últimos desta lista foram interpretados pela magnifica Kathy Bates, sendo que neste último sua interpretação foi tão suprema que lhe valeu o Oscar de melhor atriz, além de um Globo de Ouro. Também não é para menos: o que Bates faz em “Louca Obsessão” é semelhante ao que Jack Nicholson faz em “O Iluminado” – uma aula de variações de expressões que traduzem perfeitamente o sentimento da personagem, que varia da tranquilidade para a insanidade em questão de poucos segundos.

A história não tem nada de mais: um escritor famoso por uma série de livros envolvendo uma personagem chamada Misery deseja escrever o último episódio. Ao se retirar com o manuscrito, acaba por se envolver em um acidente de carro num local distante.

Annie Wilkes, uma moradora das redondezas, socorre o escritor, que está bem debilitado, e passa a cuidar dele. Quando acorda, ele se encontra na cara de Wilkes, que se apresenta como enfermeira e fã número de sua personagem Misery. Devido à tempestade de neve que está caindo, ela fica impossibilitada de leva-lo para o hospital, então resolve trata-lo ali mesmo.

Tudo parecem flores para o escritor, que até então vinha sendo muitíssimo bem tratado até que Wilkes lhe faz um respeitoso pedido: que pudesse ler o manuscrito de Misery. Como forma de gratidão, o escritor consente sem nem imaginar os problemas que isto iria lhe trazer.

Logo nos primeiros capítulos, Wilkes fica possessa com o vocabulário chulo de Misery, porém quando ela descobre que a protagonista morre no final do livro é que a mulher se converte numa figura pior que o próprio diabo: tem início o terror psicológico e a tortura física que irá impor ao seu convidado.

Com momentos extremamente tensos e aterrorizantes, provenientes de situações inesperadas, “Louca Obsessão” tem um resultado muito acima da média do gênero, fruto dos diálogos bem construídos somados com as interpretações magistrais de Bates e de James Caan. Outro filme imperdível que não pode ficar de fora.    

domingo, 21 de agosto de 2011

O Labirinto do Fauno



Todo conto de fadas, sob a minha ótica, é um tanto quanto macabro. São intrigas, assassinatos, personagens complexas e muitas vezes irresolvíveis. Quase sempre temos tortura psicológica tão extrema que somente a realização de um sonho extremo pode livrar a personagem desta condição. Geralmente, nestes contos, a salvação se dá na figura do príncipe encantado – elemento valente, heroico, que nada teme e que nada sofre.

Na história de O Labirinto do Fauno não há príncipe encantado, visto que a história é a salvação para todos os males. Além disto, em vez dos desenhos com traçado ricos em cores, aqui o ambiente é triste e sombrio. Neste cenário, é a figura da menina Ofélia que traz alguma coisa de esperança. O Labirinto do Fauno é o conto de fadas idealizado pela protagonista mirim para oferecer-lhe uma saída para um mundo aparentemente sem solução.

O filme se passa no final da ditatura de Franco, na Espanha em 1944. Alguns remanescentes fascistas continuam a alojar em montanhas, escondidos da resistência civil, que aos poucos vão limpando a Espanha. Carmem está grávida do Capitão Vidal, fascista duro e onipotente – homem este que não agrada nem um pouco à Ofélia, filha apenas de Carmem, cujo pai havia morrido anos antes.

A partir deste ponto contém spoilers, ou seja, alguns trechos poderão conter partes da trama e isto poderá estragar o seu prazer, caso ainda não tenha assistido o filme.

Próxima de ganhar o bebe, o Capitão Vidal obriga aos seus subordinados a trazer a mulher e Ofélia para a montanha onde eles estão alojados, viagem está que desgasta totalmente a mulher, de modo que ela fica muito doente.

Diante de um cenário novo e assustador, Ofélia – que é leitora assídua dos contos de fadas – passa a fantasiar a respeito de uma fada que lhe leva para um Labirinto onde lá encontra um Fauno que lhe explica que ela era, na verdade, a princesa do mundo subterrâneo, a qual o seu pai lhe esperava há muito tempo. Para conseguir abrir o portal que levariam os de volta ao seu mundo, ela precisava cumprir algumas missões.

Na verdade a história é um subterfúgio para as coisas que Ofélia iria realizar. Era o ponto de fuga que a menina idealizou. Paralelamente a estas missões, a maldade do Capitão Vidal, por trás de um cenário de guerra e constante tensão, faz com que a menina simplesmente se esconda em sua própria história.

O final é muito comovente, pois da maneira como ela criou a sua história, Ofélia conseguiu enfrentar todos os seus desafios com bravura. Finalmente ela consegue abrir o portal e passar para o mundo subterrâneo, onde lá será feliz para sempre.

Guilherme Del Toro criou sua obra prima com este filme, que ganhou mais de 70 prêmios pelo mundo afora, incluindo três oscars. O Labirinto de Fauno é uma belíssima história, um conto sinistro sob a nossa realidade contada sob a perspectiva das fadas.

Intriga Internacional



Não dá para falar sobre Sir Alfred Hitchcock sem mencionar o seu rótulo: Mestre do Suspense. Ele mesmo gostava de ser chamado assim. Uma vez disse que se um dia ele fizesse uma versão de Cinderela, todos iriam procurar por um corpo na carruagem. Nem precisa ser cinéfilo para ter esbarrado com uma obra sua, sendo que muitos dos seus filmes possuem cenas que estão carimbadas na galeria das mais famosas de todos os tempos.

Intriga Internacional (North By Northwest no original) é um destes filmes. Porém consegue a façanha de ir um pouquinho mais além: possui mais de uma cena armazenada neste hall. Antes da análise, segue um pequeno pedaço para vocês apreciarem ou relembrarem:

Ataque do avião pulverizador - http://youtu.be/ETl_rr0SMFI
Perseguição no monte Rushmore - http://youtu.be/Ahd38-eclaI

A mescla das duas cenas é a capa da edição comemorativa de 50 anos do filme onde, graças aos avanços da tecnologia, podemos assistir estes clássicos como se fossem filmes lançados ainda agora – devido ao tratamento de alto nível na restauração para as novas mídias.

Este filme é um dos melhores trabalhos de Hitchcock! Se contextualizarmos com o seu tempo, se torna ainda melhor. É uma história de espionagem e contraespionagem, onde o protagonista é apenas vítima do todo, porém descobrimos que ele era parte do todo sem que soubesse. Além destes ingredientes, temos um que eu particularmente gosto muito: a sobreposição da realidade – ou melhor, o lançamento do homem num universo fictício que acaba por se tornar provisoriamente o verdadeiro.

Roger O. Thornhill é um homem elétrico e vibrante. Publicitário bem sucedido, de uma personalidade muito interessante, observamos que este é o típico menino que nunca cresceu. Com dois divórcios em seu currículo, Thornhill tem uma dependência moral de sua mãe semelhante a uma criança. Esta semelhança também condiz com suas atitudes: o protagonista nunca hesita em arriscar – como se não tivesse medo de nada.

De uma hora para outra ele é raptado e sua realidade é abruptamente alterada: chegando ao de entrega, os raptores se referem ao protagonista como George Kaplan, no qual acreditam ser um agente detentor de informações muito importantes. Logo, os raptores tentam fazer um acordo com Kaplan, que imediatamente nega e diz se tratar de um engano. Claro que eles não acreditam e logo Thornhill/Kaplan é jurado de morte.

Ele consegue fugir do cativeiro. Porém acaba por se envolver num acidente que o levará para a cadeia. Ele tenta argumentar o que aconteceu, mas tudo parece tão fantasioso que nem sua mãe acredita em si. Ainda assim, a polícia resolve investigar o suposto cativeiro, mas ao chegar ao local nada é como parece: nenhuma evidência do que foi dito por Thornhill/Kaplan é encontrada – logo, ele continua sendo um criminoso falastrão.

Por si só, Thornhill decide investigar quem é Kaplan e por que estão em cima dele. Porém observa que para ter sucesso, precisa se travestir de Kaplan e assim o faz, assumindo uma espécie de dupla personalidade. Logo, o misto de Thornhill e Kaplan irá se envolver numa bola de neve gigantesca, onde agências do governo, polícia e criminosos estarão todos envolvidos consigo no cerne do enredo.

Enfim, é um daqueles filmes obrigatórios que ninguém deve deixar de ver, que seria responsável por influenciar uma das maiores franquias do cinema de todos os tempos: o espião 007. Sim, em Intriga Internacional muitos dos elementos apresentados seriam utilizados nos filmes vindouros de James Bond (inclusive um quase remake da cena mais inesquecível do filme – aquela que se encontra no primeiro vídeo que eu coloquei logo no início desta resenha).

Sob a batuta de Hitchcock (que aparece na primeira do filme) e com atuações impecáveis da linda Eva Marie Saint e do inigualável Cary Grant – que, por sinal, recusou o convite para interpretar Bond – Intriga Internacional é um filme para ver, rever e recomendar!

* Para título de curiosidade, o protagonista se apresenta como Roger O. Thornhill. Uma mulher lhe pergunta o que significa o “O” no meio nome e ele responde “nada”. De uma forma inteligente, polêmica e irônica, Hitchcock está dando uma espetada no seu ex-produtor David O. Selznick.   

domingo, 31 de julho de 2011

A Queda da Casa de Usher


Dizem que A Queda da Casa de Usher, um conto criado por Edgar Allan Poe, é o texto mais adaptado para as telinhas de todos os tempos. Não sei o quanto isto é verdade, mas o fato é que no IMDB a personagem de Roderick Usher aparece em 18 produções! A cada dois-três anos, alguém aparece readaptando a obra para o formato.

Esta versão, que irei discorrer aqui, se trata da primeira adaptação para a televisão, realizada pelo cinema francês em 1928, na época do cinema mudo e em preto e branco. Ela não inteiramente fiel ao texto de Poe, entretanto é uma boa adaptação, sendo que os elementos macros estão todos lá.

O filme começa com Allan indo ao bar procurando pela casa de seu amigo Roderick Usher, que havia lhe escrito um bilhete solicitando sua visita, visto que ele estava doente. Entretanto a casa não é bem vista pelos moradores das regiões – todos ficam assustados somente pela menção da residência, sendo que ninguém se propõe a ajudar o perdido a chegar ao seu destino.

Somente quando oferece dinheiro é que alguém se dispõe a levar Allan ao local, mas não exatamente como devia ser: o empregado leva Allan somente até um local onde é possível ver a casa, dali em diante o empregado se recusa a seguir adiante.

O local realmente é assustador! Todo entorno que envolve a casa é sombrio, diante de uma ventania que parece fazer com que, mesmo o chão, se mexa constantemente. Tudo no cenário ganha movimento, seja pelas deficientes técnicas de filmagem disponíveis na época, seja proposital.

Allan é recebido por Usher, que está pintando um quadro quase vivo de sua esposa – uma tradição da família passada por gerações. O que Usher não percebe é que a cada pincelada, sua esposa vai se deteriorando e ficando cada vez pior. De fato, quanto mais real o quadro fica, mais a sua esposa vai desaparecendo no mundo.

Entretanto, dada a obsessão de Usher com o quadro, numa relação de intimidade que acaba por se tornar mais intensa do que com a própria esposa, ele perde a noção de tudo quando está diante do quadro. Prova disto é o amigo Allan, que basicamente representa os nossos olhos no interior da casa de Usher. De alguma maneira ele entende que o seu amigo está ficando insano.

Agora insanidade mesmo é ficar naquela terrível casa: ela parece ter vida própria. Cortinas se mexem desenfreadamente, uma ventania adentra cada cômodo da residência, sendo que eles são enormes e vazios, enfim, são cenas pra lá de amedrontadoras – cujo efeito é atenuado pelas câmeras da época, que não se estabilizam por nada, além de não revelar inteiramente o que está acontecendo: de fato, me peguei por mais de uma vez cerrando os olhos para tentar enxergar o que está sendo mostrado.

Durante a história a ultima pincelada no quadro leva a sua esposa a própria morte, sendo que Usher fica totalmente inconsolável e passa a acreditar que ela não está morta de forma alguma. A impressão que fica é que o retrato pintado é o coração da casa, que uma vez completo, deseja Usher toda para si mesma. Sendo assim, ela acaba por dar um jeito de expulsar a esposa dali.

Mas Usher não pretende simplesmente ficar ali parado: ele vai até o local onde o corpo de sua esposa foi levado, de modo que tenha a certeza de que lá ela está. Entretanto não é que o homem tinha razão? Sua esposa está viva! Ou então, uma morta-viva... Quero acreditar mais na primeira hipótese.

Entretanto, ao voltar com a esposa para casa, a mesma fica com um ciúme tão grande que passa a se autodestruir. A casa passa a ficar em ruinas e é assim que acaba a história, que na verdade nada mais era do uma história de amor entre uma casa e seu dono.

Como dito, não sei se a técnica empregada foi proposital ou era proveniente dos recursos da época, mas o fato é que o resultado é incrível! Nenhuma outra adaptação foi tão bem recebida pelos entusiastas do cinema – mesmo com tanta tecnologia envolvida. Enfim, um clássico do terror gótico.

Este filme foi visto no NetMovies OnLine para Televisores com acesso a internet. Clique aqui para ler a minha resenha a respeito do serviço.

domingo, 3 de julho de 2011

A Liberdade é Azul


O diretor polonês Krzysztof Kieslowski tem se tornado minha nova obsessão, visto que sou fascinado pelo movimento existencialista. Sei que corro um grave risco pelo rótulo, mas não posso ser omisso: todos os elementos da corrente estão presentes em seus filmes – com destaque para a característica mor, o absurdo de existir (a ironia da vida).

Em A Liberdade é Azul, um dos filmes da fase francesa do diretor, outro ponto é ainda mais marcante: a liberdade como penitência durante a formação do homem. Sim, a liberdade, tão objetivada pelo ser humano, surge no movimento, assim como neste filme, como efeito negativo – visto que nos exige escolher cada instante a ser vivido, sendo que nós, quase sempre, achamos esta tarefa tão árdua e desgastante que optamos por outras pessoas que possam escolher por nós (este é um dos motivos vivermos num sistema de hierarquias, muitas vezes eleitas pelas próprias pessoas – como acontece no sistema político ou mesmo em grêmios estudantis).

No primeiro filme da Trilogia das Cores, que fazem alusão as cores da bandeira da França, assim como os significados das mesmas, observamos um absurdo que determinará toda a história do filme, que nada mais é do que um retrato vivo do cotidiano: um acidente de automóvel ocasionado por uma falha mecânica num carro praticamente novo (lembre-se que estamos nos tempos do recall) irá separar uma família para todo sempre – morre a filha e o pai e sobrevive a esposa.

O acidente é causado por um motivo tão tolo que o diretor faz questão de nos apresentar nos primeiros momentos do filme: durante a viagem a menina sai do carro para urinar. Quando volta o óleo está pingando vagarosamente. Pois é, tão pouquíssimas gotas, quase inofensivas, serão as responsáveis por alterar todo o curso do destino.

Um pouco mais a frente, num dia como qualquer outro, o carro derrapa e somente Julie, a protagonista, tem a infelicidade de acordar no hospital. Posteriormente sabemos que toda a vida de Julie estava intrinsicamente ligada a sua família. Logo, sem família, ela não tinha mais nada para se apegar, portanto, estava melancolicamente livre.

A morte de seus entes foi transfigurada na chave para a liberdade. Este é o preço a se pagar e certamente ser livre neste contexto não é algo benquisto e muito menos desejado. Portanto Julie está diante da liberdade, nua e crua. No aspecto mais existencialista possível, passamos a observar como se dá os dias da protagonista após o acaso a qual qualquer um está sujeito.

O que vemos é a vã tentativa da protagonista desvincular-se da sua vida anterior: tudo aquilo que lhe faz lembrar-se de sua filha ou de seu marido é descartado sem a mínima razão – aqui temos sentimentos elevados à flor da pele, dando vazão ao humanismo do ser diante dos absurdos, como se não fossemos mais do que brinquedos num mundo tão complexo. Lá se bens, roupas, títulos e o principal: uma composição inacabada de seu marido, a título de encomenda, chamado “Concerto Pela Unificação da Europa”.

Somente uma coisa não pode ser descartada: as lembranças de sua vida anterior. O esforço que Julie faz é notável, muitas vezes comovente, mesmo diante de sua frieza diante de sua nova morte – que é a vida sem sentido de ser, ou seja, a vida no seu nível mais essencial.

Estas lembranças surgem cruéis justamente para impossibilitar que o plano do esquecimento de Julie dê certo. Na vida nada é tão simples assim, onde é só apertar um botão que desligamos aquilo que não mais queremos em nossa mente. A composição de seu marido, como reforço do tom artístico do filme, insiste em perpetuar juntamente com sua dor.

Justamente a parte inacabada, aquela a qual não se tem mais registro, toca na mente da protagonista em cada momento da mais profunda expressão de sentimento. Se Julie não demonstra, sabemos que a música chora por si – nestes momentos o diretor fecha os nossos olhos e respeitamos a privacidade da personagem central.

Após tantos apagões, o que fica claro é Julie busca um suicídio vivo, uma lenta degradação da espécie, onde o que importa é o passar dos dias, nada mais. Tudo aquilo que remete a vida lhe traz novas experimentações, nem sempre bem recebida, e outras vezes visível sob um prisma de quem não quer mais estar ali – espiamos estas experiências com certa compaixão pela protagonista, que observa com certa inveja atrelada a tristeza e dor.

Em dois momentos isto fica claro: quando no banco de uma praça uma velha, com muito esforço, leva um dejeto para o lixo – ou seja, Julie enxerga motivação mesmo em idade tão avançada – e em sua própria mãe, que adora ver programas de esportes na televisão, e vibra muito com isto – uma referência tão simples para consegue preencher totalmente um motivo para viver.

Estes pequenos containers de vida são grandes chagas na alma de Julie: como eles conseguem se contentar com tão pouco? Onde eles encontram forças para continuar?

Eis que ela então traz o seu container: a explicação vem da própria canção inacabada, que está bem viva em sua mente – neste caso é hora de terminar a canção e deixar que as almas descansem em paz, principalmente a sua. É hora de continuar. No final há uma solução otimista, o que de fato é surpreendente, ao mesmo tempo em que é reconfortante: Julie brinda sua nova vida com lágrimas por tudo que ficou para trás, mas está conformada, resignada e abre um leve sorriso, suficiente para entendermos que as portas passadas foram fechadas e que agora resta a esperança por uma vida melhor.

Se a história é simples, o que faz a diferença é a batuta de Krzysztof Kieslowski, que transforma este num dos melhores filmes de todos os tempos, graças a sua delicadeza, sutileza e outros detalhes técnicos de grande apreciação. As cenas podem relevar detalhes chaves da história, portanto é bom assisti-lo de olhos bem abertos.

O filme é praticamente todo azul, o que eleva o nível de frieza da liberdade, ao mesmo tempo em que situa a história quase como que num oceano – o que traz à mente a liberdade por dentro do mar, tão bonita e tão solitária em sua grandeza quase que infinita.

Vozes do Passado


Este é um daqueles filmes que seguem uma fórmula padrão em seu gênero e que não traz consigo grandes novidades. É típico daqueles filmes que você consegue relacionar com outros dez, pois são muito parecidos entre si.

Ainda assim este é um bom filme. Nenhum espetáculo, verdade, mas muito longe de ser ruim. Se o objetivo de um filme é entreter, temos aqui um título que cumpriu o seu dever. O desenrolar da história é bem articulado, os atores cumprem bem o seu papel e a atmosfera é muito boa. Ainda mais se levarmos em conta que este é um filme feito para a televisão com baixo orçamento.

Este é um daqueles suspenses sobrenaturais onde a mocinha começa a ter visões em torno de algo que só ela consegue vislumbrar. Ademais, quando ela confia a história para outra pessoa, os mesmos a desacreditam e interligam a alucinação a uma desgraça passada. Na contramão dos seus queridos, ela, por si só, vai investigar o ocorrido e em sua jornada diversos eventos do além lhe aproximam de seu objetivo.

Como disse anteriormente, esta sinopse se aplica a um bom número de filmes. Para precisar um pouco mais, vamos trocar a roupagem (tranquilize-se que não teremos spoilers): Michael Summer é uma atendente (sim, é uma mulher) do serviço de emergência 911 que recentemente acaba de perder sua filha durante o parto. Junto com a lembrança deste triste momento, Michael jura ter visto uma garota ter saído do centro cirúrgico com sua bebe – entretanto todos acreditam ser apenas um compreensível trauma sugerido pelo evento.

Ao voltar o trabalho, Michael recebe um chamado muito estranho: uma menina relata um incêndio, porém não há incêndio. O local nem mesmo bate com o informado na ocorrência. Entretanto, entre outras mensagens, Michael relaciona que as duas meninas (do chamado e aquela que do centro cirúrgico) são a mesma.

Em sua pessoal investigação, Michael irá se deparar com fenômenos sobrenaturais e situações assustadoras, onde a cada passado a situação parece ficar cada vez mais complicada.

Mesmo com uma série de clichês, lhes garanto que é diversão certa. Mesmo num gênero já batido, o filme tem lá suas qualidades e a história ainda consegue surpreender. Embora a sinopse seja padrão, o desenvolvimento é muito agradável e consegue fugir da maioria desta espécie. Isto já vale a curiosidade.

Então fica a dica: quem gosta de um suspense com um sustos, pode assistir o filme sem medo. Claro que ele tem lá os seus erros, mas isto não impede de apreciá-lo. Num estilo que não consegue render mais do que a nota 6 no IMDB, este consegue a proeza de obter a nota 6.9 (quase atingindo a categoria dos filmes acima da nota 7) sem fazer grandes esforços. Eu dou nota 8, bem acima da nota 5 que tenho presenciado no cinema ultimamente e que nem são dignos de menção.

Este filme foi visto no NetMovies OnLine para Televisores com acesso a internet. Clique aqui para ler a minha resenha a respeito do serviço.

sábado, 18 de junho de 2011

Avaliação do NetMovies para Samsung

Recentemente os eletrônicos da Samsung que acessam a internet (mesmo aqueles que não fazem parte da linha SmartTV) receberam uma atualização que trás no seu pacote uma aplicativo da NetMovies, entre outros. Junto com a aplicação, uma promoção para testar os serviços de filmes online por seis meses gratuitos.

Resolvi aderir o programa para experimentar esta nova modalidade de assistir filmes, onde muitos especialistas dizem ser a tendência daqui para frente: nada de mídia física, tudo armazenado nas nuvens – assim como suas fotos, seus e-mails e, cada vez mais, os seus livros virtuais.

Não sei se esta moda chegará até a mim, que adoro meus livros de papel e os estojos de meus filmes, entretanto sou agnóstico e sem preconceitos, por isto antes de me posicionar contra ou a favor, nada melhor do que avaliar a opção por mim mesmo (até por que eu fui um daqueles que criticou o MP3 no passado e hoje eles fazem parte das minhas aquisições – até por que a disponibilidade desta linha é incrível: para onde quer que eu vá, basta que eu tenha um dispositivo que tenha internet para que eu faça download das músicas que eu comprei em diferentes lojas).

Primeiros Passos

Quando você entra no aplicativo do NetMovies, é fornecido um código e solicitado para que você entre, através de um computador, no site da empresa e faça um cadastro com este código. Enquanto você não fizer isto, não há como navegar no aplicativo, que fica travado aguardando a ativação pelo site.

No site da empresa temos a informação que o serviço custa R$ 9,90 por mês para filmes à vontade via stream (ou seja, online), sendo que os seis primeiros meses são gratuitos. Ao fazer o cadastro, algo que não gostei: o cadastro exige que você forneça um número de cartão de crédito. Ora, se estou em período de teste, por que deveria fornecer o meu cartão? Mesmo a contragosto resolvi efetivar o cadastro.

Somos avisados que, caso não tenhamos interesse no serviço, é necessário ligar para cancelá-lo, caso contrário, após o sexto mês, a cobrança será efetuada no cartão de crédito informado. Agora está explicado. É uma jogada comercial que conta com o seu esquecimento em cancelar o serviço para ganhar o seu dinheiro – além disto, como o valor é razoavelmente baixo, o mais provável é que o consumidor vá postergando o cancelamento para não ter que enfrentar o temido call center (o grande monstro de nosso tempo).

Melhor seria se o serviço fosse simplesmente cortado: se for realmente bom, os consumidores farão questão de pagar para continuar com o serviço. Ponto negativo para a NetMovies, que deve se assegurar da fidelização dos seus clientes através da qualidade de seus serviços.

Enfim, após o cadastro o sistema da NetMovies efetiva a assinatura dando desconto de R$ 9,90 no seis primeiros meses. Automaticamente o aplicativo da Samsung é desbloqueado e você entra numa navegador que permite visualizar o catálogo da locadora virtual.

A Navegação

Ao abrir o aplicativo da NetMovies de cara é aberta uma opção do menu chamada “Minha Lista”. Neste item estão todos aqueles filmes que eu selecionei para assistir mais tarde, no melhor estilo “Lista de Desejos” presente em outras lojas virtuais. Se for a primeira vez que você utiliza o serviço, evidentemente a lista estará vazia.

Este, a meu ver, é um recurso muito útil. Ao navegar pelo vasto catálogo da locadora virtual, não havia como não querer separar alguns filmes para assistir posteriormente. A inclusão numa lista foi o meio que possibilitou atender o meu desejo.

Além disto, temos o menu Gêneros, Indicados Online, Novidades Online, Premium e Buscar.
Ao entrar em Gêneros surge um submenu com as seguintes categorias: Ação e Aventura, Western, Drama, Romance, Comédia, Anime, Curtas, Documentários, Família, Lutas, Musicais, Religião, Suspense e Terror.

Os filmes podem aparecer em mais de uma Categoria. Portanto, ao escolher o gênero Terror, o mesmo filme pode aparecer em Suspense. Do mesmo modo que um filme categorizado como Comédia pode aparecer em Família.

Ao selecionar um gênero, uma lista com os filmes aparece. Na lista temos a capa do filme – muitas vezes com capas alternativas as do estojo do filme em questão (o que é bem ruim, visto que fica despadronizado com o mercado – além do quê, as capas alternativas do NetMovies sempre são mais feias do que as capas originais: haviam filmes que pela capa pareciam mais antigos do que realmente eram). Além da capa temos o título do filme, a nota média (conforme avaliação dos usuários do serviço) e a classificação indicativa.

Ao selecionar o filme, temos ainda o título original, o tempo do filme, o ano de lançamento original, um botão para assisti-lo imediatamente, outro para inclui-lo na lista para assistir posteriormente, uma sinopse e informações de elenco e diretor.

Voltando ao menu, quanto ao item Indicados Online eu não sei bem o que se trata. Me parece que são os últimos avaliados pelos usuários do serviço. Alias, um ponto negativo – só é possível avaliar o filme no site da NetMovies. O aplicativo não oferece a opção de avaliar o filme.

Em Novidades Online temos os últimos filmes adicionados ao catálogo. E isto não quer dizer que sejam lançamentos. Conforme digo mais para frente, o nicho deste serviço não são os lançamentos e blockbusters do mundo cinematográfico.

No item Premium eu também não sei exatamente o que significa. Para mim aparecem apenas três filmes (que estão destacados como Premium em cada uma das capas).

Já o item Buscar nada mais é do que... Buscar! Nada de novo: um teclado virtual e é isto aí. Se a busca é precisa? Para mim foi: digitei Kurosawa e veio 20 filmes deste diretor! Fiquei bastante animado, pois dificilmente você acha 20 filmes de Kurosawa para comprar, nem mesmo para baixar no mundo underground! Pois é justamente do catálogo, o trunfo do NetMovies, que falaremos no próximo tópico.

O Catálogo

Antes de avaliar o serviço, havia uma grande dúvida: o que faria aderir um serviço de vídeos online, visto que hoje eu tenho acesso aos mais diversos filmes, seja através de DVD, Blu Ray, TV á Cabo ou mesmo através de Download via Torrent? A NetMovies conseguiu me responder magistralmente: o seu vasto e rico catálogo de filmes antigos. É difícil e caro competir com filmes de vitrine no momento, portanto a NetMovies traz um excelente acervo com filmes das antigas – filmes da mais alta qualidade que são raros de achar, mesmo neste vasto mundo cibernético.

Todos os filmes são legendados em português, e uma boa parte também é dublado. Enfim, é um espetáculo a parte que faz valer o dinheiro investido. O acervo sai do eixo comercial e trás o lado B de diversos diretores consagrados, assim como filmes que são feitos para a televisão e que dificilmente são encontrados aqui no Brasil – visto que a maior parte das locadoras de bairro, que sempre tem alguma coisa abandonada numa estante escondida, estão indo para o buraco devido aos novos modelos de negócio.

Por exemplo, temos uma dezena de filmes de Orson Welles, mais conhecido por Cidadão Kane, considero por muitos como o melhor files de todos os tempos. Porém, me cite algum outro trabalho do cineasta? Se fosse não é cinéfilo de carteirinha, não é estudante de cinema e nem faz parte do meio, provavelmente não conhece. Entretanto o catálogo do NetMovies pode te proporcionar esta degustação. O mesmo acontece com Kurosawa e Fellini, entre outros igualmente importantes.

Você pode me perguntar: tem Avatar? Matrix? Desenhos da Pixar? Não, amigo. Não tem nada disso. Mas se você quer extravasar o seu lado Nerd, tem Jiraya, Changeman e Jaspion, por exemplo. Filmes de Terror no glorioso estilo thrash. Comédias do tempo da bizavó. Enfim, um ponto fortíssimo a favor da NetMovies. Gostei bastante mesmo.

A Experiência Final

Por fim o principal: a qualidade. Antes a resposta para a pergunta que não quer calar – os filmes travam ao carregar por stream? Creio que a resposta é condicionada ao seu provedor de banda larga. Em minha residência – região do Grande ABC, em São Paulo – me considero um privilegiado no quesito infraestrutura. TV a Cabo, Internet e Telefone sempre com uma excelente qualidade, com raras exceções quanto à queda de serviços (que realmente são muito esporádicas). Abrindo o jogo tenho uma banda de 10Mb da NET por R$ 60,00 mensais – valor que considero justo. Esporadicamente testo a velocidade, e as vezes chego a fazer download à 1.2Mb/s, velocidade imbatível pelo concorrente na mesma região.

Neste caso, a experiência de assistir filmes online é perfeita: muito esporadicamente o serviço dá aquela engasgadinha para carregar. Quando digo esporadicamente, significa que num universo de três filmes, somente um deles parou para carregar no meio, por aproximadamente 3 ou 4 segundos, acredito que por alguma instabilidade em minha banda larga.

Ou seja, este ponto ficou bem resolvido – ao menos na minha região.

Já a qualidade de vídeo é do tipo Standard – ou seja, nada de HD. Em fullscreen fica bem parecido com a qualidade de um canal comum a cabo, como a TNT. Talvez seja por isto que os filmes nunca travam na hora de carregar, pois são mais leves devido a sua qualidade inferior ao HD.

O mais provável é que se fossem HD, mesmo em bandas de 10Mb, eles travariam para carregar no decorrer do filme graças ao servidores onde estão hospedados – visto que o upload chega a ser três vezes mais custoso do que o download que realizamos enquanto assistimos o filme, que é descarregado no buffer. Quem sabe no futuro a NetMovies consiga investir numa infraestrutura específica para o serviço HD?

Quanto ao aspect ratio, todos os filmes que eu testei ocuparam toda a minha tela – mesmo os mais antigos. Isto não é bom. Naqueles cujo aspect ratio seja mesmo widescreen tudo bem, porém naqueles que não são o ideal é que viessem com as faixas pretas, independente da extremidade, pois assim respeitamos o formato original do diretor. A impressão é que o filme esticado em alguns casos e que em outros ele simplesmente foi ampliado.

O áudio é muito bom. Nos testes que eu realizei pude assistir filmes em 5.1 tranquilamente e com qualidade.
Agora a maior queixa: não há como avançar no filme, nem retroceder. Entre os controles do player temos somente a opção de pausar e resumir, além de poder alternar entre tela cheia e tela original. No meu caso eu tive problemas: aos 45 minutos, sem querer, desliguei o meu equipamento ao resvalar no controle remoto. Ao religar, não tive a opção de voltar de onde parei. Logo, a única opção era rever os 45 minutos que havia acabado de assistir. Sem chance, simplesmente desisti. Isto é extremamente grave e deve ser corrigido o quanto antes.

Outra coisa que pegou muito mal: minha televisão é da nova geração de plasma. Logo, ela possui diversas programações anti-burning, um mal muito comum que manchava as telas nas primeiras gerações do plasma. Um destes mecanismos é colocar uma tela de descanso quando a imagem está estática há muito tempo, o que também gera economia.

O recurso funciona muito bem em qualquer equipamento que eu tenho em casa, incluindo receptores de televisão, videogame e media player. Entretanto, no aplicativo da NetMovies, mesmo com o filme em pleno movimento, o eletrônico da Samsung entende que a imagem está estática e automaticamente aciona a tela de espera! Ou seja, a cada dez minutos preciso fazer alguma ação no controle remoto para que a tela não entre enquanto estou vendo o filme, simplesmente um horror.

Não sei se aqui a culpa é da NetMovies ou da Samsung, mas visto que a parceria é entre ambos, eles que se entendam, mas não deixe isto chegar ao consumidor, pois isto mata qualquer possibilidade de entretenimento: ao invés de me concentrar no filme, preciso ficar de olho no relógio antes que a maldita tela de descanso entre em ação.

Conclusão

Vale a pena, vale, mas principalmente pelo catálogo. Se no meio houvessem somente lançamentos, com certeza eu pularia fora nesta fase do projeto, mas como tem alguma pérolas e outras raridades, ficarei com o serviço por mais um tempo!

Se eles melhorarem tudo aquilo que eu critiquei, com certeza viro assinante em definitivo, pois realmente é muito prático. Desejo sorte a NetMovies e que eles tenham uma longa vida pela frente. E que a principal empresa a fazer este tipo de coisa, a NetFlix, possa servir como espelho para eles aperfeiçoarem seus serviços antes que a mesma chegue ao Brasil – conforme algumas notícias vinculadas na internet.

sábado, 11 de junho de 2011

Coração Valente


Vamos trocar, momentaneamente, o título deste clássico para Coração Despedaçado para que assim fique mais condizente com a proposta do meu olhar perante a melancólica - belamente melancólica - jornada do guerreiro Willian Wallace, traído de sua infância até a sua morte.

Neste caso também poderíamos intitular a obra como Coração Traído que o entendimento seria o mesmo. De fato, Coração Valente é um filme épico, bem filmado, bem dirigido, com uma história muito marcante do tempo em que as coisas se resolviam na espada, onde o mais forte e mais corajoso levava vantagem sobre o mais fraco e mais covarde.

Entretanto estas qualidades não são exclusivas de Coração Valente. Então o que faz que adoremos tanto este filme a ponto de torná-lo único? Creio que é a nossa identificação com o protagonista. Assim como ele, somos parte de um povo traído e reprimido, vivendo sob a batuta de uns poucos magistrados detentores do poder, pessoas que elegemos e que insistem em nos decepcionar.

Somos explorados por esta classe nojenta, que não possui ética, honra ou qualquer valor moral. Seus valores são os inversos, aqueles que nos trazem mal estar e repulsa. Somos um pouco de Willian Wallace por estarmos cansados de tanto miséria em nome de nada. A atitude de Willian Wallace, ao unir o povo em busca de sua liberdade, é a mesma atitude imaginário que temos - buscar uma resistência contra o sistema ou aguardar um herói que estoure o estopim.

Além disto somos traídos também por nossos amigos e colegas, pessoas próximas a qual depositamos total confiança e depois somos arrasados mediante o erro de nosso julgamento. Willian Wallace também é uma destas pessoas. E, tanto para ele quanto para nós, a vida precisa seguir. A diferença é que Willian Wallace não deixa nada para lá - ele é valente, como diz o título original, logo irá aplicar uma lição naqueles que lhe traíram. Mais uma vez ele serve como um avatar para os nossos desejos mais íntimos.

Willian Wallace ultrapassa as barreiras do nosso imaginário. Enquanto apenas desejamos fazer justiça pelo mal sofrido, temendo as leis e o não contradizendo o "bom" senso, Willian Wallace vai lá e faz - estamos vingados através de seu personagem. Além disto, consegue ser sanguinário e justo, violento e honrado - se posicionando exatamente no limiar das ações que permeiam a nossa mente sem que aja transgressão.

Além disto, Willian Wallace é um exemplo de superação. Mesmo após quedas que deixariam qualquer um no fundo do poço pelo resto da vida, Willian Wallace levanta a cabeça e segue adiante, com graça e radiante de esperança. Nossa vida é um fardo de constantes superações. Como dito no popular, matamos um leão por dia e vivemos um dia de cada vez. Não temos espada, mas somos igualmente guerreiros. Logo, histórias de superação alimentam e purificam nossa alma e a identificação é imediata.

Por fim, os últimos momentos de Willian Wallace são semelhantes aos momentos finais de Jesus Cristo. É traído, julgado com a opção de recusar os seus ideais, ofendido pela multidão, torturado e assassinado em público. Entretanto sua morte representa a salvação. Willian Wallace agora é Yeshu: seus seguidores continuam o trabalho de libertação de todo povo sob o seu nome.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Monstro


"Um serial killer está à solta e o paisagista e pintor de letreiros Loris, um caloteiro de primeira e artista de segunda que vive fugindo do proprietário de seu apartamento para não pagar o aluguel, é o principal suspeito. Isso graças a seu péssimo hábito de ser surpreendido em situações comprometedoras.

Jessica, uma policial à paisana, é incumbida pelo excêntrico psicanalista policial, Taccone, de seguir Loris e adquirir provas para efetuar sua prisão. Mas as coisas não saem como planejado... Você vai morrer de tanto rir."

Esta é a sinopse de O Monstro, filme escrito, dirigido e protagonizado pelo cineasta italiano Roberto Benigni, que em 1997 ficaria internacionalmente conhecido pelo brilhante A Vida é Bela – vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Acompanhado de sua inseparável musa (a esposa Nicoletta Braschi) Benigni desenha, em minha opinião, um dos melhores filmes de comédias desde Charles Chaplin. Poucos filmes do gênero fazem parte de minha estante, e este é um deles.

Sua interpretação é impecável, marcante e inigualável. Benigni é uma espécie de Mr. Bean agregado com aquele exagero característico que é peculiar dos cidadãos italianos: articulados, sotaque cantarolado e descontraídos. De fato, os filmes de Benigni sempre ascendem a estes atributos, amplificando em níveis estratosféricos de modo que o humor seja imbatível.

Esta comédia não é aquela pastelona, nem se trata de besteirol, mas sim de um humor sútil e inteligente dado ao roteiro suave idealizado por Benigni, que cria situações cômicas no cotidiano comum de um malandro nato – que é personificado por Lori, nosso anti-herói que se envolve em tantas confusões que acaba se tornando o principal suspeito referente a um assassino em série que estava fazendo vítimas na redondeza.

Desde o princípio já sabemos que Lori não tem nada a ver com isto – simplesmente está sempre no local e na hora errada. Entretanto é esta fórmula que faz desta uma das grandes comédias: no ponto de vista das outras personagens, é quase impossível pensar que Lori não seja de fato o criminoso, afinal todas as situações levam os a esta conclusão. As cenas são hilárias, com diálogos excelentes, visto que as personagens são quase todas excêntricas e carismáticas.

Do ponto de vista de interpretação, este filme é uma aula de atuação. Para quem está iniciando sua carreira como ator, seja no teatro, seja no cinema, não deveria deixar de ver este filme por nada. De fato, ele é quase um laboratório para aquilo que veríamos três anos depois em A Vida é Bela. Os outros atores do filme também estão à altura do filme – não vou falar de Nicoletta Braschi, que interpreta a policial disfarçada que se aproxima de Lori para servir de isca numa operação, afinal seu papel propositalmente é não ofuscar o cintilante mestre.

Temos aí um filme completo, com começo, meio e fim, entretenimento de alto nível que, assim como certas séries, não cansamos de ver: uma, duas, três, quatro, cinco vezes, enfim, independente da quantidade de vezes que assistirmos, não tiramos a expressão de riso do rosto. Filme que eu recomendo para todos que eu conheço, logo não poderia deixar de recomendar neste blog.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Cisne Negro


Não esperava outra coisa, que não fosse excelente, de um diretor do gabarito de Darren Aronofsky. Ainda muito jovem este é um dos iluminados do cinema, visto que desde Pi – seu filme de estreia – todos os seus trabalhos são clássicos do novo cinema (a título de curiosidade, no IMDB, seu pior filme tem a nota 7.4).
Logo já sabia que o filme seria algo melhor do que temos nos habituados a averiguar no cenário atual – onde remakes e continuações persistem num cinema que está ficando sem criatividade e a beira da falência. O que eu não sabia é que Cisne Negro era a principal obra de Aronofsky até o momento, candidato à melhor filme dos últimos anos.

Aronofsky demonstra ter habilidade de sobra para retratar os homens e seus demônios, parece conhecer como ninguém a loucura presente em cada um de nós, o grito contido na garganta e as consequências do sentimento reprimido. Como diria Gabriel Garcia Marques – “todo escritor sempre escreve o mesmo livro”, neste caso este diretor sempre dirige o mesmo filme, explorando cada vez mais a angústia do homem presente no mundo, assim como doenças da alma e do coração.

Uma breve sinopse: Cisne Negro é uma história que mostra a expectativa e o esforço da bailarina Nina em busca da apresentação perfeita para a estreia da nova montagem de O Lago dos Cisnes, balé composto em quatro partes pelo russo Tchaikovsky. Nina, já com 28 anos, sempre treinou arduamente para o papel principal, e agora que é selecionada, exerce uma enorme pressão em torno de si mesma.

Esta pressão faz com que Nina se torne uma mulher atormentada, perturbada e com mania de perseguição, que passa a ver coisas e imaginar situações que se confundem com o nível real. Logo Nina passa da breve pressão para ataques constantes de psicose e delírio pré-loucura. De certo modo, lembra muito o declínio de Raskólnikov, protagonista de Crime e Castigo, obra clássica de Fiódor Dostoiévski – tenho lá minhas dúvidas se o filme não foi influenciado pela literatura do escritor russo (coincidência ou não, existe um filme brasileiro chamado Nina que é baseado em Crime e Castigo).

O Cisne Negro permite uma série de análises complexas nos seus diferentes atos. É um filme que traz algumas fendas de reflexão que nos autorizam a mergulhar por horas em suas diretrizes distintas. Entre estes pontos podemos destacar a relação entre Nina e sua mãe, uma mulher protecionista que abdicou de sua carreira de bailarina, para cuidar de Nina – fruto de um relacionamento do que podemos classificar como “Uma Noite e Nada Mais”.

Nina pode ser vista como uma consequência de sua mãe (e não como uma filha ou uma cria): Nina é a oportunidade de sua mãe vingar-se como a continuidade da carreira de bailarina que foi “obrigada” a abandonar. Além disto, Nina é sempre vista como uma menina por sua mãe – o quarto decorado como uma menina de 12 anos, mais as regras e deveres impostos a protagonista, causam uma repressão e uma espécie de fúria contida, que traz graves sequelas posteriores.

Este relacionamento complexo entre mãe e filha corrobora ainda mais com minha teoria: nunca um escritor explorou tão bem a conturbada relação entre pais e filhos do que Dostoiéski, ilustrada tão perfeitamente em Os Irmãos Karamazov. Inclusive o ápice do delírio chega a um notável grau de semelhança entre o Cisne Negro e o livro. Deveras, os traços de influência estão lá, como se fossem easter eggs para os apreciadores do escritor russo.

Outro ponto de destaque é a conversão da menina ingênua, que é uma abstração do cisne branco, para a menina perversa, que nada mais é do que o cisne negro tão almejado. De fato, o cisne branco tem uma apresentação impecável, perfeita, onde devido aos traços inocentes da personalidade de Nina, não há dificuldade em preservar o papel. Entretanto o cisne negro peca em excesso: o cisne negro está muito distante de Nina e acaba por influenciar a sua apresentação.

Para que ela consiga chegar ao seu objetivo, há uma série de iniciativas provenientes principalmente de Thomas Leroy – o diretor da montagem – que tenta despertar o espírito malvado em Nina tão necessário para encarnar a personagem obscura do balé. Este dualidade entre o negro e branco desperta constantes desequilíbrios na protagonista, que chega a ter acessos esquizofrênicos durante boa parte do filme.

Por fim, não menos importante, é o relacionamento entre Nina e Lily, uma colega do balé que é personificação do próprio cisne negro. Lily é substituta direta de Nina, que vê em sua colega uma ameaça para o seu papel, o que acalenta ainda mais a pressão exercida por si mesma. Lily é o Gral de Nina, objeto de perseguição e obsessão. É para lá que Nina deve caminhar se quiser se tornar o cisne negro perfeito.

É neste clima que o filme se desenvolve. Não irei citar nenhum caso em específico para não diminuir a experiência daqueles que irão assistir. Entretanto é interessante guardar estes pontos em sua mente para que se possa criar uma posterior reflexão dissertativa, visto que possibilidades não faltam. Ademais, outros pontos, que não os apresentados neste texto, podem ser explorados. O filme é quase inesgotável.

Portanto Clint Eastwood que se cuide, pois está chegando Darren Aronofsky, um diretor da nova safra que ainda trará outras preciosas iguarias para o nosso cinema. Arrisco-me a dizer que no futuro ele será considerado o melhor de todos os tempos. Se continuar neste ritmo, o que eu disse não será nenhuma adivinhação, mas um fator lógico a ser considerado.

domingo, 22 de agosto de 2010

Appaloosa


Desde os fabulosos Os Imperdoáveis e Tombstone eu não havia encontrado mais nada no gênero Western que me chamasse a atenção. Estes dois são clássicos do cinema que estão para além de qualquer suspeita, afinal existe uma grandiosa história por trás de intocável elenco. Nada poderia ser melhor.

Nem mesmo Onde os fracos não tem vez (o fajuto ganhador do Oscar de Melhor - argh! - Filme) e nem mesmo o excelente O Assassinato de Jesse James conseguiram repetir a façanha destes dois citados acima.

Porém recentemente conferi um hit que conseguiu saciar a minha sede do estilo. Trata-se do magnífico Appaloosa - Cidade Sem Lei, filme que repete a fórmula de sucesso dos clássicos: excelente roteiro aliado a um excelente elenco.

Neste caso temos um ingrediente especial: um dos meus atores prediletos do cinema assina o roteiro, a direção e ainda atua como personagem principal! Este cara é Ed Harris e os louros são todos para si, devido ao imenso risco de fracassar ao assumir tudo sozinho.

Se o filme não fosse bom, a imagem de Ed Harris poderia ser prejudicada, mas não: tudo funciona perfeitamente bem!

Na companhia de Ed Harris, ainda temos Viggo Mortensen - representado pelo seu fiel escudeiro Everett -, Renée Zellweger, como a senhora que mexe com os brios do mocinho, e o estupendo Jeremy Irons, como o vilão da história.

Coloque estes quatro cidadãos no liquidificador, bata e veja o que sai: uma bebida com um sabor inesquecível. Assim é Appaloosa, um grande momento do cinema.

Appaloosa é uma cidade tomada pelos bandidos e constituem uma terra sem lei. Virgil e Everett formam uma destemida dupla que está habituada a este tipo de situação e que são contratados para restabelecer a ordem.

A dupla chega a lembrar de dois personagens clássicos de Miguel de Cervantes: Dom Quixote e Sancho Pança, e desconfio que ambos tenham sido verdadeiramente inspirados pelo livro do espanhol.

Agora o triunfo do filme reside nos irreverentes diálogos. É uma provocação sem fim que lhe deixa tenso em diversos momentos. Se tivesse que comparar com a televisão, Virgil é como um Dr. House versão Bang-Bang. Imagine só então o que vem por aí! Recomendado!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Okuribito - A Partida


Esta obra de arte do cinema nipônico é uma das experiências mais agradáveis que pude compartilhar com o meu televisor nos últimos tempos. Este é um daqueles filmes deliciosos, de fácil digestão, com toques suaves de humor e drama sob medida, além de momentos de emoção e um ápice comovente. Se fosse um filme americano apostaria qualquer valor que seria o grande campeão do Oscar.

Não estamos diante de um quebra-cabeça. O filme não é de suspense e nem exige uma bagagem intelectual para sua apreciação. Na verdade é uma trágica comédia, ou talvez um drama engraçado, defina como quiser. O fato é que os mais de 130 minutos do filme passam como num piscar de olhos. Elogios a parte, vamos a história, que embora aparentemente não tenha nada demais, é extremamente bem desenvolvida.

Daigo Kobayashi é um perdedor nato. Assim que consegue realizar o seu sonho de tocar numa orquestra sinfônica e, obter com isto, uma melhor posição social, ele adquire um violoncelo caríssimo especialmente para executar a sua tarefa, porém logo após a sua primeira apresentação, o patrocinador encerra as atividades da orquestra por falta de público.

Logo, Daigo está sem emprego e com um instrumento financiado para pagar. Com o aval de sua apaixonada esposa, ele vende o instrumento e volta para a sua terra natal, numa zona afastada dos grandes centros. Passa a morar com sua esposa na casa que sua falecida mãe deixou de herança. A casa remonta à diversas lembranças que Daigo teve em sua infância, e as lembranças não são as melhores, visto que seu pai - a qual gostava muito - abandonou a casa para viver com outra mulher.

Em sua nova vida, Daigo busca um emprego nos anúncios de um jornal regional. Uma oferta lhe chama a atenção: um ótimo salário para um trabalho que não necessita experiência numa empresa que auxília os seus clientes em suas jornadas. Daigo imagina ser uma agência de viagens e decide ir até a empresa para se candidatar a vaga.

Na empresa, temos a secretária e o chefe, mais ninguém. Na entrevista, o chefe não faz questões, apenas diz o valor do alto salário, que espanta Daigo de tal maneira, que o chefe promete lhe pagar por dia e imediatamente lhe dá um adiantamento. Daigo acaba por aceitar a importância e sua contratação é efetivada.

No dia seguinte, conhecemos o trabalho de Daigo. Eles preparam defuntos recém-mortos numa cerimônia pré-cremação. Eles atuam como uma extensão da funerária. Além de maquiar e limpar o corpo dos mortos num ritual onde todos os familiares observam, também executam um ritual bonito e respeitoso de purificação da alma, antes mesmo de fechar o corpo num caixão.

Porém o trabalho onde seja necessário tocar o corpo dos mortos é considerado uma profissão de baixo escalão. Portanto Daigo esconde de todos o que eles faz, para não desonrar seus amigos e sua esposa. O desenrolar do filme segue uma fórmula interessante: cada vez que o escritório de Daigo é acionado, temos uma experiência totalmente diferente em relação ao morto e os seus familiares. Há casos que são engraçados, outros são trágicos. Outros ainda mesclam um pouco dos dois gêneros. Em alguns momentos, me recordei de uma série antiga da HBO chamada "Six Feet Under" (traduzido como "A Sete Palmos").

Entre cada caso, Daigo beira entre o rídiculo e o dramático, quando seus temores estão próximos de se tornarem realidade e seus fantasmas do passado lhe atormentam ainda mais. A dinâmica do filme faz com que tudo seja muito bem explorado e a temática não acabe por nos cansar. É como se estivéssemos diante de um seriado com diversos episódios de curta duração. Se eu tivesse que falar do que se trata este filme, diria que se trata da relação entre pais e filhos. Daigo - o filho rebelde que nem mesmo se recorda da face do pai e seu inconformismo por ter sido abandonado. Do outro lado o pai - a qual só conhecemos através da perspectiva de Daigo e de alguns vizinhos.

Diante da perspectiva de tantas mortes, além de conviver num local que lhe remete a tantas coisas ruins, Daigo se transforma num herói. É carismático a ponto de sofrermos com suas quedas e sorrirmos com as suas ascensões. Há momentos que os corações mais duros certamente se amolecerão. Se você não quer se desmontar na frente dos outros, aconselho que assista este filme sozinho, por que o risco disto acontecer é real.

domingo, 6 de junho de 2010

O Livro de Eli


Num mundo pós-apocalipse, onde o sol é tão intenso que obriga as pessoas a cobrirem diversas partes do corpo, além de protegerem os seus olhos para não ficarem cego, Eli peregrina por entre becos e locais destruídos rumo ao Oeste, carregando consigo um livro a qual lê todos os dias. Em sua jornada, Eli se depara com inúmeras aventuras, em parte devido a um mundo habitado por homens desnudos de honra, ética e moral - em sua natureza mais selvagem, cujo objetivo de vida é apenas sobreviver ao término do dia.

No decorrer da história, sabemos que Eli carrega consigo o único exemplar do livro sagrado de Deus - a Bíblia - que sobrou após a destruição em massa de todas as outras edições, consequência de uma guerra que provavelmente deixou o mundo como nos é apresentado no filme: sem vida, acinzentado e caótico. A Bíblia, na visão de Eli, não representa somente a salvação do mundo através da propagação da fé, nem somente a ordem tão necessitada nestes dias tenebrosos, mas significa também o compromisso com a sua própria crença, afinal foi uma voz que lhe pediu para percorrer esta empreitada.

Eli, interpretado pelo excelente Denzel Washington, é um profeta de Deus. É o instrumento do divino para salvar uma vez mais a humanidade, assim como já fizeram tantos outros - segundo registros bíblicos. Eli é o grande herói de seu tempo, protegido pela alcunha do mestre dos mestres. A sua história representa o primeiro capítulo de uma espécie de novíssimo testamento, uma parte jamais escrita da Bíblia que relata as proezas divinas desta época. Até nisto o título do filme vem muito a calhar.

Através do título, muito interessante pela proposta que eu observei em particular percepção, entendo que os idealizadores trabalharam com a ideia que se trata de uma versão filmada de um livro bíblico jamais escrito, que viria logo após o apocalipse de João, que supostamente teria sido escrito há muitos anos e que retrata como Deus salvou a humanidade através de sua palavra, carregada pelo profeta Eli. O Livro de Eli, portanto, não é somente o título do filme, mas o título do que poderia ser um livro bíblico.

Imagine se a história do filme fosse escrita em papiro, com o devido estilo bíblico aplicado, e encontrado numa região remota, num local inusitado, daqui a 1000 anos. Qual seria o efeito da obra? Se tornaria um objeto de adoração global? Se tornaria um evangelho apócrifo? Não temos como saber, porém creio que, no mínimo, haveria pessoas que acreditariam na história, talvez a igreja católica - se existisse no ano 3010 - até canonizaria o Santo Eli. Talvez se tornasse uma história a ser contada nas igrejas, dos dias em que Satã habitou na Terra e como um homem tocado por Deus conseguiu expulsá-lo somente com a fé nas escrituras.

Em determinados versículos do Livro de Eli talvez houvesse sermões sobre como o conhecimento excessivo - típico da sociedade da informação - trouxe o mal ao homem, cuja ganância fez com quisesse ser Deus para controlar a humanidade, lição encontrada nas passagens sobre Carnegie. Material para que os líderes espirituais formulassem os seus sermões é o que mais encontrariam no Livro de Eli.

Mas será que o roteirista, ao escrever a história, queria passar uma mensagem religiosa, sobre a necessidade de redenção e sobre a necessidade de ter fé no Deus Uno para termos uma vida organizada e, principalmente, feliz? Será que o homem, por si só, não obteria os valores éticos e morais para organizar-se sem a necessidade de Deus dentro de si, e por isto mesmo este reencontro com o divino era totalmente necessário? Nos dias atuais cada vez mais dispensamos a fé para nos apegarmos às explicações materiais, seria o filme uma crítica a esta afirmação? Ultima questão: será que o filme realmente é uma espécie de pregação religiosa?

Eu, felizmente para alguns e infelizmente para outros, não veja desta forma. Sobre a minha ótica a mensagem pode ser ligada diretamente ao problema conhecido como a origem do mito. Da mesma maneira que o Livro de Eli foi escrito, outros livros épicos da Bíblia também, como a história de Noé, Moisés, Abraão, José, Jó e Jesus Cristo. Sabemos que o Livro de Eli não passa de ficção, portanto onde reside a credibilidade dos outros livros presentes na Bíblia? A credibilidade, obviamente, reside na fé. A mesma fé que levou Eli a crer que jamais poderia ser ferido em sua jornada - e quem assistiu ao filme sabe que ele foi gravemente ferido.

Além disto, a fé é incondicional e indiscutível, afinal se trata de um sentimento relacionado com uma certeza que não sabemos de onde vem. É ela que nos guia quando não sabemos para onde ir. Ou seja, a fé é cega e Eli é cego. Desde o início do filme temos evidências para acreditar nisto, porém somente no final temos uma revelação conclusiva. A questão é: a cegueira de Eli é uma dádiva ou uma maldição para as pessoas que estão ao seu redor? Com Eli não tem diálogo, quem cruza o seu caminho e tenta lhe impedir acaba sendo morto impiedosamente - entretanto a culpa pelo assassinato nunca foi um sentimento presente e nem mesmo empecilho nos profetas de Deus. Estamos diante de uma crítica ao fanatismo religioso?

Talvez não, talvez isto seja apenas um delírio provocado por minha mente agnóstica, porém relembremos que no passado houve uma guerra devastadora, cujo se acreditava que todas as Bíblias haviam sido queimadas. Entretanto aqui temos uma importante e insolúvel questão: as Bíblias foram queimadas antes ou depois da guerra? O teor do filme sugere que o mundo ficou caótico por que as pessoas se afastaram e perderam a fé em Deus, porém esta é apenas uma sugestão. Numa outra leitura podemos dizer que a guerra foi tão destrutiva e tão cruel com as pessoas, a maioria delas provavelmente não tinham nada a ver com o conflito, que elas mesmos perderam a fé. Neste contexto, Deus não lhes protegeu, logo eles se rebelaram ou perceberam que era tudo uma farsa. Em paralelo Eli, que é cego (sua cegueira pode ser considerada uma metáfora para o que estou dizendo) continuou a acreditar.

Além disto, quando Eli chega ao término de sua jornada, ele entrega e traduz o livro, que está em braile, para uma pessoa que conserva outros livros, em tese, conserva o conhecimento. Ao fim, esta pessoa imprime diversos exemplares, o que poderia simbolizar a renovação da esperança, porém ao pegar uma destas edições e inserir entre dois outros importantes livros para a religiosidade, a Torá e o Alcorão, o roteirista abriu novas questões: se eles já tinham a Torá e o Alcorão em mãos, por que o mundo continuava imoral, visto que estes livros também trazem consigo mensagens do mesmo Deus (vide Pentateuco)? Será que apenas a Bíblia Cristã seria distribuída entre as pessoas?

Ou a Bíblia seria apenas mais um livro na prateleira? O que garante que a distribuição da Bíblia iria tornar aquele um mundo melhor? Se você achou o final do filme uma alternativa otimista para um filme que retrata uma realidade pessimista, saiba que este sentimento veio do tema-mor da história: a fé. A fé é mágica, fascinante e também elabora opiniões. Para aqueles que possuem fé no divino, a história trará uma excelente lição de moral, e ficará satisfeito com o resultado. Para os mais céticos, como eu, o filme trará uma série de dúvidas sobre o seu propósito, e este também ficará satisfeito. Já aqueles que não possuem fé nenhuma, o filme poderá ser lido como uma excelente ironia sobre como surgem os mitos e, assim como os outros, também estará satisfeito com o resultado final.

A possibilidade de múltiplas interpretações, sem precisar exigir muito do telespectador, cria um diálogo tão interessante entre sujeito (aquele que assiste - nós) e o objeto (aquele que é assistido - o filme), que não há como não inserir esta obra na minha lista de prediletas da sétima arte. Estamos diante de uma joia rara, daqueles que permitem uma série de debates. Há pessoas mesmo que ainda discutem se a personagem principal era mesmo cega, conforme insinuado ao término do filme.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Jacob's Ladder


Quem assistiu ao último episódio de Lost, porém não entendeu, poderá encontrar neste cult um bom caminho para ser seguido, visto que ambas as temáticas caminham de mãos dadas e a influência do filme nas diretrizes de Lost não podem ser negadas.

Arrisco a dizer, inclusive, que a ideia principal de Lost é basicamente uma proposta mais elaborada de Jacob's Ladder (em português, Alucinações do Passado). Enquanto as inúmeras personagens de Lost trazem consigo uma trama complexa, aliada aos mistérios provenientes da ilha, Jacob's Ladder se resolve em menos de duas horas.

Os fãs de Lost que haviam aproximado o seriado deste filme já haviam dado pistas do final há algum tempo.

Antes de irmos para a trama do filme, vale ressaltar que Jacob's Ladder é um termo que se refere ao livro de Gênesis (28:11–19), a qual o filme pode ter sido inspirado. Para conhecimento, segue os versículos bíblicos:

E chegou a um lugar onde passou a noite, porque já o sol era posto; e tomou uma das pedras daquele lugar, e a pôs por seu travesseiro, e deitou-se naquele lugar.
E sonhou: e eis uma escada posta na terra, cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela;
E eis que o SENHOR estava em cima dela, e disse: Eu sou o SENHOR Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaque; esta terra, em que estás deitado, darei a ti e à tua descendência;
E a tua descendência será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra;
E eis que estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra; porque não te deixarei, até que haja cumprido o que te tenho falado.
Acordando, pois, Jacó do seu sono, disse: Na verdade o SENHOR está neste lugar; e eu não o sabia.
E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.
Então levantou-se Jacó pela manhã de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por seu travesseiro, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela.
E chamou o nome daquele lugar Betel; o nome porém daquela cidade antes era Luz.

Segundo o wikipedia, uma das diversas representações de Jacob's Ladder aparece no quarto episódio da sexta temporada (chamado O Substituto) de Lost, o que evidencia ainda mais a conexão entre o filme e a série.

Agora sim, chega de Lost e vamos a trama do filme!

Inicialmente nos é retratado um acampamento americano em plena guerra do Vietnã, a qual é atacado subitamente. Durante o ataque, alguns soldados começam a ter comportamentos insanos e Jacob Singer - a personagem principal - na tentativa de fuga acaba sendo esfaqueado por uma baioneta.

Na sequência, vemos um Jacob num mundo onde é atormentado por lembranças da guerra, alucinações e a culpa por ter deixado o seu filho morrer antes de ir para a guerra.

Dia após dia, Jacob começa a vislumbrar coisas esquisitas, aparições demoníacas e passar a buscar a explicação para estes delírios.

Em sua tragetória, um amigo lhe diz que ele está morto, porém a não aceitação faz com que ele seja atormentado por demônios, que queimam as partes de Jacob que não desejam abandonar a vida, como as memórias. Eles não tentam puní-lo, mas apenas libertá-lo. Caso ele conseguisse ficar em paz, os demônios virariam anjos e os libertariam da Terra, o que indica que o bem e o mal são diferentes faces da mesma moeda, uma experiência relativa para aquele que a vive.

De imediato, ele acredita ser vítima de algum experimento no exército americano, que teria lhe deixado num estado quase insano. Logo se encontra com os seus colegas sobreviventes na campanha do Vietnã, que também vislumbram coisas estranhas e concordam em buscar um advogado que pudesse lhes representar contra o governo americano. Porém logo todos os seus colegas desistem da ideia no dia seguinte. Não acreditando, decide ligar para um deles, que melancolicamente diz "o que aconteceu lá aconteceu, nada mais pode ser mudado".

Jacob continua sua empreitada e descobre que realmente eles foram vítimas de uma droga que aumentava a agressividade, logo concluímos que Jacob foi atacado não por um inimigo, mas por algum membro de seu próprio batalhão, o que explica por que eles foram pegos desavisados.

No fim sabemos que Jacob nunca saiu do Vietnã, que todos os acontecimentos apresentados fora do exército era uma espécie de purgatório provocado por uma experiência de pré-morte. Neste universo criado por Jacob, assim que ele encontra a paz, após conformar se com a situação, ele encontra o seu pequeno filho, cuja lembrança de sua morte lhe persegue por todo o filme. Os dois dão as mãos e sobem as escadas em direção à uma forte luz.

Assim que Jacob passa pelas fases do purgatório, como a rendenção e a resignação, ele aceita a sua morte e fecha os olhos para sempre.

Como dito, é um ótimo filme para aqueles que já estão com saudade de Lost e querem encontrar mais referências e temáticas parecidas. Mesmo aqueles que não se envolveram com a série, podem assistir que não irão se decepcionar. Se trata de algo realizado há 20 anos e que desperta elogios por parte daqueles que prezam o gênero suspense, drama e horror, sem perder o estilo cult.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Piratas do Vale do Silício


Será que você consegue imaginar um mundo sem celulares, computadores e MP3? Talvez até consiga, visto que tudo isto ainda é muito novo e a maioria os adultos de hoje nasceram num tempo onde o que temos em abundância em qualquer lugar era algo raríssimo de vermos antes dos anos 90.

Porém estou certo que esta visão tende a desaparecer ao longo dos anos. Quando o habitante mais velho de nosso planeta tiver nascido no ano de 2000, o século XX será vislumbrado somente nos livros e nos cinemas e não fará mais parte da memória de nenhum cidadão vivo.

Muito embora eu sinta saudade da época em que esperávamos em fila, com um punhado de fichas na mão, a oportunidade de utilizar um orelhão da CTBC para fazer uma ligação e também sinta saudade da época em que ainda envíamos cartas manuscritas para nossos parentes e amigos, é inegável que a revolução tecnológica colocou nossas vidas do avesso.

Entre pontos negativos e positivos, não podemos deixar de destacar a fundamental importância na inclusão de um apetrecho que passaria a fazer parte na vida de qualquer pessoa: o PC (Personal Computer, ou Computador Pessoal). Hoje o computador pessoal é acessível para as diferentes classes. Podemos, inclusive, encontrar em diversas famílias não só um PC, mas também notebooks e netbooks para exemplares diferentes da sociedade.

Em grande, muito da popularização do PC é graças aos esforços de duas empresas de tecnologia: a Apple (conhecida pelo iPod e pelo iPhone) e a Microsoft (conhecida pelo Windows e pelo Office). Conhecer o início destas duas empresas e, principalmente, como surgiu a ideia por trás de seus fundadores (Steve Jobs e Bill Gates) é realmente um grande capítulo a ser incluido nos livros de história vindouros: traição, plágio, intrigas, persuassão e conflitos são os ingredientes que fizeram estas duas empresas decolarem para níveis estratoféricos.

Piratas do Vale do Silício é um filme que retrata bem a ascensão do império destes dois gigantes no mundo virtual. Nele observamos um jovem e ambicioso Bill Gates, calouro na Universidade de Harvard, junto com o seu colega Paul Allen desenvolverem uma linguagem chamada "Basic" para os primeiros computadores pessoais conhecidos como Altair 8800.

Paralelamente observamos um jovem hippie e temperamental chamado Steve Jobs, juntamente com seu colega Steve Wozniak, que havia iniciado o projeto Apple I na Universidade de Berkeley, largarem tudo para fundar uma empresa na garagem de Jobs chamada Apple. Algo interessante é que Wozniak na época trabalhava para a HP que, por contrato, exigia que seus funcionários apresentassem todas as ideias para si. Entretanto, quando Wozniak apresentou o seu Apple I, eis a resposta do executivo da HP: "Meu filho, quem é que vai querer um computador dentro de sua casa?". Me pergunto como será que estes executivos conseguiram curar a dor de cabeça que surgiu posteriormente ao sucesso da Apple.

Outro ponto de destaque é o marco onde a Microsoft deixa de ser uma empresa pequena para tornar-se uma empresa multimilionária: quando o Sr. Gates vende um sistema operacional (o DOS) que ele não tinha a IBM e ainda mantém no contrato que o sistema continua sendo propriedade da Microsoft, que poderia vender o sistema para quem quisesse. A IBM aceitou o contrato, e como não tinham nada, Bill Gates e companhia correram até um conhecido e compraram este sistema operacional por apenas U$ 50.000,00. Ou seja, Bill Gates não tinha nada e ficou rico sem criar nada!

Mas o mais interessante mesmo são os cruzamentos entre Steve Jobs, que se considerava intocável e tinha uma série de problemas pessoais, e Bill Gates, uma víbora persuassiva. Enquanto Jobs copiou a interface gráfica e a utilização do mouse de um projeto da Xerox, a Microsoft copiou a interface gráfica e o mouse da Apple traindo a confiança de Jobs para sempre.

Porém, em nome dos negócios, alianças são feitas e desfeitas numa grande disputas pela maior fatia do mercado. Enfim, é um filme bem bacana que além de mostrar o início de tudo, mostra também característica pessoais natas que viriam a transformar estas personagens em celebridades do mundo corporativo.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Veronika Decide Morrer



Não são todos os dias em que vemos a história de um autor brasileiro ser adaptada para o cinema internacional. De fato, isto por si só já deveria ser um grande atrativo para o público das terras tupiniquins irem ao cinema: você incentiva ao mesmo tempo que é incentivado a ingressar neste mercado. Fora este detalhe, estamos falando da adaptação de uma obra de Paulo Coelho, um dos escritores brasileiros mais bem sucedidos na literatura mundial - embora admita que ele não figura na lista dos meus prediletos, seu talento é inegável e reflete no número de exemplares vendidos em cada um de seus romances.

Como adendo, temos, em minha singela opinião, a adaptação da melhor obra de Paulo Coelho dentro os livros que li (O Alquimista, Diário de um Mago, O Demônio e a Srta. Prym e esta a qual estamos resenhando). Verônica Decide Morrer é um belo livro onde, embora curto demais por sua dinâmica, temos uma história muito agradável de ser apreciada. Como os demais livros do autor, o texto foi escrito para o público geral, e não especificamente para os ecumênicos dos ciclos cultos e eruditos - a qual erroneamente insiste em dizer que o autor carioca não é digno de representar o Brasil no cenário internacional.

Verônika é uma jovem bem sucedida: tem um bom emprego, uma boa família e um bom lugar para morar. Sua vida é perfeita exceto um simples detalhe: Verônika não se sente como parte de seu mundo. A estrutura de sua vida não lhe sustenta e nada mais parece fazer sentido. Onde será que reside o sentido de viver para Verônika? Se não existe uma razão, talvez não exista vida. Se não há vida, o que estou fazendo aqui?

Verônika, cansada de si mesma, decide morrer. Planeja o fim de todo o seu tormento ao desligar-se para sempre do universo. Para isto, faz um coquetel de remédios e se autointoxica. Porém não consegue chegar para a eterna escuridão. Uma hora abre o olho e se encontra internada num quarto em Villete, uma espécie de casa para tratar pessoas com distúrbios mentais (vulgo manicômio). Logo alguém vem lhe explicar que seu suicídio foi mal sucedido. Uma mistura de decepção - nem isto eu consegui? - com um provável alívio de continuar ali toma conta do rosto de Verônika.

O desenvolver da história mostra a relação de Verônika em Villete e de seus frustrados tratamentos, uma vez que a garota continua propícia ao suicídio. Um tratamento alternativo é colocado em paralelo pelo responsável por Villete: dizer a Verônika que a intoxicação afetou partes de si que fatalmente lhe levariam a morte a qualquer momento. Com a certeza de morte ao invés da possibilidade gerada por si, Verônika reaprende a viver com aqueles que tanto quanto ela estão deslocados em um mundo que não lhes pertencem. Com a certeza que cada dia poderá ser o seu ultimo dia, Verônika passa a viver intensamente cada momento. O tratamento experimental é dado como certeiro.

O filme está bem fiel ao que encontramos nas linhas do livro. Além disto, temos algo a mais na película: a presença de Sarah Michelle Gellar - a eterna Buffy, a caça-vampiros - que neste filme dá uma aula de atuação, com cenas muito marcantes. Todo o filme é retrato como se fosse o ápice, com cenas muito bem trabalhadas e que merecem muita comemoração por parte dos envolvidos. A trilha sonora está impecável e condiz perfeitamente com o clima do filme. O time inteiro trabalha bem e o resultado não poderia ser melhor.

Verônika Decide Morrer é um ótimo exercício de reflexão em torno da questão sobre qual o valor e qual é o nosso papel diante da vida, sendo que o grande presente do universo é que ele está disponível para nós e o grande problema é que procuramos tanto que esquecemos que tudo está diante de nossa face. Belíssimo drama que não deveria ser negado por quem gosta de um bom cinema.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Gamer



Este injustiçado filme tem em sua espetacular trama diversos ingredientes que fornecem bons frutos para análises dentro do tema mais discutido por mim dentro deste blog: hiper-realismo. Antes de iniciarmos, porém, eu não consigo entender por que o público em geral não acolheu tão bem este filme como outros do gênero, afinal temos aqui, ao meu ver, mais um clássico de ficção-científica. Se este filme não segue uma linha tênue entre imaginário e real, como Matrix, Minority Report, Equilibrium e Vanilla Sky deve-se ao fato de uma grande homenagem à filmografia oitentista do gênero, tal como Blade Runner e O Vingador do Futuro. Trata-se de mais uma história num cenário distópico, porém aqui o pano de fundo se assemelha muito ao nosso - envolvido por uma série de dispositivos tecnológicos que nos acompanham a cada passo.

O desenvolver da história é simples, porém a sua plataforma é sensacional: estamos há apenas alguns anos no futuro e duas novas febres do momento praticamente tomam conta da humanidade: a rede social chamada Society (uma clara referência ao Second Life) e o jogo online multiplayer Slayers (uma referência à jogos como o Counter Strike). Embora há cerca de 50 anos isto já seria algo impensável, em nossa atual sociedade não temos nenhuma novidade até aí. Porém no filme é inserido um elemento assustador: um nerd chamado Ken Castle (interpretado pelo especialista em personagens excêntricos Michael C. Hall - vulgo Dexter e Six Feet Under) inventa uma espécie de nanochip que controla a mente das pessoas. Isto lhe deixa bilionário da noite para o dia, virando uma verdadeira celebridade em seu tempo. Com isto, pessoas reais são inseridas no tabuleiro e controladas mentalmente por seus jogadores (que podem até mesmo sentir o que seus "avatares" sentem no jogo).

Os jogadores controlam seres humanos de verdade dentro de uma comunidade "virtual/real", abandonando de vez a vida fora dali. No centro temos Logan Lerman, um jogador sensação de 17 anos que controla Kable (interpretado por Gerard Buttler), o personagem que está há mais tempo livre dentro do game Slayers. Mais algumas partidas vivos e Kable estará livre para voltar ao mundo "real", porém o Ken Castle, o nerd por trás de tudo isto, tem outros planos e não pretende facilitar para Kable.

Muita tecnologia online, contratos multimilionários, marketing e consumo desenfreado, além da migração da vida real para a vida virtual são os grandes atrativos para que eu considere Gamer um dos clássicos do cinema atual. Se alguns podem pensar que o filme foi feito para outros nerds, eu afirmo que o seu caracter distópico e niilista está para os olhos que observam mensagens diversas por entre as linhas principais.

Do ponto de vista analítico, podemos observar uma relação confusa e intíma entre o sujeito (aquele que conhece) e objeto (aquele que é conhecido). Se antes tinhámos o sujeito era caracterizado por matéria viva e o objeto por matéria morta, nesta realidade a coisa é um pouco diferente. Como disse Baudrillard uma vez, pela primeira vez temos o objeto modelando o comportamento do sujeito, visto as extremas relações de hiperconsumo como modo de satisfazer uma necessidade básica.

Se outrora necessidades como sede e fome são essenciais para satisfazer requisitos para o bom funcionamento do corpo, temos no consumo a necessidade de satisfazer um desejo proveniente da psiquê. Hoje estar alinhado as ultimas tecnologias, vide revolução de dispositivos móveis como o iPhone e a invasão de Google Androids, é estar alinhado com o meio social. A sociedade pede por isto. Com a internacionalização e globalização proporcionada pela internet, fazer parte de qualquer modismo ou adentrar-se em novas ferramentas online se torna pré-requisito para fazermos parte do meio.

O alerta do filme Gamer é demonstrar até onde iremos chegar para satisfazer esta necessidade que até então nem existia. Até onde a indústria do entretenimento pretende chegar para nos tirar de uma vida e nos inserir em uma outra. De fato, o que acontece é que saímos de um mundo injusto, amoral e cruel para sermos incluidos num mundo mágico, encantado, onde pude ser feito sem que ninguém se machuque (muito embora seja um universo fictício e surreal). Se observarmos que cada ser procura aquilo que é melhor para si, iremos até chegar num argumento que justifica a prática, porém é um argumento egoísta e mesquinho.

Visto que os homens não escolhem os seus locais de nascimento, a vida não se trata de liberdade, mas sim de escolhas limitadas que somos obrigados a fazer dependendo da direção a qual nos encontramos. Há famílias que adquirem mansões milionárias, outros que adquirem barracos em centenas de prestações. Porém o desejo dos ser é ilimitado e ambas as classes podem sonhar a mesma coisa. Onde reside a justiça aqui?

Enfim, precisamos buscar uma solução deste mundo ferido, porém real, no próprio mundo ferido. Se criarmos multi-universos virtuais, estaremos multiplicando o hiper-real em níveis onde jamais saberemos o que existe por trás do virtual. Em Gamer, temos os Humanz, que são hackers dispostos a mostrar para as pessoas condicionadas neste mundo de faz-de-conta que há vida por trás das telas. Pior, que há interesses comerciais em manter os seres ocupados com entretenimento, uma vez que os males do mundo não são descobertos.

É por estes e outros motivos que Gamer ingressa na lista dos meus favoritos. Excelente filme, excelente mensagem. Precisamos de mais obras que alertem as pessoas quanto este tipo de prática, que esta aí para quem quiser ver. Devemos avançar sim (sempre), porém rumo a um avanço tecnológico equilibrado e consciente. Precisamos nos manter no controle para não sermos controlados.