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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Atitude Crítica e Investigativa


No universo hiper-real a impossibilidade de conhecer a essência do mundo em si gera um fenômeno de aprendizado condicionado. Logo, todo o conhecimento adquirido pode ser questionado, visto que em nenhum horizonte do saber possuímos barreiras de concreto. Há até mesmo quem afirme que todo o conhecimento é mutável, ou seja, todas as verdades definitivas são apenas temporárias. Adotar um postura cética em relação as coisas pode ajudar a entender certos acontecimentos. Questionar, na contramão de apenas aceitar as coisas como são, é um exercício saudável que, ainda que não traga a tão almejada felicidade - objetivo final de vida da maioria dos seres - lhe traz equilíbrio, sabedoria, consistência e consciência.

O que acontece quando passamos a terceirizar nossas dúvidas? Quando transferimos os nossos temores para outras pessoas e prontamente estamos dispostos a aceitar os seus esclarecimentos? Inicia-se um efeito de contemplação onde o questionado detém o poder em relação ao questionador no momento em que o mesmo passa a ser convincente independente da veracidade de seu discurso (lembre-se que a verdade é simulada e/ou condicionada). Para isto o questionado pode valer-se de técnicas de retórica para uso pessoal ou mesmo assumir uma identidade simulada, onde passa a acreditar que seu discurso realmente é verdadeiro, de tal modo que ele mesmo se convence de si.

Quando o discurso sobressai a um certo montante surgem as doutrinas: as pessoas aceitam a condição de fé imposta pelo formulador de respostas e passam a aceitar esta verdade, algumas vezes temporariamente, outras vezes isto perpetua por toda a vida. Certas verdades criadas pelo estado hiper-real atravessam gerações e fincam as garras no comodismo gerado pela aceitação das comunidades. Ser cômodo é não se esforçar para sair de um estado, dada uma ou mais condições. Há uma sentença que diz "felizes são os ignorantes", que pode ser verdadeira mediante definição de felicidade como passar ileso pela vida sem aperceber-se dos perigos que nos rondam enquanto pessoas e sem fazer nada para mudar o universo tal como ele é.

Assim é possível pensar por que optamos por tomar uma postura cômoda ao invés de uma postura ativa. Pensar cansa. Pensar dói. Uma vez que decidimos por tomar a via cruxis da dúvida, deixamos a ignorância de lado e nunca mais poderemos ser felizes - entendendo a felicidade como definida no parágrafo anterior. Porém podemos redefinir a felicidade, visto que um significante poderá ter diversos significados distintos mediante interpretação e experiência - aí sim podemos ser felizes. Não aquela felicidade dos ignorantes, mas a felicidade de quem não quer deixar-se ser enganado.

Pouco importa se o fruto disto for verdadeiro ou falso, visto que de qualquer maneira não há como afirmarmos nada. O que importante é não se entregar as conclusões sem conhecer os fatos e pormenores. Investigue, deduza, repare e faça um juízo mais crítico. Conclua por si só. Este exercício ajudará a expandir um pouco mais suas dúvidas e diminuir as suas crenças e convicções. Talvez percamos algumas horas de sono, entretanto conheceremos melhor o solo a qual estamos pisando.

[Via Universo Hiper-Real]

terça-feira, 1 de junho de 2010

Universo Hiper-Real


Há muito tempo desenvolvo neste blog diversos tópicos relacionados a temática hiper-real. Quem acompanha os meus escritos sabe exatamente do que se trata, porém podemos resumir da seguinte maneira: o hiper-real é um aperfeiçoamento de real, ou seja, uma realidade que está para além de si mesma. Por exemplo, uma fotografia retocada por computador publicada em alguma revista.

A perfeição da fotografia vai para além da perfeição da realidade. Jamais conseguiríamos chegar no mesmo resultado se não houvesse maquiagem ou computador.

A consequência é que perseguimos esta realidade que não existe, mesmo que também não seja falsa. Temos problemas para discenir a ilusão do real.

Esta confusão hiper-real faz parte de nossa era, da nossa sociedade e está presente em cada um de nós. Logo, perdemos muito de nossa identidade e de nossa natureza. Vivemos cada vez mais num universo de aparências ilusórias, em parte como rota de fuga deste inferno que é viver. Andamos sinuosamente numa rota hiper-real e fingimos que não é conosco. Logo, deixa de ser um fingimento e vira um estilo de viver. Esquecemos que isto é algo criado, uma ilusão. Incoporamos a ideia e acreditamos nela.

Muito já falamos e muito temos para falar acerca deste tema, sob a ótica da filosofia, da sociologia, da ética, da economia, da literatura e mesmo do cinema.

Por tanto decidi criar um outro blog apenas para receber este assunto. Seu nome não poderia ser outro, senão Universo Hiper-Real. Espero que vocês gostem e aguardo os seus comentários por lá.

Aos poucos migrarei todo o conteúdo em torno da temática que escrevi neste blog para o Universo Hiper-Real, que eventualmente poderá receber textos de terceiros (se quiser escrever para o blog é só entrar em contato comigo).

Na coluna direita deste blog eu criei uma seção chamada Universo Hiper-Real que mostra os últimos 5 assuntos publicados.

O espaço aqui continua grandioso. Continuarei resenhando livros, escrevendo sobre cinema, religião, teatro e filosofia.

A partir de hoje, também avisarei sobre os novos posts (tanto deste quando do outro blog) via o meu twitter @evenancio.

Conto com a visita de vocês! Se gostarem, por favor divulguem a iniciativa para que ela não caia no esquecimento!

sábado, 10 de abril de 2010

O Arquiteto Divino



Há uma série de pessoas que são descrentes em relação ao criacionismo, mas acreditam que uma força metafísica deu início ao universo como o conhecemos hoje. Estas pessoas negam os textos religiosos para explicar o surgimento da vida, mas tão pouco acreditam que o nosso surgimento é meramente graças a um acidente cósmico.

A ideia é que exista ou existiu uma espécie de força maior que criou a matéria, seja por casualidade ou proposital, e dai por diante as coisas foram acontecendo conforme o próprio andamento do universo.

Embora seja uma teoria válida, utilizada por grandes nomes da filosofia, como Aristóteles ao afirmar o Primeiro Motor - que diferente de todas as outras coisas é causa de si mesmo, pensamento de pensamento, aquele que iniciou o tempo e o movimento, o chamado Ato Puro e Imóvel -, ela possui muitas implicações. O que abre um leque de reflexões imenso.

Para acreditarmos na teoria de um primeiro movimento que origina todos os outros precisaríamos adotar o único caminho que parece razoável: este primeiro movimento precisaria ser consciente de tal modo que permitisse dar origem a si mesmo. Se ele tem consciência, também precisa ter vontade própria para mover o "estado de vazio total" para o "estado de alguma coisa".

Além disto, esta força originadora precisaria migrar de um elemento transcendente para ser causa de um elemento material. Independente de como isto supostamente poderia ocorrer, o fato é que o elemento primário precisaria de vontade para ser causa de um elemento secundário. E a vontade implica em uma consciência ativa.

Se entendermos que o primeiro movimento ocorreu de forma consciente, algo pretendia mudar/criar alguma coisa. Ou seja, era uma consciência inteligente, assim podemos chamá-la de Arquiteto Divino, pois se trata de uma força que inicia o tempo de forma intencionada de que algo poderia acontecer dado o primeiro movimento.

Mas o papel do arquiteto não é modelar as coisas? Sim. Pressupondo que as coisas aconteceram como nesta reflexão, entendo que com o primeiro movimento inicia-se uma série de outros movimentos com causa em algum outro, que no espaço se encontram e dão origem e que passam a possibilitar a existência de novos fenômenos. Só o tempo sozinho não consegue se chocar consigo mesmo, então há de existir uma partícula física elemental que possam dar origem a outras coisas no espaço. Para existir esta partícula, é necessário que esta consciência primeira de alguma forma crie isto no tempo ou simultaneamente com o movimento primeiro. Novamente temos evidências de alguma inteligência com algum propósito (desde que os pressupostos colocados sejam aceitos).

Com estas partículas no tempo, temos possibilidades de acidentes cósmicos que podem originar uma série de efeitos que possuem uma causas particulares nos diferentes cenários. Deste modo temos algo desordenado e aleatório acontecendo de forma linear no infinito espaço e tempo. Há teorias que dizem que desta forma a vida poderia surgir, uma vez que se as combinações de causalidade são infinitas, em algum momento a complexa combinação que possibilita a vida teria que acontecer.

Porém nesta linha de pronto enfrento dois problemas para resolver:

1) Se a partir de um primeiro movimento considerarmos que o tempo e o espaço são infinitos então tudo já aconteceu, acontece e acontecerá no tempo por infinitas vezes. Isto implica numa teoria de absurdo desproposital, uma vez que a eterna repetição traria o fim e o nada, sendo que a partir deste nada o inicio aconteceria novamente a partir de um movimento primeiro - que já não pode ser primeiro por que ele já ocorreu infinitas vezes no passado e ocorrerão infinitas vezes no futuro. O próprio enunciado já apresenta um problema de referência circular da qual não há saída aparente. A solução seria substituir o conceito de movimento primeiro para um movimento orquestrado por uma inteligência maior que atua num modelo criacionista de tentativa e erro. Ainda assim haveria o problema do infinito para resolver, visto que em algum momento no tempo a criação atingiria a perfeição, mas mesmo assim fadada a um fim para dar lugar ao nada novamente. Por isto reitero que partir por este caminho é um tanto quanto dificultoso, visto que temos problemas insolúveis pela frente.

2) O mais provável é que em meio ao caos desordenado antes mesmo que houvesse um evento que possibilitasse a vida ocorreria uma lógica de desvio que aniquilaria infinitamente qualquer chance de estarmos vivos. Se numa via precisamos de uma combinação extremamente grandiosa, complexa e coincidente para gerar o universo como o conhecemos, na outra via nem precisamos de algo tão complexo assim para que a possibilidade de vida nunca pudesse acontecer. Antes que fosse processada a fórmula que dá origem a vida, seria processada uma fórmula que jamais permitiria que algo assim acontecesse no infinito, pois jamais conseguiria chegar lá. Uma das maneiras de resolver este problema seria pensar em um tempo que não fosse linear, pois o caos voltaria para trás e caminharia para frente até que o universo fosse ajustado como o conhecemos hoje. Mas isto também implica numa inteligência supranatural que permita decisões de quando o caos deve ir ou vir.

Como podemos acompanhar até agora através deste caminho, o caos acontece de uma maneira desordenada que não possibilita um acidente que possa causar algo que não seja algo proveniente do próprio caos. Isto implica em dizer que o caos gera ainda mais caos.

Se aceitarmos estas premissas, então podemos afirmar a existência de um arquiteto divino, pois além de impulsionar um movimento primeiro físico de um modo não físico, esta força também necessita ordenar o caos. Isto indica que temos fora do nível material uma consciência inteligente que dá ordem ao universo caótico que impulsionado pela mesma força que originou o início das coisas. Parece-me coerente e razoável pensar que a força de início e a força de ordenação representa uma única entidade justamente por que entendo que aqui há uma consciência primeira antes de qualquer coisa.

Neste caso, não temos uma dualidade, mas sim a primeira coisa que antecede a todas as outras e que, de fato, parece ter inteligência e vontade para iniciar e ordenar os eventos que levam a formação do universo. Então o caos mencionado anteriormente serve como matéria prima para a formação da natureza material, onde a combinação consciente permite a modelagem de sistemas complexos e arquiteturas que possibilitam a existência e habitação dos seres.

Portanto afirmar a crença que algo realmente teve ter iniciado o mundo implica que este algo teve consciência, inteligência e força para dar o primeiro movimento. Isto nos leva a concluir que neste caso esta tarefa só pode ser atribuída a uma entidade transcendente e superiora, imaterial - ainda que com propriedades de criar matéria. Esta entidade, este arquiteto divino, pode ser perfeitamente chamado de Deus, como é chamado por aqueles que creem nos textos sacros religiosos.

Só que afirmar a existência de um Deus nos traz mais uma série de outras reflexões e implicações como: qual é o propósito de sua criação? Este ser ainda está vivo? Qual é o seu real papel? Diante desta perspectiva, o que fazemos aqui?

Enfim, temos uma série de questões que não serão tratadas neste artigo por não fazer parte do escopo. A ideia é simplesmente discorrer sobre como a crença em qualquer coisa está intrinsecamente ligada a algo metafísico, como se acreditar fosse uma propriedade divina que carregamos em nosso interior. Ou seja, se você acredita que uma força exterior começou o mundo de alguma maneira você deve acreditar que um ser superior e inteligente começou tudo. Entretanto, como sempre afirmo, qualquer crença traz uma série de problemas existenciais que exigem a mais árdua reflexão. Até mesmo a crença de que tudo isto é uma mentira, pois em vias de possibilidade o infinito segue a nossa frente. Tudo pode ser verdadeiro, tudo pode ser falso. Inclusive uma outra teoria diz que todas as coisas sempre estiveram aí, no infinito, ou seja, nada foi criado, nem de uma maneira, nem de outra, visto que somente os seres vivos possuem corpos materiais que vivem e morrem, num ciclo constante. Mas isto também é assunto para outro artigo.

Livro: Deus Não Está Morto

Em Janeiro deste ano, nas prateleiras da Livraria Cultura, um livro me chamou demasiadamente a atenção. Seu título: Deus Não Está Morto - Evidências Científicas da Existência Divina de Amit Goswami. Peguei o livro, dei uma folheada e vi que continha diversos assuntos do outro mundo, além de subtítulos que proporcionavam a execução de uma experiência que comprovasse o assunto redigido.

Eu, que sou agnóstico confesso, senti uma forte curiosidade de conferir o texto e acabei por adquirir o livro. Embora não seja longo, terminei de lê-lo não faz 15 dias e apresento aqui as minhas impressões. De pronto, posso lhes afirmar que não mudei a minha opinião e que continuo tão agnóstico como antes pelo mesmo motivo: falta de convencimento.

Neste livro de evidências cientificas da existência divina, a física quântica é a ciência utilizada para provar Deus como entidade viva e atuante. Se você entende alguma coisa desta nova ciência - ou pretende entender - sabe que a física quântica, até o presente momento, tem se mostrado a prova de erros. Ninguém consegue contestar os resultados obtidos através desta física para os problemas que outras ciências não conseguiram resolver. Porém o que não é consenso é a interpretação desta nova física (ver problema da medição e sua relação com a não-localidade e causalidade).

Amit Goswami já tinha aparecido anteriormente no interessante filme-documentário intitulado "Quem Somos Nós?", que introduzia público à física quântica (conhecida também como mecânica quântica), a chamada nova ciência que está aí para resolver problemas até então insolúveis, visto que atua nos níveis subatômicos e microscópicos. A física quântica não trabalha o objeto concreto, mas com as probabilidades (possibilidades) que podem se concretizar. Uma das muitas interpretações diz que a o colapso é causado através de uma função de onda sob a consciência de um observador.

Porém esta é somente uma teoria especulativa que tenta resolver o paradoxo chamado Amigo de Wigner, proposto pelo físico hungáro, nobel em 1963, Eugene Paul Wigner, que abre uma discussão para o problema de relacionamento entre mente e corpo através da interpretação de Copenhague da física quântica.

Complicado de entender até agora? Pois é, o livro discorre por uma série de teorias sob uma linguagem de domínio difícil de compreender para quem não é da área. Mesmo o autor tomando cuidado para tentar explicar conceitos mais básicos, senti uma dificuldade enorme para acompanhar o seu raciocínio, mesmo tendo parado para pesquisar alguns termos e enunciados por diversas vezes. Em certos momentos passei até mesmo a acreditar que o autor não estava tentando provar alguma coisa, mas sim persuadir os seus leitores do que aquilo que ele estava apresentando era uma prova irrefutável da hipótese de Deus.

Porém como não sou físico, não posso simplesmente dizer que o conteúdo é mentiroso, tão pouco posso também afirmar que ali temos uma verdade. Como agnóstico sempre afirmei que a minha crença é a dúvida, posso dizer que sou mais agnóstico do que antes, pois ganhei mais pontos de interrogação do que tinha antes de iniciar a leitura.

Além disso, o autor se baseia numa teoria que não é a única interpretação possível para aquilo que é apresentado como solução final. No fim, para aceitar as evidências cientificas propostas também precisaremos valer-se da fé. Se você acreditar nos pressupostos e nos postulados do autor, provavelmente se convencerá do que aquilo que ele diz se trata de uma verdade absoluta, afinal o caminho que Amit Goswami é válido e se apresenta como mais um caminho possível para se seguir.

Deus Não Está Morto - Evidências Científicas da Existência Divina
Amit Goswami
Editora Aleph
1ª edição - 2008 - 306 páginas

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sobre Interpretações - A Verdade Não Há


Recentemente tive o imenso prazer em descobrir um fórum da banda inglesa Radiohead cujo criador do tópico enaltecia o meu trabalho de análise realizado com o álbum OK Computer. Claro que eu fiquei muito contente com a simples menção deste estudo, porém a sequência da discussão entre outros membros do fórum me levou a uma reflexão.

Para resumir, alguns membros disseram sabiamente que em minhas palavras encontrava-se uma visão muito particular da obra dos ingleses, que não necessariamente representava a visão da banda que criou o álbum. Iniciou-se, inclusive, uma breve discussão onde outras obras eram interpretadas para muito além do seu significado original, o que é válido e produtivo.

O que não é verdade é afirmar que a opinião do criador da obra seja mais verdadeira do que as outras opiniões. Demonstrarei o por que.

Em primeiro lugar temos um grave problema com a ausência de uma referência segura, o que firma a existência de um universo hiper-real. Neste caso não temos como estabelecer um elo real entre as letras e canções, que são subjetivas, e a opinião posterior do compositor, visto que elas se dão em momentos diferentes e estão condicionadas a um provável jogo de interesses, seja por motivos estratégicos de marketing, seja pela diferença entre estados de espíritos entre os dois momentos.

O compositor, ao que sabemos, pode simular uma opinião falsa a respeito de seu próprio sentimento. Se o que nos resta são somente palavras, bem sabemos que não podemos simplesmente confiar nelas. Isto gera a possibilidade de criarmos múltiplos significados num universo de hiper-realidade.

Outras vezes, nem o próprio autor compreende o que fez. Então o seu entendimento sobre sua própria obra surge apenas como uma hipótese. Por mais absurdo que pareça - sendo que no modo de pensar existencialista a própria vida consiste em um grande absurdo - sabemos que muitas vezes pensamos em coisas desconexas e sem um significado primário, sendo que nós mesmos ficamos a pensar no quê estamos querendo dizer.

Clarice Lispector, nossa diva existencialista, mencionou numa entrevista que pode ser vista neste blog, que um dos seus romances lhe causava estranheza até então, pois por mais que ela tentasse, ela não o compreendia. E o que dizer das obras de Franz Kafka? Se formos pegar seu maior clássico ("A Metamorfose") e fizermos uma leitura direta não poderemos sequer entender por que este livro é visto como um dos maiores de todos os tempos. Para isto será preciso analisá-lo sob uma determinada perspectiva.

Não há uma verdade segura a qual podemos nos agarrar, então o exercício de trilhar seu próprio caminho na condução do significado é válido, pois isto poderá trazer uma nova luz sobre problemas que continuam sem solução.

Uma outra obra cujo estudo foi iniciado por mim foi o filme Donnie Darko, de Richard Kelly. Uma vez o próprio criador foi esclarecer o que ele pretendia dizer em certas cenas e houve uma rejeição por grande parte da comunidade, que disse na época que a opinião de Richard Kelly é somente mais uma que vem se juntar a centenas de outras já existentes.

Temos ainda a trilogia Matrix, cuja ideias principais foram inspiradas pelo filósofo francês Jean Baudrillard, que disse numa entrevista que os idealizadores "não entenderam nada do que eu (Baudrillard) disse". Mas como o filósofo pode ter tanta segurança em sua afirmação. Talvez os realizadores de Matrix tenham entendido mais do que ele próprio ao escrever os seus livros.

O ser humano é tão complexo que muitas vezes ele não se resolve por si mesmo. Temos aí as ciências humanas que há centenas de anos tenta desvendar o homem. Mesmo o individuo muitas vezes busca o auxílio de alguma coisa que possa lhe dizer quem ele é ou o que ele está fazendo.

Isto abre margem para infinitas interpretações, cada qual a sua maneira, sendo que daí não surge uma verdade ou mentira, mas tão somente uma nova possibilidade. O exercício de validar ou invalidar uma interpretação não poderá lhe levar a lugar algum, pois a partir do momento que alguém pensa em algo diferente foi por que objeto analisado permitiu a possibilidade de um novo olhar.

Pode ser que a opinião de seu criador seja a única verdadeira, mas como não temos como garantir, ela se torna apenas mais uma. Para segui-la precisaremos utilizar o recurso da fé, porém pela lógica não há o que fazer e isto nada mais é do que uma característica do universo hiper-real.

Na base da filosofia que estuda os fenômenos - a fenomenologia - encontramos a hipótese onde a coisa só passa a existir a partir do momento que alguém a percebe. Neste caso como o objeto só passa a existir a partir da percepção de um sujeito, quando este objeto pode ser pensado por múltiplos sujeitos o que acontece? Passa a existir um objeto com significado diferente para cada um dos sujeitos que o percebeu!

Um exemplo típico para ilustrar melhor o que quero dizer: Tomemos uma celebridade feminina. Para alguns ela é uma linda mulher, para outros ela surge como insuportável, para sua família, porém, se trata daquela pequenina que cresceu com todos eles, para ela mesma ela se vê como uma pessoa normal. Temos aí diversos significados para o mesmo objeto (a celebridade).

Interpretar é ampliar as possibilidades, porém ciente de que a verdade já ficou oculta há muito tempo no universo hiper-real.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Tudo é Possível, Nada é Certo


No universo hiper-real só conhecemos as camadas superficiais das coisas como elas aparecem para nós. Por baixo do pano o que nos resta são probabilidades, misticismo, possibilidades e ilusões. Como já disse Sócrates na antiguidade, aqueles que sabem alguma coisa são aqueles que admitem que nada sabem. A chave do enigma é: tudo é possível, nada é certo. No hiper-real temos infinitas possibilidades de interpretações para infinitas realidades coexistentes, tudo é uma questão de percepção. A dificuldade está justamente em encontrar uma "realidade real", visto que o sistema gerador do hiper-real sobrescreve qualquer possibilidade de se distinguir o real do imaginário, o verdadeiro do falso. Isto não significa que não há algo que seja verdadeiramente real, mas sim que nós não temos como distinguí-lo, uma vez que não temos referêncial para poder sustentar uma percepção que seja única e exata.

Como não há nada de certo e tudo é possível, aquilo que é firmado como uma certeza absoluta podemos categorizar como uma certeza provisória. Assim sendo, a afirmativa equivale a dizer que não há certeza única ou certeza final, mas apenas certezas relativas, condicionadas, intuitivas e pressupostas. A certeza é um termo que nos remete a algo tão fraco que mesmo Descartes, em pleno Modernismo, tinha dúvidas se realmente existia e elaborou um plano complexo, o chamado Discurso do Método, apenas para chegar a conclusão que se pensava, ele existia (cogito ergo sum), por que por mais que ele duvidasse disto, a própria dúvida evidenciava a sua existência.

O interessante, segundo Descartes, é que a certeza intuitiva de que existimos não traz a mesma segurança que a dúvida no mesmo contexto. Com isto Descartes inaugura um pensamento onde nem mesmo aquilo que vem dos sentidos pode ser dado como certo (os empiristas que o digam). Temos um exercício simples, porém muito bom para ilustrar a situação: dê um pulo sem sair do lugar. Através de experiência empírica e sabendo que a Terra gira em torno do sol, espera-se que a força da gravidade nos mova. Ou seja, mesmo dando um salto em linha reta, deveríamos voltar a uma posição diferente da original. Porém não é isto que acontece. Empiricamente, a Terra não se move em torno do sol, e sim o contrário. Isto prova que não devemos acreditar nem mesmo em nossos instintos, visto que eles comumente nos enganam.

Um bom exemplo de certeza condicionada e relativa pode ser encontrada em "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto. Quando o autor inverte a ordem do que é costumeiro ("Vida e Morte" por "Morte e Vida") ele brinca com as palavras e redefine o significado das coisas. Na vida tão difícil de Severino, que parte do sertão pernambucano para o litoral, a sua certeza é que a morte não deve ser pior do que a vida e a vida não é melhor do que a morte. Ou seja, a evidência do seu existir é a certeza que ele está morto, e o não-existir é a certeza de que pode haver vida - ao menos algo bom - proveniente de sua morte. Neste caso há certeza é condicionada a experiência de cada um, assim como é condicionada a definição das palavras e conceitos que nos permitem a conclusão de algo.

A história também nos mostra que certezas antigas são substituidas por novas certezas a cada ano. Uma vez que isto acontece, a questão é: quando será que teremos certezas sólidas? Jamais saberemos. Devido ao hiper-real não há como saber se algumas das certezas que temos hoje são permanentes ou provisórias. Os dois tipos se mesclam como se fossem gêmeos idênticos. Neste caso, o melhor é ficar com a dúvida.

Sempre haverá espaço para duvidar. Ser niilista também é um modo de progredir - e talvez seja o único: uma vez que conseguirmos destruir todas as aparências que mascaram a realidade, ficaremos desnudos e poderemos saber o que há por trás das camadas ilusórias que regem a vida. Vejam que eu disse "poderemos", pois aqui reside somente, e tão somente, a possibilidade de conhecermos o real com distinção entre as demais "realidades". Não há garantias por trás deste raciocínio, porém não vejo outro que seja mais eficiente: para saber o que há por baixo da terra, precisamos derrubar os prédios que nos impedem de chegar até lá.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Os Irmãos Karamázov



Como analisar ou interpretar aquilo que Freud chamou de "a maior obra da história" escrito pelo autor cujo Nietzche afirmou ser "o único psicólogo com que tenho algo a aprender" sendo justo e coerente com a grandiosidade do escrito sem ser demasiadamente excessivo em minhas palavras? Uma vez um professor do curso de Filosofia disse que é impossível analisar totalmente uma obra de expressão sem escrever um conteúdo maior do objeto que será analisado.

Este é o caso de "Os Irmãos Karamázov", do russo Fiódor Dostoiéski, cuja interpretação e análise total passariam facilmente das 1000 páginas que compõem o romance. Infelizmente esta missão não é minha justamente por não ser um estudioso da obra do escritor russo, sou apenas um grande admirador e em minha posição de apreciação fico fascinado a cada página que leio dos seus livros. Portanto irei apenas pincelar alguns pontos de destaque deste que, ao lado de "Guerra e Paz" de Tolstói, é o maior romance escrito em língua russa.

Todos os outros romances de Dostoiévski trazem diversos elementos de sua experiência pessoal, porém é praticamente consenso que "Os Irmãos Karamázov" é um romance autobiográfico em muitos pontos, a começar pelo desenvolvimento do pano de fundo em uma Rússia problemática, que demonstra o descontentamento do escritor ao salientar consequências morais de uma sociedade capitalista, cuja dignidade social é posta de lado e cada um preserva a si mesmo, dentro de suas possibilidades, um status de relevância perante a sociedade - traço este observado também em outros romances do autor. Posteriormente temos um paralelo entre as personagens e pessoas que Dostoiéski conheceu durante a vida, como é o caso do irmão mais velho, Dmítri Fiodórovitch Karamazov, cujo autor conheceu caso semelhante durante a sua estadia na prisão.

De fato, em "Os Irmãos Karamázov" Dostoiévski insere uma leva de situações e personagens reais e lhes imergem em seu próprio universo fictício e existencial, o que pode ser visto como uma realidade paralela - quando não mesmo realidade possível - que o autor oferece para os seus conhecidos. Outros vislumbram este como um romance síntese (o ultimo escrito pelo Russo) que repassa praticamente toda a sua obra, o que pode ser considerado verdadeiro, visto que diversas linhas de pensamento podem ser encontradas em outros dos seus livros.

A trama central gira em torno de Fiódor Karamázov, uma pessoa mesquinha e egoísta, dada a libertinagem, cuja vida é inteiramente voltada para si mesmo, num egocentrismo exacerbado no universo de Dostoiéski. Pai de três filhos e de um suposto bastardo, esta personagem enfrenta diversos problemas de relacionamento e aqui temos uma família extremamente desestruturada e desunida, cujo ponto de equilíbrio - que deveria ser o pai - se desmorona em si mesmo. Seus filhos nutrem sentimentos negativos quanto ao pai, há diversas batalhas entre eles e em determinado ponto o patriarca é assassinado, sendo que a culpa recai sobre Dmitri Karamázov, o mais velhos dos irmãos, devido ao seu comportamento explosivo e seu ódio declarado publicamente pelo pai.

Desde a acusação de parricídio nós sabemos que Dmitri é inocente, porém todos os fatos evidenciam para que ele seja apontado como o principal suspeito, de tal maneira que ele mesmo afirma, em julgamento, que se condenaria se estivesse do outro lado do tribunal: "Quem poderia ter cometido o assassinato, senão eu?". Então basicamente o livro se divide em três partes: vida dos Karamázov, assassinato de Fiódor e julgamento de Dmitri.

Porém o livro traz infinitas reflexões acerca de diversos temas diferentes, como a religiosidade, o sistema penal, a persuasão e a moral, sendo que os personagens secundários avivam ainda mais a história. Como já dito, sem o pano de fundo e sem os coadjuvantes, Dostoiévski não ganharia tanta projeção na literatura, pois são nos pormenores e nas tramas paralelas que temos uma leitura mais aprofundada sobre as ideias do escritor russo.

Para começar, temos os três irmãos Karamázov: Dmitri é o mais velho - libertino como o pai, dado a gastar demais, brigão, endividado, apresentado como um brutamonte que age compulsivamente, até mesmo um pouco abobado e atrapalhado, porém digno e sincero, dotado de boa índole e um tanto quanto confuso quanto a sua religiosidade. Um híbrido entre o bem e mal, pois aqui temos uma boa pessoa cometendo atos negativos perante os demais.

Temos Ivan Karamázov, o irmão do meio, pessoa extremamente culta, estudiosa, irônica e séria. A contrapartida de Ivan na realidade é o próprio Dostoiéski, a qual encontramos uma grande identificação, principalmente no conflito religioso que perpetuou sua mente durante muitos anos. Ivan é descrente na divindade e criador de um artigo, chamado "O Grande Inquisidor", que por si mesmo já poderia ser objeto de um estudo profundo (a qual não é o caso deste artigo). Porém a sua descrença é colocada em xeque diversas vezes e ele mesmo enfrenta uma grande angústia ao confrontar suas próprias ideias. Um de seus pensamentos foi responsável pelo slogan virtual de "Os Irmãos Karamázov": "Se Deus não existe, então tudo é permitido" (falaremos um pouco sobre isto mais abaixo). Há muitos que consideram este o personagem mais importante do livro. Não sei precisar se realmente ele seja, porém garanto que é aquele que gera mais conteúdo de reflexão, tornando assim o meu predileto.

Por fim, temos Aliéksiei Karamázov, o irmão caçula. Este é inocente, justo ao extremo, crente em demasia na doutrina cristã (inclusive iniciado em atividades monásticas, cuja carreira seria seguida se não fosse a ordem de um monge a qual era mentor em sua vida). Aliéksiei é bondoso e ponderado, logo atua sempre como moderador na família Karamázov, demonstrando compaixão por todos os seus membros, inclusive por seu pai - que devido a este amor acaba sempre por elogiar o filho mais novo. Dostoiéski, no princípio do livro, diz que este é o seu personagem predileto, talvez por representar a esperança de um mundo melhor.

O interessante é que cada irmão representa um extremo: o bom, o médio e o ruim. O crente, o agnóstico e o ateu. Isto é munição mais do que o suficiente para Dostoiéski explorar com maestria todas as suas ideias (motivo pela qual o romance termina com 1000 páginas e de certa maneira inacabado, visto que Dostoiéski planejava escrever uma outra parte, ou mesmo contar uma outra história que envolvesse a família novamente).

Ainda temos Smerdiakov, suposto filho não assumido de Fiódor Karamázov, que atua como criado da casa e através de Ivan passa a assumir uma visão niilista das coisas, onde a desconstrução é o grande caminho a ser percorrido. De fato, considera Ivan como o seu grande mestre e posteriormente sabemos que é o próprio quem comete o assassinato de Fiódor Karamázov, inspirado pelas ideias de seu suposto irmão. Aqui temos um grande paralelo com a vida de Dostoiéski: quando jovem, o autor também teve o seu pai assassinado por criados, o que na época desencadeou uma crise de epilepsia tão profunda, que fez com que o russo abandonasse a vida militar para dedicar-se totalmente a vida literária.

Entre as ideias que inspiraram Smerdiakov está no texto de Ivan Karamázov chamado "O Grande Inquisidor" (que no livro é tratado como um capítulo a parte), onde se conclui que se Deus não existe, então tudo é permitido. Basicamente uma vez que Deus e, consequentemente, a imortalidade deixa de existir, então o homem está livre para fazer tudo o que bem entender sem se sentir culpado, mesmo cometendo crimes, visto que muitas vezes o ato acaba por ser a execução mais lógica em determinadas situações. Pela descrença de Smerdiakov num ser divino, ela confessa a Ivan que foi seu artigo que lhe levou a cometer este assassinato. Ivan começa a sentir extremamente culpado por ter escrito tal artigo, a ponto de contrair uma doença febril que lhe leva a delirar de forma progressiva até o final do romance.

Temos aqui uma destruição niilista de valores e morais que posteriormente influenciaria Nietzche em muito dos seus textos. Outra coisa que não pode ser negada é a influência existencialista para os pensadores que surgiram depois, visto que Dostoíeski é visto como um dos fundadores do existencialismo e do expressionismo. As questões do absurdo, do ser arremessado na vida, nas escolhas que somos obrigados a fazer, o fardo pesado do livre arbitrio, são tópicos para serem discutidos para o resto da humanidade.

Ou seja, temos em "Os Irmãos Karamázov" um livro infinito, que não se esgota dentro de si, portanto leitura obrigatória para quem se diz amante da literatura, da filosofia ou da psicologia, pois além de contribuir com uma boa dose em seu intelecto, também lhe ajudará a compreender outros pensadores, devido a inegável influência que Dostoiéski exerceu no pensamento posterior a sua existência.

Os Irmãos Karamázov
Fiódor Dostoiéski
Editora 34
1ª edição - 2008 - 1000 páginas

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Rousseau, Tolstói e o Movimento Libertário



"Remember, remember, the fifth of november"
V


"O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém'"
Jean-Jacques Rosseau


Hoje, em nosso blog, comemoramos o "3° Dia Mundial da Consciência Anarquista". Uma boa descrição sobre o que é o movimento e porque estabelecemos esta data você encontra no post especial da data no ano passado. Neste ano vamos refletir um pouco sobre algumas vertentes que inpiram o movimento libertário e as motivações por trás destas ideias.

Leon Tolstói, escritor russo anarquista, traz em seus textos uma ideia simples: se para fazer o mal os homens conseguem se unir de modo tão eficiente que muitas vezes os males nem são descobertos, por que não utilizar o mesmo modus operandis para promover o bem? Ou seja, se os homens se unem para cometer crimes perfeitos, esquemas complexos de corrupção, máfias e gangues, ataques violentos em massa, bastaria entender e utilizar esta mesma concepção para organizar ações de paz objetivando um bem social maior (o que traria, consequentemente, a vitória sobre a injustiça do existir).

O conceito filosófico da Tabula Rasa, elaborado por John Locke e base de todo o empirismo, diz que os seres são como folhas em branco, ou seja, sem conhecimento de nada. Toda a sua formação se dá com a experiência no mundo. Aqui não há inclinação para o bem ou para o mal, mas apenas o nada absoluto, que converte em algo durante a trajetória experimental durante a vida. Nesta linha temos a possibilidade de uma inspiração coletiva benéfica, uma vez que corrigindo a ética e o meio que leva o homem a cometer atos maléficos ele passaria a ser bom. Se cientificamente há descobertas que invalidam a Tabula Rasa, a influência que o conceito tem em políticas governamentais, educacionais e sociais são inquestionáveis.

Com isto em vista, voltamos a proposta de Tolstói. O escritor russo foi profundamente inspirado por Jean-Jacques Rousseau, empirista francês influenciado pela Tabula Rasa de Locke, que trazia consigo a ideia de uma liberdade natural dada no momento em que viemos ao mundo. Se o homem nasce como uma folha em branco, então naturalmente ele é livre. Seu condicionamento, sua escravidão e seus tormentos tem origem na sociedade mundana. Logo, se o homem torna-se um produto do seu meio, o meio é responsável por modelar o seu comportamento.

Com este pensamento Rosseau conclui que se todos os problemas tem origem no nosso meio social, provavelmente estes problemas não existiam numa época anterior a constituição da sociedade, nos tempos em que ainda éramos selvagens. Neste caso, aqui surge o conceito de bom selvagem. Os direitos civis não devem prevalecer sobre os direitos naturais, que nos são dados por fazermos parte do mundo. O homem precede a sociedade e não o contrário. Enquanto o homem existe sem a sociedade, a sociedade não existe sem o homem.

Porém existe uma instituição invisível, transparente aos olhos, porém não as sensações, que insiste em nos escravizar. Eu chamo este sistema de hiper-real e a entidade por trás de todo o esquema se chama máquina. Basicamente o sistema, que um dia foi controlado pelos homens, hoje tem vida própria e nos controla. Somos escravos de um sistema que virou o jogo e que criou dependências que faz com que sejamos intrinsecamente ligados a ele.

O movimento libertário prega o desligamento deste sistema. Pede a saída deste mundo condicionado. Como Tolstói disse, a ideia é bem simples: ao invés de construirmos uma máquina que gere padrões do mal, por que não construirmos uma que gere padrões do bem? Por que não objetivarmos uma utopia consciente, onde a proximidade com a natureza, com o bom selvagem, se faz necessária para a convivência harmônica entre as espécies?

Cientificamente, há explicações convergentes com a teoria evolucionista, onde uma vez que o ser humano é produto da evolução de milhares de anos, há características comportamentais do animal que éramos no principio até os dias de hoje. Entre estas características temos o instinto de sobrevivência individual sobrepondo ao coletivo, assim como as realizações prioritárias das satisfações e dos prazeres, o que denota uma propriedade egoísta. Há alguns anos, uma pesquisa foi publicada para demonstrar que o ser do sexo masculino era orientado ao sexo forçado, não consensual. Ou seja, sem os ensinamentos sociais que vem desde o berço e sem a recriminação psicológica proveniente deste padrão de moral, o homem, talvez, fosse um animal estuprador nato.

Se os cientistas estiverem corretos e o nosso desvio comportamental estiver mais relacionado a genética do que ao âmbito social, talvez seja necessário criar um ponto de meio termo para ambas as partes. Seria necessário que uma ação de bem coletivo que trouxesse consigo uma ganho individual, o que satisfaria a nossa parte animal e traria benefícios gerais. Talvez a solução fosse a reconstrução da moral, uma legislação de direitos civis que não entrasse em oposição aos direitos naturais, entre os quais a tão almejada liberdade. Enquanto os anarquistas acreditam na possibilidade de isolar uma sociedade libertária das demais - e assim conviverem em pequenas sociedades cuja bandeira da liberdade é o estandarte maior - eu acredito que uma mudança drástica virá somente quando este nosso atual sistema, regido pela máquina, suicidar-se em sua própria ganância.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Sobre Mudanças Climáticas



Este post faz parte da iniciativa Blog Action Day 2009 onde neste ano o tema a ser discorrido é “Mudanças Climáticas” (Alterações Climáticas).

Sobre o tema, basta dizer que por Mudanças Climáticas entendemos como uma preocupação ambiental dada, principalmente, em consequencia da elevação da temperatura em nosso globo terrestre, seja por ações naturais externas ou derivadas da mudança comportamental e sociológica oriundas de um desenvolvimento econômico desigual e, conseqüente, hiperconsumo das massas.

Se por um lado existe um corrente que diz o aquecimento global é inevitável por fazer parte de um processo natural, do outro lado temos quem pense exatamente o contrário. De fato, num mundo regido pelo Deus-Dinheiro, o que mais vemos por aí são cientistas que trabalham para grandes indústrias com o único intuito de corroborar dentro da ciência estas atividades injustas para o desenvolvimento do meio ambiente – e para isto vale até mesmo divulgar relatórios falsos e pesquisas que pouco acrescentam à real dimensão do problema.

Neste contexto observem que há um duelo entre verdades e mentiras que colocam as massas em dúvida sobre o que acreditar. Se as verdades podem ser simuladas e distorcidas, assim como as mentiras possuem teor de verdade, eis que evidenciamos, uma vez mais, o universo hiper-real. O que é inegável, porém, é que convivemos dentro de um sistema onde o aparente dita os caminhos e onde as políticas de consumo são diretrizes máximas de uma sociedade de capital.

Independente da “crença” na origem das mudanças climáticas, que por única e exclusiva manobra da máquina não é um consenso científico, não precisa ser gênio e nem cientista para saber que o nosso estilo de vida é responsável por contribuir – e talvez numa larga proporção – com o aquecimento do planeta. Para isto basta nos valer da energia elétrica.

Toda a eletricidade provém de uma fonte térmica, e isto não necessita de conhecimento técnico nem científico, basta ver que todos os aparelhos que são ligados na tomada produzem calor, assim como os chuveiros elétricos. Além disto, nossos veículos emitem gases que aquecem a superfície do planeta. Tudo isto para desenvolver a economia a qualquer custo e oferecer-nos, a preços exorbitantes, um conforto que não tem razão em ser, a não ser o objetivo final, que é enriquecer monetariamente o sistema.

A pergunta que fica é: a quê custo? Os humanos condicionados pela máquina ignoram os problemas em pró de um universo tecnológico de hiperconsumo e as maravilhas produzidas por ele, sendo que os objetos que antigamente nem pairavam em nossa imaginação já estão disponíveis em nossa Disneylandia virtual. Neste caso, a vida reside neste paraíso ou fora dele?

O cerne básico da resposta é que todos aqueles que vão à qualquer parque de diversão estão lá com o único intuito de se distraírem do cotidiano. Sabem, entretanto, que a vida continua fora daquele espaço – essencialmente sabem que ali é um local de escape e bem-estar que age em contraposição ao sofrimento de viver em um sistema baseado em exploração de recursos (humanos ou naturais).

O que acontece quando a sua vida cotidiana começa a ter a propriedade de se tornar um parque de diversão? O ser humano, obviamente, pede por fazer parte disto. Isto inclui carros confortáveis, celulares hi-techs, televisores imensos, internet móvel e outros “bens” e apetrechos de distração. Nisto tudo a política, sob o discurso já batido de desenvolvimento econômico, ignora totalmente as ações prejudiciais a própria natureza, sendo que os recursos, visto que a terra não é infinita, deverão se esgotar, caso o processo continue nesta mesma batida.

Neste universo hiper-real, não temos certeza se realmente nossas atitudes tão inocentes poderão beneficiar a natureza, portanto não trocamos o nosso conforto pela longevidade do planeta, uma vez que inconscientemente somos egoístas para se preocupar com a existência após a nossa morte.

Esta conscientização é o grande problema a ser resolvido. Se as pessoas começarem a tomar conta que o poder está em suas mãos, elas podem reverter o quadro. Mas só que a luz não é para todos. Como dito na alegoria da caverna de Platão, ainda que alguns vejam a verdade, simplesmente a massa ignora os fatos, diante da alteração de seu cotidiano.

Sabemos que um grande malefício para as mudanças climáticas está na forma como passamos a usar o solo. A natureza não agüenta tanta agressão. Simplesmente criamos centenas de zonas urbanas apenas para melhor acomodar as pessoas, o que, de fato, não seria algo tão ruim, desde que fosse de forma planejada. Antes existia uma zona rural que foi substituída por zona urbana constituída por inúmeras casas, o que já representa uma mudança brusca no uso do solo. Porém hoje temos as casas substituídas por inúmeros prédios, o que traz problemas de estrutura e organização, além de novos problemas socioambientais, como acúmulo de lixos e concentração de veículos.

Minha visão pode ser pessimista, mas justamente por não depositar a minha fé no homem, acredito que as coisas só caminharão para um desfecho positivo após colocarmos tudo à beira do fim. Isto significa que só após a queda voltaremos a nos reerguer da forma correta. Isto provavelmente irá acontecer quando os recursos começarem a se esgotar de modo que as empresas comecem a perder dinheiro – e talvez seja tarde demais para tentar voltar atrás, porém este é o risco que eles assumiram por si mesmos.

Lógico que há uma série de entidades filantrópicas, ONGs e ativistas ambientais que lutam para que haja uma política forte que restrinja as empresas a fazerem o que bem entendem com os recursos naturais e uma fiscalização eficiente nas práticas ilícitas, assim como cumprimento das leis ambientais. Eles fazem um trabalho árduo e precisam ser apoiados.

Todavia, a ignorância do homem aliada ao autossustento do sistema construído pela máquina não me deixa muito otimista para que mudanças emergenciais – tão necessárias – sejam tomadas de imediato. Acredito, porém, que sempre haverá um belo de um discurso retórico que visem adotar medidas para o inalcançável amanhã.

Vamos aguardar a conferência das mudanças climáticas organizadas pelo ONU, em Copenhagen (Dinamarca), neste final do ano, e vamos ver o que acontece neste ano de 2010. Mas pelo sim ou pelo não o fato é que grande parte das medidas poderiam ser tomadas por nós, que em parte somos responsáveis pela situação como um todo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Opinião Agnóstica: Ensino Religioso


No dia 26 de Agosto deste ano a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de decreto legislativo 1736/2009, que basicamente propõe a volta do ensino religioso, de modo facultativo, no período de formação fundamental (que compreende de 1ª à 4ª série do 1º grau – antigamente chamado de primário). Com isto, o projeto foi enviado para o Senado votar e, caso seja aprovado, pode ser que tenhamos esta disciplina na grade muito em breve.

Obviamente este evento gerou uma série de opiniões, algumas solidárias, outras envenenadas contra esta decisão, que em momento algum solicitou a opinião pública, sendo tomada apenas para preservar um acordo entre o governo e a Santa Sé – que representa a Igreja Católica.

Nem preciso dizer que o acordo fere a constituição, que nos dá direito a um Estado Laico (art. 19, I) e a proibição de distinção de indivíduos, dada razões ideológicas, crendices ou culto (art. 5, caput e art.19, III). Isto por si só já é motivo de sobra para os mais ferrenhos debates acerca do tema, afinal de um lado está a Igreja – neste caso uma ação proveniente do catolicismo – e do outro lado estão outras crendices que se unem a descrentes brasileiros.

Como minha opinião foi solicitada, visto que a pessoa não conhecia uma opinião agnóstica a respeito deste assunto, faço valer este texto para que possamos, de forma mais sintética, analisar o seguinte duelo (independente de crença, visto que a Igreja Católica publicamente declara que o ensino religioso não é pró-catolicismo, e sim a favor de um ensino baseado numa ou mais crenças): Religião x Liberdade.

Não é demais lembrar que esta opinião não é única e reflete apenas um dos ramos do que tal decisão implica. Outros textos são muito válidos e podem complementar a leitura, principalmente aqueles que analisam o corpo jurídico, os reais interesses da Igreja e toda a política em torno deste projeto de decreto legislativo.

Tentarei responder de forma satisfatória aquilo que foi questionado: agnóstico, você é contra ou você é a favor do ensino religioso? Esta questão engloba uma série de fatores e está carregada de sentimentos históricos, principalmente quando retomamos uma época onde a Igreja constituía o topo da influência política no mundo. Ainda assim precisamos de cuidado para sermos coerentes em nossa resposta e neutralizarmos os nossos pulsantes nervos que estão para estourar. É preciso conter o grito na garganta.

Depois de refletir por um período a minha resposta é: sim, eu sou a favor do retorno do ensino religioso. Antes que pensem que eu tenho uma tendência religiosa em minha veia agnóstica, irei explicar o porquê de minha decisão.

Meu argumento está intrinsecamente ligado com a questão moral do homem. De certa maneira não podemos negar que as massas convivem num período que podemos chamar de crise da moral, onde a alienação perante as coisas e o condicionamento perante as mídias, assim como o chamado dos objetos, que possuem identidade própria num universo hiper-real, nos passam uma enganosa impressão que somos ilimitados. Este argumento surge com outro que diz que podemos fazer o que bem entender.

Há um conceito antigo que desenvolvi chamado humandróide, que nada mais é do que este homem interligado a culturas cibernéticas e multimídias, onde milhões de informações são processadas de modo subumano, impossíveis de serem analisadas e digeridas, o que faz com que nos tornemos seres automáticos e pré-programados como andróides, dependentes, inclusive, de bens tecnológicos – os chamados gadgets.

Portanto, temos uma crise de moral, onde fazemos sem saber por que fazemos, apenas seguimos o sistema – que é autossustentável e perfeito em si mesmo. Aqui, tudo é permitido. A sociedade do “Admirável Mundo Novo” de Huxley já nem parece ser tão absurda assim. As gangues do “Laranja Mecânica” de Burgess já nem são tão fantasiosas. Cada dia parece que nos aproximamos mais desta sociedade robótica antes vista somente nos livros de ficção científica.

Dostoévski, em seu “Os Irmãos Karamázov”, já lançava a seguinte reflexão: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Ou seja, quanto mais nos distanciamos de princípios morais (neste caso podemos colocar Deus como uma entidade que representa um princípio de moral), mais estamos propícios a acreditar que podemos fazer o que bem entendemos de forma egoísta e egocêntrica.

É inegável que qualquer religião possui um código moral que visa direcionar os seus membros numa direção que propicia harmonia e bem-estar, mesmo que isto represente controle sobre o nosso modo de pensar e, consequentemente, de agir. E isto, em parte, resolve o problema da crise da moral e projeta, ainda que de modo sinuoso, uma perspectiva de vida social melhor que a atual.

Alguns deverão pensar que se atualmente vivemos num sistema condicionador, por que deveríamos trocar por outro sistema condicionador. Primeiro que não estamos tratando de uma mudança de sistema político e nem pretendemos colocar a igreja novamente no poder. O assunto está ligado exclusivamente à formação de crianças. Não necessariamente estas crianças serão devotas religiosas, mas certamente aprenderão valores básicos de convivência social (como respeito, fraternidade, amizade e perdão) através de um código moral baseado numa hipótese de mundo superior.

Nosso sistema de ensino já provou ser ineficiente para educar crianças, principalmente por que elas mesmas se encontram num período de influência modista. Já é consenso científico que a educação estrutural não vem de casa, e sim do ciclo de amigos, principalmente nesta fase elementar do aprendizado. Então é preciso que as escolas retomem uma disciplina moral, por mais que utilizem da autoridade de uma figura superiora que não pode ser provada (nem a existência e nem a inexistência), visto que ela parece ser mais temida do que homens armados.

Depois deste período fundamental, as crianças passam a formar raciocínios mais complexos e podem chegar à conclusão que Deus existe ou não existe, porém alguns valores já estarão lapidados e com certeza isto lhes ajudarão a serem pessoas melhores (independente de crença). Claro que, dê certa maneira, isto fere o direito de liberdade das pessoas, mas me digam, caros amigos, o que uma criança sabe de liberdade?

Será que é justo permitir que elas façam escolhas tão complexas em tão pouca idade? Se os pais souberem o que querem para seus filhos, basta que matriculem eles em escolas que defendam os seus interesses (uma vez que o projeto votado é facultativo), na religião que melhor lhes atenda – se é que estes pais desejam uma religião para os seus filhos. O que não podem é pensar que seus filhos merecem ser livres, pois a liberdade está mais para desgraça do que para um prêmio.

Pegue existencialistas, como Jean-Paul Sartre, e veja o que eles pensam sobre a liberdade. Só para resumir, assim como dizia o pensador espanhol Ortega-y-Gasset, infelizmente todos estamos condenados a fazer escolhas assim que nascemos. Mesmo que não fazemos nada optamos por isto. Fazer escolhas é um processo penoso, visto que cada esquina leva a uma rua diferente. Por isto mesmo o ser humano tem uma predisposição em deixar que os outros escolham por si, pois isto o isenta de muitas responsabilidades.

Hobbes, filósofo inglês, dizia que se o homem conquistasse sua tão almejada liberdade, não ficaria pedra sobre pedra, por isto era importante transferir o nosso poder de decisão para outra pessoa – neste caso o rei. Isto por que o homem não sabe o que fazer com a liberdade. Em vias de fatos, ninguém é livre e nenhum pensamento é livre de influência, visto que ele não se constrói do nada.

Então qual seria o grande mal em fornecermos uma educação religiosa para nossas crianças? Quando vejo opiniões adversas centradas na moral, vejo que a maioria está carregada de ódio e sentimentos negativos, porém, racionalmente falando, vislumbro que o resultado pode ser obtido. Todavia da forma como se encontra sabemos que o ensino não está bem. Nossas crianças cada vez mais são malvadas e desrespeitosas. Então qual seria o risco da mudança? Ferir uma ética fraca, um direito que não temos numa sociedade que não respeita os nossos pontos-de-vista?

Pois eu prefiro o risco da mudança a manter as coisas como estão. Certamente eu optaria por matricular os meus filhos numa escola religiosa ao invés de uma que ignore totalmente o assunto e deixam os alunos a sua própria mercê e concepção de mundo, criando uma verdadeira torre de babel.

Portanto eu, agnóstico, a favor de uma direção comum e social, sou solidário a uma disciplina de educação moral, e se a única opção for à religiosa, que seja, pois acredito que será melhor para o bem estar de uma sociedade moralmente consciente e respeitosa.

sábado, 25 de julho de 2009

O Cientificismo para o Agnóstico


Nos dias atuais temos a ciência como principal referência de conhecimento seguro em benefício dos seres vivos. Através de métodos ciêntificos, você testa, calcula, vislumbra, analisa e modifica uma série de novas descobertas que muitas vezes abrem um novo caminho para ser explorado.

De fato, graças a ciência o mundo proporciona mais conforto e uma espectativa de vida maior em relação aos nossos antepassados. O corpo humano vai sendo explorado e cada vez mais conhecemos como funciona as nossas funções vitais: aquilo que não trabalha bem a ciência passa a investigar para oferecer uma solução.

A ciência faz em seus laboratórios aquilo que muitas religiões gostariam de apresentar aos seus fieis: milagres palpáveis. A ciência realmente é belíssima quando trabalha próxima ao mundo terrestre ao nos oferecer uma série de regalias inéditas na história. O problema maior reside quando algumas pessoas tentam valer da ciência para tentar alcançar objetivos maiores do aqueles que ela propõe a se resolver.

A ciência por ela mesma está distante do mundo da crença, tanto é que uma série de teólogos foram cientístas brilhantes – como diversas vezes mencionados nesta série de artigos sobre agnosticismo – que contribuiram com grandes avanços para a humanidade no sentido físico do universo. Porém há uma série de ateus, não todos, que valem da ciência para tentar desbancar o conceito de Deus. Aqui eu retifico que há uma nova igreja: o cientificismo.

Para os devotos deste fundamentalismo exarcebado – perigoso como todos os demais fundamentalistas – eu tentarei fazer uma reflexão baseada em certas questões. Vamos com a primeira: qual o sentido de provar que Deus não existe?

Segundo os religiosos, Deus não se prova, apenas se sente. Ao utilizarmos da etimologia da afirmação, uma vez que Deus não se prova, Deus é improvável. Neste caso qualquer esforço que se faça diante desta afirmação é improdutivo, pois a única maneira de obter conhecimento de sua existência é através de fé e da própria experiência de vida de cada um – pois este é o meio que a divinidade transita.

Portanto não há sentido em provar que Deus não existe. Então qual seria a motivação de provar a inexistência? A religião não mais atrapalha o desenvolvimento da ciência, uma vez que com o surgimento dos países laícos, que são os grandes polos culturais do mundo, eles perderam toda a sua força. Então o discurso batido de “a igreja é inimiga da evolução” (no artigo anterior eu afirmei a minha descrença em relação à isto) não deve ser temido.

A única motivação que eu vejo, e que eu receio muito, tem origem maligna: apenas para tirarem a suposta “venda” dos olhos daqueles que acreditam num plano superior. Para que isto? Neste caso para quê forçar a pessoa a descrer em algo que para si é tão caro? O que acham que conseguiriam? Será que vocês esperam que com isto o povo passará a agradecê-los e considerá-los novos heróis? Ou seria apenas para sustentar o próprio ego? Um trunfo para a racionalidade?

Percebam que este tipo de ciência não é bem vinda, pois ela não é construtiva, somente destrutiva. Ela não pretende oferecer uma solução, apenas dizimar mitos. É niilista não-progressiva. A ciência caminha muito bem, independente da existência da igreja.

Esta espécie de ciência negra, uma vez que é motivada pelo ódio, não pode ser bem-vinda. Bem-vinda é aquela ciência positiva que trás reais avanços para a saúde e para o bem estar da humanidade.

Fora cientificismo! Bem-vindo ciência!

terça-feira, 7 de julho de 2009

O Cristianismo para o Agnóstico

Poderíamos valer de qualquer religião para este artigo. Não obstante, a influência da crença em Cristo em nossos dias não pode ser ignorada. Mesmo hoje continuamos a ser criaturas influenciadas pelo cristianismo, seja por tradição de nossa família, seja por vestígios culturais, seja por maioria de votos. São tantas igrejas e tantas pessoas que demonstram a sua fé que eu sou tentado a escrever uma pequena dissertação sobre o meu olhar agnóstico frente à nossa sociedade cristã.

Temos dois objetos para conhecer melhor a religião de Jesus Cristo: um objeto de análise rico, grandioso e palpável - a história - e outro difícil, moralista e metafísico - a bíblia sagrada. O primeiro nos traz uma fonte extensa de informaçoes concretas, o segundo nos traz tantas informações abstratas que sem o uso da fé nos encontramos com um texto muito descontinuado e inconsistente.

Interpretar a história ao pé-da-letra é possível com clareza. Porém interpretar ditos de fé é uma tarefa árdua e necessita de muita contextualização. além de crença nas interpretações da palavra.

Como agnóstico confesso, não posso simplesmente mentir ou desmentir a inexistência dos fatos descritos neste livro, a não ser aqueles que a história desvela ao longo dos anos e que trás novas descobertas à respeito do tema, porém, por não conhecer profundamente este assunto, me baseio somente naquilo que li e conheço: Deus, ao meu ver, não fala com os homens. Isto não prova que ele não existe, porém como força não-material é impossível estabelecer um contato homem-divino ou divino-homem.

Portanto muitos acontecimentos bíblicos não poderiam ser verdadeiros, uma vez que Deus não é composto de matéria, como nós somos. Se ouvimos, falamos ou pensamos é consequência de um corpo material. Agora se você me perguntar de onde vem a consciência eu não saberei lhe responder, porém você também não saberá, pois não há nenhuma evidência à respeito disto. Se me disser que vem de Deus, eu voltarei ao assunto: Deus está além do nosso mundo e do nosso leque de conhecimento, portanto falar sobre isto seria apenas especular.

Porém a bíblia tem um papel fundamental para a humanidade: se trata de um manual precioso de como conviver bem em sociedade, através de muita harmonia, senso de justiça e senso de caridade. A bíblia não instiga a disputa, mas a eterna confraternização. A bíblia prega a doação e o perdão, além de ser um livro que estimula a agir em pró de um bem maior.

Enfim, a bíblia orienta o homem para fazer o bem. É um livro rico em ética e moral, que lhe ensina como agir em situações difíceis, muitas vezes com lições do próprio dia-a-dia. O livro sagrado insiste em fazer o bem mesmo quando nos vemos forçados a fazer o mal, além de unir pessoas em pró de uma mesma causa - que é uma causa de bem. 

Através das palavras escritas ali, somos doutrinados a sobreviver em situações drásticas, a suportar um universo de dor - mediante a própria existência - e a nos organizar em uma sociedade do bem. Este livro tem um poder raro de tocar o coração de pessoas más - como criminosos e charlatões - e fazer com o que seus adeptos aceitem a conversão do mau em bom.

Em vias de fato a bíblia é um material de grande valia. Graças à influência do pensamento cristão, que perpetuaram durante séculos e chegaram até os nossos dias, temos um mundo culto com centenas de novas descobertas. Portanto, vamos discutir um pouco sobre a história do cristianismo - o outro objeto deste post.

O cristianismo, antes de tudo, é uma revolução no modo de pensar e agir. É uma revolução cultural e científica, moral e ética, sem a qual não poderíamos sequer nos pensar nos dias atuais. Se os homens que iniciaram a perpetuação e dissiminação da ideia de Javé não tivessem persistido em suas jornadas, talvez não estaríamos aqui neste momento - embora devido a perca de referêncial isto jamais poderá ser afirmado (ver conceito de hiper-realidade). Portanto temos nesta religião uma nova etapa na organização social da humanidade, responsável pela evolução do mundo.

Indo na direção contrária ao discurso antirreligião, que diz que as crenças divinas são um atraso na evolução do universo, ouso dizer que o mundo só evoluiu enquanto os povos acreditaram em um deus. Antes do cristianismo, tivemos grandes civilizações construídas através de um discurso de fé, como o Antigo Egito, a Antiga Grécia e a Antiga Roma, três responsáveis por civilizar de forma atenuada uma grande parte do nosso planeta. Além do quê, a filosofia - mãe de todas as ciências - surgiu dentro do pensamento Grego, que ainda naquela época estava contaminado pelos deuses do Olimpo. Ou seja, a física, a lógica, o conceito de átomo, a aritmética e os números irracionais foram desenvolvidas por gregos que acreditavam em forças exteriores e ocultas, enquanto a geometria foi desenvolvida pelos antigos egípcios, com toda a tradição mística possível.

Quando falamos do cristianismo temos uma série de inventos tecnológicos em plena era medieval (aquela conhecida como idade das trevas, ou "a noite de mil anos", a qual dizem que nada de positivo foi construído no período): o relógio mecânico, a máquina de novelo, o guindaste, a serra hidráulica, a pólvora negra, o moinho de água, o timão, o canal com reclusas e portas, o tear, a bússola magnética e os óculos. Foram os cristões que também desenvolveram a imprensa, o ferro fundido e a química dos ácidos e das bases.

Na filosofia temos ninguém menos que Blaise Pascal, cujo raciocínio lógico é parte integrante de seu pensamento. Temos também René Descartes e Galileu Galilei - um cristão fervoroso. Isto só para citar alguns. Portanto o cristianismo é sim responsável por grande parte da evolução do mundo como ele é hoje.

O professor belga Léo Moulin - que me inspirou em certas partes deste artigo - levanta uma questão interessante: por que o desenvolvimento da humanidade ocorreu substancialmente somente em território cristão (ao longo da Europa)? Por que as Américas, antes das descobertas, e a África não se desenvolveram? Diferente dos cristões, que ganhavam força num discurso uniforme, os outros povos tinham uma infinidade de estilos e culturas que não permitiam a construção de uma sociedade unida e fortificada.

Através da bandeira cristã, novos continentes e novos países foram descobertos. Por isto mesmo que disse anteriormente que seria impossível imaginar um mundo hoje se não houvesse o cristianismo para sustentar o desenvolvimento.

Portanto, mesmo acreditando que exista falhas no texto bíblico, que boa parte dos versículos tenham sido escritos para controlar o homem e reconstruir a ética e a moral - sem nenhuma inspiração divina - e mesmo não acreditando no Deus-escrito-a-mão, não posso ser negligente e ignorar o fato que o cristianismo é o grande responsável pela tamanha evolução a qual o nosso mundo encontra-se hoje quando comparado ao mundo de 2000 anos atrás.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Por que Agnóstico, e não Ateu?


A partir do momento que o ateísmo busca responder aos mesmos problemas de origem extrasensorial através da razão ou da natureza, entendo que aqui também formamos uma religião. Além do quê, sistematicamente, ateus valem-se de argumentos semelhantes para responder à determinados assuntos, isto porque foi criado uma atitude ateista de se pensar e, portanto, uma espécie de estatuto de como negar á Deus. Neste caso, Richard Dawkins pode ser considerado uma espécie de pastor do ateísmo fudamentalista - !!! - (sendo que da mesma forma que ele crítica o cristianismo em seus livros, há livros que criticam toda a sua obra - e não são religiosos, mas professores de Oxford, por exemplo).

O ateísmo por padrão é um movimento materialista, visto que a matéria precede à todas as coisas (opinião, raciocínio e intelecto). Neste caso, a física precede a metafísica, o que nos leva a seguinte conclusão: o corpo precede a mente. Platão chegou a explorar este tema no diálogo Leis. A verdade é que não há como provar a sentença que diz que a matéria precede a consciência, e por isto o ateísmo cai no mesmo ciclo das religiões: provar algo que está para além do conhecimento.

Se o ateu admitir que a consciência precede a matéria teria que afirmar que há algo de metafísico e verdadeiro no mundo. Em vias de fato, é isto que muitos pensadores fizeram ao longo da história, a começar pelo próprio Platão e Aristóteles, que sugeriu um Primeiro Motor como causa inicial. Esta, talvez, seja a principal queixa de Berkeley: negar Deus em tudo, menos no princípio. Isto porque é praticamente impossível explicar o início de tudo.

Talvez iremos chegar no dia em que conseguiremos explicar o início da vida (a teoria do Big Bang é muito respeitada nos dias atuais), porém isto ainda não seria suficiente para provar a inexistência de Deus ou da vida pós-morte. Já há teólogos, inclusive, que valem da ciência para enaltecer ainda mais as qualidades divinas do Deus onipotente.

Além disto o ateísmo se vale de dois métodos para negar Deus: a razão e a ciência. O primeiro está em crise desde os escritos de Imannuel Kant, além do que a razão é traiçoeira e sempre insiste em nos enganar (faça uma simples divisão de dez por três e veja onde você chegará). O segundo está sempre em mutação e nunca nos trás verdades duradouras: ano após ano surgem conhecimentos mais seguros que negam os anteriores, e isto num ciclo sem fim (recomendo os livros de Thomas Kuhn à respeito da vunerabilidade das descobertas científicas). É comum que filósofos científicos digam que a cada nova descoberta uma falsidade seja substituida por outra um pouco menos falsa. Através de genealogia, observamos uma centena de exemplos que confirmam isto. Os próprios físicos obedecem à axiomas (postulados) inquestionáveis em suas investigações.

Uma vez Bertrand Russel, num ensaio conhecido como "Sou ateu ou sou agnóstico?", dizia justamente sobre a dificuldade de tomar um partido. O filósofo disse que ele realmente acreditava que não havia nenhum argumento que provasse a inexistência de Deus, porém ele também não poderia provar que os deuses de Homero (Zeus, Thor, Odin, entre outros) não existíssem também. Neste caso, o simples absurdo de não poder provar nada a respeito deste assunto já lhe traria uma inclinação ateísta, porém ele continua a se considerar agnóstico, visto que para ser ateu ele também precisaria valer apenas da imaginação.

Ainda assim, isto não prova que não há algo fora deste mundo, pois o universo que as religiões transitam é o metafísico, e isto está para além do escopo de qualquer ciência ou razão. De modo geral para os religiosos é mais fácil um acontecimento divino alterar o ponto de vista descrente do que o contrário, pois Deus, da forma que é pensado, poderá se revelar, visto que sua inexistência jamais poderá ser provada.

Ou seja, da mesma forma que a ciência espera, um dia, desbancar a crença em Deus, os religiosos esperam que, um dia, Deus apareça e converta os não-crentes.

Novamente entramos num ciclo sem fim de discussões sem fim. Como o ateismo não é conclusivo para explicar questões do além-mundo, permaneço agnóstico, e não ateu.

Por que Agnóstico, e não Religioso?


Se, ao disser que sou agnóstico, assumir que esta é minha religião, então que fique claro que a entidade máxima desta crença é a dúvida.

Se tiver que prestar culto para algo será para o ponto de interrogação, afinal me considero pequeno diante da imensidão do mundo para explicar ou mesmo entender tantas coisas complexas que temos ao nosso redor.

Neste caso, o que me resta é apenas aceitar a vida como ela se apresenta, com todos os seus mistérios indecifráveis. O homem, naturalmente, é um animal bastante curioso. Ele tem necessidade de conhecimento, graças à necessidade de controlar - que fatalmente lhe levará ao poder, que é a necessidade maior presente dentro de si.

Desta maneira, explicar é preciso. E a melhor forma de explicar alguma coisa é pelo começo. E nada melhor do que as religiões para trazer uma grande reflexão quando o assunto é o princípio da vida.

A religião resolve grande parte das questões existenciais que nos imperam. Através de figuras míticas, temos o esclarecimento para todas as dúvidas que perpetuam na metafísica. Neste caso, não é difícil participar de alguma, visto que elas servem como alimento para o nosso espírito faminto de conhecimento.

Quem adota uma religião está satisfeita com ela, independente de qual seja. Qualquer uma tem seu próprio estatuto, história, ética, moral e princípios, a qual absorvemos para dentro de nós. Porém quando decidimos fazer um exame mais minucioso destas crendices, iremos nos deparar com uma série de problemas para resolver (como problemas de continuidade, cronologia, conflitos éticos e contrariedades, além de problemas enfrentados por textos indecifráveis, fragmentados, mal traduzidos, ou mesmo perdidos).

Além do quesito principal: história. Quanto tempo uma religião perdura ao longo dos séculos e milênios? O que observamos é que conforme a humanidade envelhece, seus dogmas são substituidos gradativamente. Algumas crenças remendam o seu texto e o contextualizam com os dias atuais, o que significa uma grande perda de fidelidade do original, o que faz com que surjam ainda mais crenças, pois a difícil interpretação de boa parte das mensagens geram discórdias e pontos de divergência, o que faz com que muitas pessoas passem a seguir as religiões que mais lhes convém.

Quando esta religião não existe, é possível criar uma ou adaptar uma já existente para a nossa condição cultural e social. Hoje é o que vemos na prática com a segmentação das massas em diversos grupos sócio-econômicos, e daí por diante uma segmentação ainda maior (temos religiões específicas para um determinado tipo de grupo: temos divisões da igreja protestante, por exemplo, para os hippies e metaleiros e temos outra divisão para pessoas mais rígidas).

Ou seja, temos uma grande torre de babel cujo intuito não é trazer um caminho espiritual, mas alguns padrões de como conviver em harmonia socialmente. O problema é que como cada crença traz consigo seu próprio código de ética e moral, aquilo que foi pensado como correto é visto como motivos de contenda - basta rever as chamadas "Guerras Santas" ao longo da história, e que persistem até os dias atuais, principalmente na região do Oriente-Médio.

Além disto estas instituições vão de encontro com uma das prerrogativas bases para um mundo harmônico: a liberdade. As religiões, de modo geral, não toleram outras crendices que não sejam elas mesmas. Algumas, inclusives, chamam os membros de outras crenças de inimigos e incentivam no combate destes. Além disto trabalham ativamente no espírito humano ao querer estampar verdades inquestionáveis, ao invés da estimular a investigação de dúvidas, e muitas vezes abusam do bom senso dos homens.

Na prática, observamos este comportamento quando deixamos de escolher o que é o bem ou o mal para nós ao aceitarmos as premissas do que é bom ou ruim proveniente destas religiões, sendo que muitas vezes o que não é bom para a crença poderia ser bom para a pessoa e vice-versa (as vezes temos casos absurdos como a mutilação da genitália feminina, aceitação de gravidez proveniente de abuso sexual e mesmo crianças sendo enterradas vivas).

Acredito que Deus, se ele existir, não ficaria feliz de ver tantas pessoas agindo em seu nome de maneira tão mesquinha e arrogante, visando não a elevação da alma, mas somente a luxúria e conveniência dos próprios homens.

Por isto sou agnóstico, e não religioso. Pode ser que Deus exista, mas não pode ser este descritos nos livros sagrados, este pregado nas igrejas ou descrito por sábios antigos. Se Deus existir, ele deverá ser uma espécie composta de uma substância diferente da nossa, portanto isto explicaria a falta de evidências para comprová-lo, talvez seja por isto que ele não atue em nosso universo (por tratar-se de algo que não está no campo da ação).

Não sei. Entretanto fico com o meu não saber do que um saber que me trás dúvidas.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Impenetrabilidade da Metafísica

Em linhas gerais o agnosticismo é visto como uma posição que pode indicar uma espécie de credo. Tanto é que em muitos cadastros que exigem a menção do campo "religião" para efeitos estatísticos encontramos o termo "agnóstico" para registrar uma crença. Porém aqueles que são um pouco mais entendidos no assunto sabem que ser agnóstico vai além do que sugere esta proposta e é, em vias de fato, uma atitude do pensamento filosófico com um núcleo de pensamento comum: que certas questões de cunho metafísico não podem ser resolvidos através do método científico.

Dentre estas questões temos algumas que são responsáveis por associar o agnosticismo como uma posição religiosa: Deus, o Infinito e o Absoluto. Dentre estes três conceitos o agnóstico acredita que tanto os esclarecimentos formulados pela ciência quanto os formulados pelas religiões podem ser igualmente verdadeiros ou falsos, portanto a melhor maneira seria não concluir algum raciocínio em relação à isto, visto que estes assuntos estão para além de nosso mundo, portanto para além de nosso conhecimento.

Neste contexto, ao tratarmos especificamente de Deus, ao questionar sua existência o agnóstico diz que há tantas possibilidades desta entidade superiora existir como há tantas outras de não existir. A chave para o entendimento do agnosticismo neste ponto é: existem evidências que provem a existência de Deus no mundo físico? Não. Porém, Deus pertence ao mundo metafísico. Neste caso pode a ciência provar que ele não existe? Também não, afinal qualquer assunto metafísico é impenetrável pela ciência.

Quem criou o termo foi o inglês Thomas Henry Huxley, biólogo evolucionista e principal defensor da Teoria da Evolução de Charles Darwin - outro que admitiu ser agnóstico em uma carta, que após participar de uma reunião em 1876 da chamada Sociedade Metafísica, chegou a conclusão que alguns problemas desta origem jamais seriam resolvidos, pois após a reunião grande parte dos participantes acreditavam ter alcançando uma certa "gnose" que lhes permitiam ter segurança o suficiente para resolver os problemas da existência, enquanto T. H. Huxley não havia sido convencido. Por isto, agóstico é uma palavra que serve de antítese para gnose.

Embora o pai da palavra tenha sido considerado T. H. Huxley, o conceito já havia sido demonstrado antes. Temos como exemplo Spencer, que em 1862, na primeira parte de sua obra Primeiros Princípios, dizia que a realidade ultima, aquela força misteriosa que é encontrada em todos os fenômenos naturais, era inacessível. O filósofo alemão Immanuel Kant também dizia que a coisa em si estava para além do conhecimento humano. Ou seja, há o conceito-limite.

Dentre as questões metafísicas insolúveis, para o alemão Du-Bois Reymond estariam as seguintes: origem da matéria, origem e surgimento da vida, origem do movimento, origem da sensibilidade e da consciência, origem do pensamento racional e da linguagem e a liberdade do querer). Percebam que estes problemas gerados pela metafísica não são relevantes para o desenvolvimento da ciência. Portanto elas não precisam se contradizerem ou duelarem, basta que religião e ciência cuidem cada uma de seus assuntos e não se encontrem.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Bullet With Butterfly Wings

Demasiadamente estranha pode ser a linha da existência. Afinal, para quê existimos? Para formular alguma resposta viável precisaríamos considerar outros mistérios precedentes a este. Temos, porém, elementos que nos fazem acreditar que a existência não possue significação em si mesma. Neste caso, existir é um mero acidente e viver é o grande desafio.

Durante a vida, somos explorados pelo simples fato de existir. De fato, o condicionamento das pessoas em aceitar tal condição é outro mistério tão grande quanto o divino, visto que o mundo é como um vampiro que suga a nossa energia, nos cansa e nos enfraquece. Se há algo de oculto no mundo é esta força que age por trás do sistema que te impulsiona para uma batalha dolorida e desgastante, onde nada recebemos por tanta dor que sentimos quando pensamos em nós mesmos.

Quando surgem sonhos, somos iludidos a acreditar que tudo é possível sem antes analisarmos os perigos por trás da ousadia de querer seguir adiante. Nossos desejos, na verdade, são apenas artefatos para alimentar a sede do Deus-Dinheiro: quanto mais nos frustamos, mais desejamos. Quanto mais desejamos, mais gastamos. Quanto mais gastamos, mais corroemos nossa alma.

Apesar de sabermos o quão é difícil manter uma posição contrária ao sistema opressor, continuamos a seguir por esta linha. Afinal, mesmo que só traga sofrimento é o nosso único resquício de autenticidade - a última parcela humana dentro de nós. Por isto não podemos nos cansar, somos soldados solitários e esperamos que a humanidade abra os olhos para aquilo que acontece ao redor. Para isto a minha contenda é escrever na esperança que leiam. Ao ler, espero que aqueles que não enxergam passem a enxergar.

Porém sei o quão difícil é esta guerra, pois apesar de gritarmos, protestarmos e escrevermos, apesar de tanta paixão que desprendemos nesta causa, somos como ratos trancados numa gaiola. As pessoas pararam de acreditar e aceitaram que estão condenadas. Afinal aceitar o que não se pode mudar pode ser um alívio enquanto houver vida. Porém esta vida é vida-morta ao vivermos como mortos-vivos. Enquanto não me ouvirem, continuaremos engaiolados.

Quando deixaram de acreditar arrancaram minhas armas e aqui me encontro nú, escrevendo palavras que nem sequer sei se um dia serão lidas por alguém. Sou ou não sou mesmo como um animal, ao falar num idioma que ninguém consegue compreender? Ao menos finjam e me aceitem como sou! Claro que minha voz agride os ouvidos de quem quer escutar, porém peço para me aceitarem por apenas mais alguns instantes, pois em breve não estarei mais com vocês, afinal não suporto dividir o meu palanque com tão impuros espíritos.

Com esta atitude pobre o que você pretende para a sua vida e a dos seus filhos? Você realmente está satisfeito com o que acontece? Pois eu quero mudar desesperadamente este nosso percurso! Não dá mais para continuar assim... O que você ganha por se sentir exatamente assim? Sei que as coisas não vão bem, então porque não mudar?

Bem que gostaria de ser o escolhido. Com toda a minha visão, certamente seria eleito o novo salvador, afinal Jesus com suas ideias foi tão aplaudido antes, imagina eu? Imagine a quantidade de seguidores que iria adquirir se minhas palavras pudessem expandir para o mundo? Afinal o próprio filho de Deus não foi o único? Ao menos para você eu sei que ele foi. Então confie em mim e deixe me neste frio e gelado velho trabalho.

Smashing Pumpkins, Bullet With Butterfly Wings

The world is a vampire, sent to drain
O mundo é um vampiro, enviado pra sugar
Secret destroyers, hold you up to the flames
Destruídores furtivos, te fazem enfrentar as chamas
And what do I get for my pain?
E o quê que ganho, pela minha dor?
Betrayed desires, and a piece of the game
Desejos traídos, e as moedas do negócio

Even though I know - I suppose Ill show
Apesar de saber – acredito que continuarei
All my cool and cold-like old job
Neste meu frio e gelado velho trabalho

Despite all my rage Im still just a rat in a cage
Apesar da minha fúria sou apenas um rato engaiolado
Then someone will say what is lost can never be saved
E alguem dirá que o que está perdido não se pode recuperar
Despite all my rage Im still just a rat in a cage
Apesar da minha fúria sou apenas um rato engaiolado

Now Im naked, nothing but an animal
Agora estou nu, nada mais que um animal
But can you fake it, for just one more show?
Mas dá pra você fingir, pra apenas mais um show?
And what do you want, I want to change
E o que você prentende? Eu quero mudar
And what have you got when you feel the same
E o que você recebe por se sentir o mesmo?

Tell me Im the only one
Diga-me que sou o único
Tell me theres no other one
Diga-me que não há outro alguem
Jesus was an only son
Jesus era filho único
Tell me Im the chosen one
Diga-me que eu sou o escolhido
Jesus was an only son... for you
Jesus era filho único...pra você