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domingo, 3 de julho de 2011

A Liberdade é Azul


O diretor polonês Krzysztof Kieslowski tem se tornado minha nova obsessão, visto que sou fascinado pelo movimento existencialista. Sei que corro um grave risco pelo rótulo, mas não posso ser omisso: todos os elementos da corrente estão presentes em seus filmes – com destaque para a característica mor, o absurdo de existir (a ironia da vida).

Em A Liberdade é Azul, um dos filmes da fase francesa do diretor, outro ponto é ainda mais marcante: a liberdade como penitência durante a formação do homem. Sim, a liberdade, tão objetivada pelo ser humano, surge no movimento, assim como neste filme, como efeito negativo – visto que nos exige escolher cada instante a ser vivido, sendo que nós, quase sempre, achamos esta tarefa tão árdua e desgastante que optamos por outras pessoas que possam escolher por nós (este é um dos motivos vivermos num sistema de hierarquias, muitas vezes eleitas pelas próprias pessoas – como acontece no sistema político ou mesmo em grêmios estudantis).

No primeiro filme da Trilogia das Cores, que fazem alusão as cores da bandeira da França, assim como os significados das mesmas, observamos um absurdo que determinará toda a história do filme, que nada mais é do que um retrato vivo do cotidiano: um acidente de automóvel ocasionado por uma falha mecânica num carro praticamente novo (lembre-se que estamos nos tempos do recall) irá separar uma família para todo sempre – morre a filha e o pai e sobrevive a esposa.

O acidente é causado por um motivo tão tolo que o diretor faz questão de nos apresentar nos primeiros momentos do filme: durante a viagem a menina sai do carro para urinar. Quando volta o óleo está pingando vagarosamente. Pois é, tão pouquíssimas gotas, quase inofensivas, serão as responsáveis por alterar todo o curso do destino.

Um pouco mais a frente, num dia como qualquer outro, o carro derrapa e somente Julie, a protagonista, tem a infelicidade de acordar no hospital. Posteriormente sabemos que toda a vida de Julie estava intrinsicamente ligada a sua família. Logo, sem família, ela não tinha mais nada para se apegar, portanto, estava melancolicamente livre.

A morte de seus entes foi transfigurada na chave para a liberdade. Este é o preço a se pagar e certamente ser livre neste contexto não é algo benquisto e muito menos desejado. Portanto Julie está diante da liberdade, nua e crua. No aspecto mais existencialista possível, passamos a observar como se dá os dias da protagonista após o acaso a qual qualquer um está sujeito.

O que vemos é a vã tentativa da protagonista desvincular-se da sua vida anterior: tudo aquilo que lhe faz lembrar-se de sua filha ou de seu marido é descartado sem a mínima razão – aqui temos sentimentos elevados à flor da pele, dando vazão ao humanismo do ser diante dos absurdos, como se não fossemos mais do que brinquedos num mundo tão complexo. Lá se bens, roupas, títulos e o principal: uma composição inacabada de seu marido, a título de encomenda, chamado “Concerto Pela Unificação da Europa”.

Somente uma coisa não pode ser descartada: as lembranças de sua vida anterior. O esforço que Julie faz é notável, muitas vezes comovente, mesmo diante de sua frieza diante de sua nova morte – que é a vida sem sentido de ser, ou seja, a vida no seu nível mais essencial.

Estas lembranças surgem cruéis justamente para impossibilitar que o plano do esquecimento de Julie dê certo. Na vida nada é tão simples assim, onde é só apertar um botão que desligamos aquilo que não mais queremos em nossa mente. A composição de seu marido, como reforço do tom artístico do filme, insiste em perpetuar juntamente com sua dor.

Justamente a parte inacabada, aquela a qual não se tem mais registro, toca na mente da protagonista em cada momento da mais profunda expressão de sentimento. Se Julie não demonstra, sabemos que a música chora por si – nestes momentos o diretor fecha os nossos olhos e respeitamos a privacidade da personagem central.

Após tantos apagões, o que fica claro é Julie busca um suicídio vivo, uma lenta degradação da espécie, onde o que importa é o passar dos dias, nada mais. Tudo aquilo que remete a vida lhe traz novas experimentações, nem sempre bem recebida, e outras vezes visível sob um prisma de quem não quer mais estar ali – espiamos estas experiências com certa compaixão pela protagonista, que observa com certa inveja atrelada a tristeza e dor.

Em dois momentos isto fica claro: quando no banco de uma praça uma velha, com muito esforço, leva um dejeto para o lixo – ou seja, Julie enxerga motivação mesmo em idade tão avançada – e em sua própria mãe, que adora ver programas de esportes na televisão, e vibra muito com isto – uma referência tão simples para consegue preencher totalmente um motivo para viver.

Estes pequenos containers de vida são grandes chagas na alma de Julie: como eles conseguem se contentar com tão pouco? Onde eles encontram forças para continuar?

Eis que ela então traz o seu container: a explicação vem da própria canção inacabada, que está bem viva em sua mente – neste caso é hora de terminar a canção e deixar que as almas descansem em paz, principalmente a sua. É hora de continuar. No final há uma solução otimista, o que de fato é surpreendente, ao mesmo tempo em que é reconfortante: Julie brinda sua nova vida com lágrimas por tudo que ficou para trás, mas está conformada, resignada e abre um leve sorriso, suficiente para entendermos que as portas passadas foram fechadas e que agora resta a esperança por uma vida melhor.

Se a história é simples, o que faz a diferença é a batuta de Krzysztof Kieslowski, que transforma este num dos melhores filmes de todos os tempos, graças a sua delicadeza, sutileza e outros detalhes técnicos de grande apreciação. As cenas podem relevar detalhes chaves da história, portanto é bom assisti-lo de olhos bem abertos.

O filme é praticamente todo azul, o que eleva o nível de frieza da liberdade, ao mesmo tempo em que situa a história quase como que num oceano – o que traz à mente a liberdade por dentro do mar, tão bonita e tão solitária em sua grandeza quase que infinita.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Albert Camus: A Queda


Uma vez, numa apresentação de grupos na Faculdade de Filosofia, observamos um grupo gigantesco, cerca de onze alunos, apresentar um trabalho a respeito de um livro de Thomas Kuhn - o excelente A Estrutura das Revoluções Científicas. Um dos integrantes do grupo levou cerca de 50 minutos para explicar meio capítulo do livro. Já outro integrante levou apenas 15 minutos para explicar dois capítulos inteiros.

Ao término, o professor avaliou as apresentações de forma individual e mediante toda a classe deu sua sentença: há pessoas que falam, falam e falam, e não dizem absolutamente nada, há outras, entretanto, que em poucas palavras se manifestam com tamanha maestria que nada mais precisa ser dito. Assim é com A Queda, livro de apenas 110 páginas do nobel da literatura Albert Camus, escritor e filósofo existencialista - cuja obra mais famosa, O Estrangeiro, já foi analisada por este blog e se tornou um dos meus prediletos objetos de culto.

A Queda é um livro surpreendente. Ele não é um típico livro de fácil digestão, muito pelo contrário, exige inclusive certo esforço do leitor para acompanhá-lo sem se distrair, visto que por vezes a leitura se torna maçante, talvez por sua fórmula ousada: um monólogo que acaba por se tornar extenso, onde a figura de Jean-Baptiste Clamance, um ex-advogado que autointitula juiz-penitente, discorre sobre sua trajetória antes "A Queda" e após "A Queda", fazendo uma análise de si mesmo num boteco de bebum em Amsterdã para uma figura qualquer, a qual não nos é revelada até chegar ao término da história.

O livro não é um romance. Longe disto, é quase um tratado filosófico que perambula pelos principais conceitos da corrente existencialista. Está tudo lá, basta degustar vagarosamente e observar com um olhar atento que você saberá exatamente do que estou falando. Basicamente temos um retrato nu e cru do homem como ele é, de sua espiritualidade e como ele se apresenta ao mundo. Este retrato vai sendo desenhado ao longo da narrativa, ao término nos é oferecido e Clamance indaga quão desgraçada é a sua figura, porém ele coloca: por acaso não parece com você?

Sim, meus caros, Clamance fala de si o tempo inteiro, porém ele também está falando de mim e de você, de todas as pessoas sufocadas por este mundo tenebroso, que são obrigadas a escolher, que são condenadas a serem livres e que ainda precisam prestar contas de seus atos para o universo, que julga cada passo dado e cada decisão tomada. O livro começa com Clamance desmembrando o seu narcisismo e o seu hedonismo, assim como descrevendo fatos que descrevem seu egoísmo e seu egocentrismo.

Entretanto, em frente a todos estes malefícios, Clamance convence a si mesmo que ele nada mais é do que um humanista, um homem de bem, com uma profissão invejável, bonito como só ele e um nato conquistador de amores e paixões. É por trás de sua atitude que conhecemos o quanto Clamance é mesquinho e mesmo arrogante com sua vida perfeita.

Mas, subitamente, algo acontece na vida de Clamance que lhe obrigará a fazer um exame de autoconsciência para assim conhecer a si mesmo. Ocorre, então, a queda que dá nome ao livro: num dia qualquer, ao passar por uma ponte, Clamance observa uma mulher com o claro intuito de cometer suicídio, porém o protagonista finge que não é consigo e segue adiante. Já longe, houve os gritos da pobre mulher, que em tese havia se jogado no rio, porém Clamance não retorna. Estes gritos ecoarão na sua mente por muito tempo, afinal a sua mesquinhez sobrepôs a vida humana, e é a partir deste momento que ocorre a queda: agora ele está cônscio de quanto é pequeno e insignificante em relação ao mundo.

Então Clamance passa a um exame de autoconsciência e, tomado por uma infinita culpa, descobre que a doença do narcisismo é um doença do mundo a qual todos os homens estão sujeitos: primeiro a mim, depois a você. A liberdade, que antes era brindada e comemorada, num exame mais minucioso, começa a ter ares de maldição. Num universo onde a existência precede a essência, o homem só se desenvolve no mundo a partir de seu surgimento. Antes do desenvolvimento, o homem é inteiramente livre, e isto acaba por se tornar angustiante. Neste momento ele passa a escolher, e assim formar a sua essência.

Clamance deixa claro: "No final de toda liberdade, há uma sentença; eis por que toda liberdade é pesada demais". No mundo há uma relação de vaidade tamanha que chega a implicar nas relações mais íntimas da sociedade, de tal modo que quando dizemos "eu te amo" implicitamente estamos questionando ao outro "e você?" para assim satisfazer o nosso ego. Fazemos o bem com o intuito narcista de recebermos algo como bonificação. Não há filatronpia, mas tão somente uma forma de adquirir posição para nos autossatisfazermos.

Ao término, finalmente, nos é apresentado o retrato que Clamance discorre durante o livro, já mencionado num parágrafo anterior: "Quando o retrato está terminado, (...) mostro-o, cheio de desolação: 'Aqui está, aí de mim, o que sou'.(..) Mas, ao mesmo tempo, o retrato que apresento a meus contemporâneos torna-se um espelho". Sim, somos todos Clamance. Ele é você, eu sou ele e você sou eu. O que mais falar desta obra? Apenas que caso não tenha conferido, não perca seu tempo e adquira já um exemplar. Além de curto, é uma ótima experiência. Clamance diz que você passará somente 5 dias em sua companhia, tempo suficiente para ele fazer um exame profundo em sua mente.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Peanuts Completo Vol 1


Charlie Brown, por decisão unânime, é considerado o mais jovem existencialista da história. Mesmo criança, Charlie Brown sofre com os muitos problemas da existência, do absurdo que é a vida, do por que de existir e por quê de estar ali. De fato, Charlie Brown é um perdedor nato. Porém o gostoso é ver que Charlie Brown aceita sua condição, mesmo no calor da inocência, e sempre está lá para mais uma partida de xadrez, mais uma partida de beisebol, mesmo sabendo que dificilmente ganhará alguma vez (afinal já são mais de 10 mil partidas sem ganhar nada). Charlie Brown nunca desiste. Isto faz dele um herói.

Tudo o que foi dito acima poderia ser trágico, mas foi retrato com um humor fino e agradável por Charles Schulz, o pessimista criador de Peanuts, as tiras em quadrinhos que foram publicadas diariamente em diversos periódicos nas mais diversas línguas entre 1950 e 2000. Schulz é o pai de uma série de personagens inesquecíveis, como o cachorro Snoopy, Lucy, Linus, Paty Pimentinha e, claro, o bom e velho Charlie Brown. Charles Schulz, figura notória, foi um dos mais bem pagos quadrinistas de todos os tempos: chegava a ganhar entre 30 e 40 milhões de dólares por ano. Seus produtos até hoje são comumente licenciados, sendo que Peanuts é uma franquia de sucesso.

Suas tiras foram compiladas numa edição nobre, tão nobre quanto o seu ator, e começaram a sair por aqui pela editora LP&M, com o mesmo tratamento dado lá fora, ou seja, em edições de alto nível. Neste primeiro volume temos compiladas as tiras publicadas entre 1950 e 1952, o início de tudo. É interessante observar os costumes da época, inclusive os brinquedos, assim como a evolução do próprio mundo. Num exemplo, a chegada em massa das televisões para os lares americanos, que contagiou até mesmo Snoopy, que instalou uma antena de televisão em sua casinha de cachorro.

Como bônus, temos uma bela introdução, uma grandiosa biografia com detalhes curiosos sobre a vida de Charles Schulz e uma extensa entrevista com o autor, que revela coisas muito interessantes, como o espanto por sua obra ter se tornado tão grande, assim como a rejeição pelo nome Peanuts, a qual se diz amargurado até o fim de sua vida, nome que considera de mal gosto e obsceno. Revela também o paralelo entre o homem Schulz e Charlie Brown, cujos ambos os pais possuem uma barbearia, observam o quanto é difícil serem eles mesmos.

Charlie Brown não gosta de si, nem de sua vida. Numa tira ele reclama de como sua vida é ruim e alguém lhe diz que ele é muito jovem para reclamar tanto. Que ainda há muitos anos de vida pela frente. Então Charlie Brown diz: "é isto que eu tenho medo". Que a vida seja um tédio por tanto tempo. Tudo isto é dito sem drama, na forma inocente como as crianças se expressam. Charlie Brown necessita ser amado. Ele precisa de atenção, porém está sempre sendo rejeitado. Mas o que fazer? Tudo bem, a vida continua.

Por isto nos identificamos tanto com as personagens de Peanuts! Não só com Charlie Brown, mas todos os outros são igualmente especiais e marcantes. Lucy, de certa maneira até maquiavélica, gosta de aprontar. Gosta de torrar a paciência dos outros. Snoopy é o melhor cachorro de todos, mesmo sendo preguiçoso e inconveniente na maior parte das vezes.

Enfim, Peanuts é uma das tiras mais bacanas com a temática existencialismo. Questões filosóficas são tratadas com muito humor. Tenho certeza que ao adquirir este álbum você terá certeza que cada centavo do seu dinheiro terá valido a pena. Peanuts não se trata apenas de entretenimento, mas de enriquecer sua bagagem intelectual. De fazer você refletir em questões simples, porém com respostas complexas (quando elas existem). Quando esquecermos um pouco sobre do que se trata a vida, nada como Peanuts para nos reencontrarmos.

Peanuts Completo - Volume 1
Charles Schulz
LP&M Editora
3ª edição - 20089- 350 páginas

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Bullet With Butterfly Wings

Demasiadamente estranha pode ser a linha da existência. Afinal, para quê existimos? Para formular alguma resposta viável precisaríamos considerar outros mistérios precedentes a este. Temos, porém, elementos que nos fazem acreditar que a existência não possue significação em si mesma. Neste caso, existir é um mero acidente e viver é o grande desafio.

Durante a vida, somos explorados pelo simples fato de existir. De fato, o condicionamento das pessoas em aceitar tal condição é outro mistério tão grande quanto o divino, visto que o mundo é como um vampiro que suga a nossa energia, nos cansa e nos enfraquece. Se há algo de oculto no mundo é esta força que age por trás do sistema que te impulsiona para uma batalha dolorida e desgastante, onde nada recebemos por tanta dor que sentimos quando pensamos em nós mesmos.

Quando surgem sonhos, somos iludidos a acreditar que tudo é possível sem antes analisarmos os perigos por trás da ousadia de querer seguir adiante. Nossos desejos, na verdade, são apenas artefatos para alimentar a sede do Deus-Dinheiro: quanto mais nos frustamos, mais desejamos. Quanto mais desejamos, mais gastamos. Quanto mais gastamos, mais corroemos nossa alma.

Apesar de sabermos o quão é difícil manter uma posição contrária ao sistema opressor, continuamos a seguir por esta linha. Afinal, mesmo que só traga sofrimento é o nosso único resquício de autenticidade - a última parcela humana dentro de nós. Por isto não podemos nos cansar, somos soldados solitários e esperamos que a humanidade abra os olhos para aquilo que acontece ao redor. Para isto a minha contenda é escrever na esperança que leiam. Ao ler, espero que aqueles que não enxergam passem a enxergar.

Porém sei o quão difícil é esta guerra, pois apesar de gritarmos, protestarmos e escrevermos, apesar de tanta paixão que desprendemos nesta causa, somos como ratos trancados numa gaiola. As pessoas pararam de acreditar e aceitaram que estão condenadas. Afinal aceitar o que não se pode mudar pode ser um alívio enquanto houver vida. Porém esta vida é vida-morta ao vivermos como mortos-vivos. Enquanto não me ouvirem, continuaremos engaiolados.

Quando deixaram de acreditar arrancaram minhas armas e aqui me encontro nú, escrevendo palavras que nem sequer sei se um dia serão lidas por alguém. Sou ou não sou mesmo como um animal, ao falar num idioma que ninguém consegue compreender? Ao menos finjam e me aceitem como sou! Claro que minha voz agride os ouvidos de quem quer escutar, porém peço para me aceitarem por apenas mais alguns instantes, pois em breve não estarei mais com vocês, afinal não suporto dividir o meu palanque com tão impuros espíritos.

Com esta atitude pobre o que você pretende para a sua vida e a dos seus filhos? Você realmente está satisfeito com o que acontece? Pois eu quero mudar desesperadamente este nosso percurso! Não dá mais para continuar assim... O que você ganha por se sentir exatamente assim? Sei que as coisas não vão bem, então porque não mudar?

Bem que gostaria de ser o escolhido. Com toda a minha visão, certamente seria eleito o novo salvador, afinal Jesus com suas ideias foi tão aplaudido antes, imagina eu? Imagine a quantidade de seguidores que iria adquirir se minhas palavras pudessem expandir para o mundo? Afinal o próprio filho de Deus não foi o único? Ao menos para você eu sei que ele foi. Então confie em mim e deixe me neste frio e gelado velho trabalho.

Smashing Pumpkins, Bullet With Butterfly Wings

The world is a vampire, sent to drain
O mundo é um vampiro, enviado pra sugar
Secret destroyers, hold you up to the flames
Destruídores furtivos, te fazem enfrentar as chamas
And what do I get for my pain?
E o quê que ganho, pela minha dor?
Betrayed desires, and a piece of the game
Desejos traídos, e as moedas do negócio

Even though I know - I suppose Ill show
Apesar de saber – acredito que continuarei
All my cool and cold-like old job
Neste meu frio e gelado velho trabalho

Despite all my rage Im still just a rat in a cage
Apesar da minha fúria sou apenas um rato engaiolado
Then someone will say what is lost can never be saved
E alguem dirá que o que está perdido não se pode recuperar
Despite all my rage Im still just a rat in a cage
Apesar da minha fúria sou apenas um rato engaiolado

Now Im naked, nothing but an animal
Agora estou nu, nada mais que um animal
But can you fake it, for just one more show?
Mas dá pra você fingir, pra apenas mais um show?
And what do you want, I want to change
E o que você prentende? Eu quero mudar
And what have you got when you feel the same
E o que você recebe por se sentir o mesmo?

Tell me Im the only one
Diga-me que sou o único
Tell me theres no other one
Diga-me que não há outro alguem
Jesus was an only son
Jesus era filho único
Tell me Im the chosen one
Diga-me que eu sou o escolhido
Jesus was an only son... for you
Jesus era filho único...pra você

sábado, 16 de maio de 2009

Sobre Escolhas e Riscos


A existência é misteriosamente excitante e magnífica. Desde o princípio estamos certo de algo: sobre o início (o nascimento) e sobre o fim (a morte). Nestes dois estágios, não há distinção de credo, cor, naturalidade, orientação política e/ou sexual: todos nascemos pelados, todos morremos sozinhos.

No mais, o início e o fim não estão relacionados diretamente. O elo que conecta um estado ao outro é o que chamamos de vida. É na vida que ocorrem as experiências responsáveis por formar o nosso núcleo central que possibilitam a convivência em sociedade. Aqui sim temos influência direta no meio, principalmente no que se refere à cultura e à política.

Entretanto há exceções a regra. Nossa vida é composta por um sem número de ramificações e caminhos que devemos seguir. De fato, existir é escolher. Sartre e Ortega y Gasset já discorreram o quão penosos é para o homem ter que enfrentar um oceano de decisões. Portanto algumas ele simplesmente ignoram e permitem que o meio escolha por ele. É o chamado 'efeito dominó'.

No 'efeito dominó', apenas aceitamos a decisão da maioria. A decisão da maioria provém de um líder, que decide o que é melhor para si e a maioria simplesmente aceita. Seja por indiferença, seja por falta de vontade, ou seja, por dor, tomar decisões é algo estressante e consome o ser. Porém não fazer nada também é uma escolha.

Entre tantas escolhas que temos que optar para um mesmo problema encontramos, ao menos, duas: uma que reside no caminho do bem e outra que reside no caminho do mal. As duas muitas vezes se confundem, pois um caminho pode representar o bem para uma pessoal e o mal para diversas outras (como quando alguém se favorece deslealmente em relação aos demais) ou vice-versa (como no caso do sacrifício de um para um benefício maior).

Todavia há escolhas que não nos confundem. Sabemos exatamente o que elas representam a para onde pode nos levar. Entra, em cena, o bom senso para nos guiar. Porém há pessoas que não utilizam do bom senso. Optam por agir pela simples emoção em pró de um risco assumido. Às vezes se dão bem, outras vezes nem tanto. Se o risco vale a pena irá depender da experiência de cada um e o quanto está em jogo. Como num carteado, você pode ficar rico ou pobre numa jogada que envolve altos valores. Simplesmente será obrigado a confiar na própria sorte: aqui não se trata de predestinação, somente de jogar a moeda e ver qual lado sorri para você.

Sendo racionais, é possível estabelecermos metas em nossas escolhas. Por exemplo: Você tem um caminho A e um caminho B que te levam para o caminho Z. Enquanto o A te leva diretamente para lá, o caminho B tem alguns obstáculos e pode lhe levar, arbitrariamente, a dois fatos: o fato C (que você deseja muito) e o fato D (que você quer evitar a qualquer custo). Se a tua sorte te arremessar para o fato C, você chegará ao caminho Z e será recompensado pelo seu objeto de desejo. Se o fato D se consumar, você jamais chegará ao Z e terá que trilhar o caminho Y, que será extremamente penoso e dolorido.


Calcular o risco é algo extremamente difícil, mas uma simples questão pode ajudar: o fato C é mais importante do o caminho Z? Outra pergunta: se ocorrer o fato D, você estaria disposto a percorrer o caminho Y? Se a resposta para as duas questões for 'não' é simples: fique com o caminho A.

Há pessoas que irão falar que viver é arriscar, mas isto não é essencialmente verdade. Viver é cumprir metas e surpreender-se com o imprevisível. Arriscar-se naquilo que você pode prever, em muitos casos, pode ser tolice. Em outros casos realmente vale a pena, pois o risco com a perca é menor do que o benefício com os ganhos. Ou seja, a vida não se restringe à avaliar riscos. Situações sim estão sujeitas à arriscar-se. Tudo, entretanto, é uma questão de escolhas.

Trilhar o caminho do bem pode parecer pacato, numa realidade onde ousadia é a palavra da moda, porém a vida simples sempre será a mais benéfica: a história esta aí para provar isto. Ser sofisticado, muitas vezes, representa um ciclo constante de frustrações e decepções. Outra: arriscar vicia. Quem arrisca uma vez só para quando perde tudo. Ousar também tem o seu preço. Às vezes você ganha, as vezes você perde, porém somente você, com sua bagagem, poderá saber se os seus riscos são justificáveis por um bem maior.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Donnie Darko - Uma Análise: Parte XI


Ver Donnie Darko - Uma Análise: Parte X

Smurfs, Complexo de Édipo e Desejos Sexuais


Temos uma cena onde Donnie Darko, em terapia com a Dra. Thurman, é hipnotizado de modo que o seu inconsciente possa dizer alguma coisa de relevante a respeito de seu estado esquizofrênico(dado que havia revelado em uma outra sessão que havia ganho um amigo imaginário). No diálogo que se sucede, o protagonista afirma que conheceu uma garota (Gretchen) e que tem vontade de fazer sexo com ela e começa a divagar sobre os seus impulsos citando o sitcom Married... With Children e a fantasia que tinha de fazer sexo com Christina Applegate, a atriz que interpreta uma típica garota bonita sem nada na cabeça.

Como Donnie começa a tomar rumos diferentes do que a psiquiatra esperava, ela decide retomar o controle da sessão e o questiona sobre os seus pais. Donnie sorrindo diz que ele não pensa em fazer sexo com sua família, que isto é nojento e começa a se masturbar. Imediatamente a Dra. Thurman interrompe a hipnose e Donnie acorda assustado, constrangido por observar seu zíper aberto e suas mãos sobre sua genitália.

Num filme de teor existencialista todos os elementos são inseridos propositalmente, de modo que enriqueça ainda mais a trama. Ou seja, esta cena dá algumas pistas sobre a psicologia do personagem título do filme. Há leituras que irão dizer que grande parte da história se dá em consequência aos desejos sexuais reprimidos de Donnie em sua adolescência. Esta hipótese não deve simplesmente ser destacada e esta cena pode costurar alguns pontos que pareciam desconectados até então.

Donnie Darko tem apenas 16 anos, idade transitória entre ser uma criança e ser um adulto. Neste período começamos a querer experimentar algumas sensações adultas sem abandonar, em definitivo, a infantilidade. Este choque entre os dois estados causa uma série de reações, como rebeldia, ansiedade, pressão e afins. Donnie, como bem sabemos, não se sente parte do todo, porém tem as mesmas vontades que um adolescente comum e isto lhe deixará muito frustrado, visto que esta distância entre ele e os demais seres trará ainda mais dificuldades para extravasar os seus deleites. Principalmente no que concerne ao sexo, visto que esta é uma relação entre duas pessoas.

Portanto podemos concluir que Donnie Darko é um adolescente que tem os seus desejos sexuais reprimidos pelo modo como a sociedade lhe aparece - com algo que não lhe apetece - e como ele aparece para a sociedade - como um ser estranho inserido fora de hora - de modo que uma relação entre estes dois pontos opostos parece impossível, visto que Donnie está num plano X enquanto o resto vigora num plano Y.

Sendo o sexo uma condição libertadora de nossa natureza animal, e uma vez que Donnie tem sérias dificuldades em atender aos seus desejos, é mister que ele se torne cada vez mais contido, reprimido e pressionado, o que poderia afetar o seu juízo e até mesmo aumentar seu estado histérico e esquizofrênico. Uma coisa é certa: se o sexo não está diretamente posicionado no consciente do protagonista, certamente figura vivo em seu inconsciente.

Talvez seja por isto que, enquanto hipnotizado, Donnie irá conseguir falar somente sobre este assunto. Temos ainda um problema que Jim Emerson observou com muita competência e convicção: Que Donnie Darko pode, ainda que inconscientemente, estar apaixonado por Elizabeth Darko, sua irmã mais velha. Senão apaixonado, certamente com vontade de manter relações sexuais com ela.

Sendo Donnie uma figura problemática distante da realidade, todo o seu ciclo afetivo de relacionamento está enraizado dentro de sua família. Sua irmã mais velha, com o corpo já inteiramente formado, atraente e iniciada na vida sexual, é a candidata mais próxima para alentar a curiosidade e o desejo do personagem principal. Caso ela não existisse, talvez a sua mãe fosse o objeto de sua obsessão. Para aceitarmos esta ideia, basta entender o conceito freudiano chamado Complexo de Édipo, onde, em poucas palavras, quando a criança se dá conta da diferença de sexos ela passa a sentir uma maior atração por seres do sexo oposto no ambiente familiar.

Embora o conceito pareça algo bastante improvável numa primeira leitura, Freud irá ser convincente ao explanar sobre o tema: os sentimentos de amor e hostilidade provenientes da criança são gerados por uma quebra de comportamentos no único mundo a qual ela conhecia. Neste mundo ela era a figura central dentro de seu lar. A partir de uma certa idade, a criança começa a sofrer reprimendas e ela começa a descobrir que não é mais o centro de tudo. Ela passa a comer sozinha, não poder dormir mais na cama dos seus pais e não vislumbrar mais a nudez de seus familiares. Isto irá gerar uma tensão inconsciente entre a criança e seus pais, sendo que ele reconhecerá no familiar do mesmo sexo um inimigo em potencial. No caso do menino, ele irá verificar que sua mãe "pertence" ao seu pai, e não a ele. Isto irá gerar uma contradição de sentimentos entre hostilidade a amor com a figura paterna, uma vez que os dois coexistem em seu inconsciente. É como se o responsável por toda a inversão daquele mundo egocêntrico fosse o seu pai. Como o menino interpretará que o inimigo é o seu pai, todos os demais sentimentos benéficos serão presenteados para os seus familiares de sexo oposto.

Quando surge o apetite sexual pela primeira vez, ele deverá surgir para estas figuras de sexo oposto ao seu por um único motivo: nossos familiares são os únicos que fazem parte de nossa iniciação social. Se fosse possível "nascer" sem um pai e uma mãe, as coisas poderiam ser diferentes. Então o desejo sexual dentro da família não surge como uma espécie de fantasia, mas como a única possibilidade disponível para desejar.

Ou seja, Donnie pode sim sentir fortes impulsos sexuais por sua irmã mais velha, pois mesmo depois de crescer, ele continua afastado da sociedade e vê dentro do seu lar a resolução de algumas de suas vontades. Sendo Donnie Darko um filme que visa criticar padrões sociais (normas, éticas e tabus) esta hipótese me parece bastante razoável, no caso uma intenção de incesto por parte do protagonista.

Alguns pontos do filme irão dar consistência à esta hipótese. Ao retomar a cena a qual iniciamos esta análise, o inconsciente de Donnie fala somente sobre uma coisa: sexo. Logo ele irá ampliar a sua volúpia (visível em sua face) ao lembrar do sitcom "Married... With Childrens" e manifestar sua vontade em ter relações sexuais com Christina Applegate, que interpreta Kelly Bundy, personagem promíscua que evidencia o nosso argumento, afinal ela é a irmã mais velha da família central do antigo seriado. Por fim, Donnie chega ao êxtase: quando questionado sobre sua família, sua face fica ainda mais cheia de desejo, diz ironicamente que isto é muito nojento e começa a se masturbar. Logo temos uma associação entre as chaves sexo, irmã mais velha, fantasia e família.

Embora esta cena seja fundamental para sustentar este argumento, temos outras cenas que dão pistas que levam nesta direção: logo no início do filme, no jantar em família, Donnie Darko provoca a sua irmã mais velha com palavras chulas de modo que ele se delicia com o diálogo: Elizabeth diz "Porque você não vai chupar rola?" e Donnie retribui "Me diga, Elizabeth, como é exatamente chupar uma rola", de modo que ela retruca "Você quer mesmo saber?" e ele diz, levando a mão a sua orelha, "Por favor, me diga”. Isto, involuntariamente, deve provocar em Donnie uma certa excitação.

Como Donnie vive num mundo cercado de regras éticas e condutas morais, ele vive, conforme mencionado anteriormente, um constante estado de repreensão sexual. De fato, enfrentar sua puberdade não deve ser algo muito fácil para o protagonista. Outra cena onde podemos notar a melancolia de Donnie referente a este assunto está no diálogo que os colegas da escola de Donnie estão tendo a respeito dos Smurfs. Enquanto o diálogo infante e em tom de gracejo entre os colegas dizia respeito sobre a Smurfette como uma meretriz dos Smurfs, Donnie, levando a discussão a sério, triste finaliza o assunto dizendo que os Smurfs eram seres assexuados e que não tinham nada por dentro de suas calças, logo qual era o sentido em ser um Smurfs visto que não haveria o por que viver sem um órgão sexual. Estaria Donnie Darko questionando sua própria existência uma vez que ele jamais iria satisfazer seus desejos? Seria ele também um Smurf?

O quanto este desejo sexual reprimido influencia o comportamento de Donnie perante o filme e o quanto suas alucinações poderiam ser causadas por este motivo não será assunto de nossas análises, porém chegamos a algo importante em relação ao personagem: Donnie Darko sofre por não dar evasão aos seus desejos sexuais.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Donnie Darko - Uma Análise: Parte X


Ver Donnie Darko - Uma Análise: Parte IX

Nesta sentença temos um dos grandes mistérios para desvendar: "Eles me obrigaram a fazer isto". Numa das aparições noturnas de Frank, o coelho macabro orienta Donnie a pegar um machado e ir até a sua escola. O protagonista faz um estrago suficiente para inundar todo o local, de modo que no outro dia as aulas são suspensas. Como consequência da ação, ele acaba por conhecer Gretchen, o que é fundamental para a continuidade da história.

Porém acontecem dois fatos estranhos:
1) no monumento central da escola, conhecido como "Mestiço", o machado está fincado em sua cabeça;
2) ao redor do "Mestiço" está pichado: "They made me do it" (em português, "Eles me obrigaram a fazer isto");

Duas peças para compor o quebra-cabeça. Seria Donnie Darko o responsável por ambas as façanhas? Possivelmente sim, porém porque ele faria isto se o objetivo do ataque era somente romper com a tubulação de água do colégio? Voltemos as estas duas questões mais tarde.

Quanto ao segundo fato, devemos apontar que a letra encontrada no pátio onde lemos "They made me do it" não é de Donnie - tanto é que observamos uma significativa diferença entre as duas grafias quando uma investigação exige que todos os alunos escrevam a sentença na lousa. Até há uma desconfiança por parte do investigador principal, porém está mais relacionada ao comportamento nervoso do protagonista do que pela grafia em si. Então quem teria escrito a frase? E para quê?

No decorrer do filme há uma cena que responde a questão de quem escreveu a frase: numa festa na casa de Donnie há um recado na geladeira com a mesma caligrafia. Se trata de Frank, o namorado de Samantha Darko. Se você viu o filme não é novidade dizer que Frank, o coelho e Frank, o cunhado, são a mesma pessoa.

Neste caso surge a questão: o quê Frank quer dizer com a frase? Seria um pedido de desculpas? Neste caso, ele não estaria deixando mais evidente que alguém havia cometido um ato de bullying, ao invés de ficar calado e não correr o risco de ter Donnie descoberto? E mais, quem são "eles"?

São muitas as questões e poucas as respostas. No caso, talvez esta não seja a explicação mais convincente, porém acredito que Frank fez ambas as travessuras, através de Donnie, apenas para demonstrar o quão absurda pode ser a existência. Ou seja, a intenção é apenas de chocar as pessoas, tentar despertá-las do sonho aparente da vida, colocar os seus mundos de cabeça para baixo, assim como a chuva de sapos no filme Magnólia (embora ali tenha uma ligação bíblica com o livro Êxodus 8:2).

Numa visão existencialista, o machado funciona como um espécie de objeto de estranheza que irá interceder no comportamento das pessoas para que elas entendam que, na vida, tudo é possível. Desta forma, Frank ironicamente decide trazer um pouco de confusão as pessoas. Esta confusão serve para desorganizar os padrões que figuram numa situação em comum. Então Frank insere o anormal e o incomum num contexto de normalidade, de modo que as exclamações são substituídas por pontos de interrogação.

Se aceitarmos esta tese, podemos especular que na sentença "Eles me obrigaram a fazer isto", Frank está enviando uma mensagem diretamente para nós, que assistimos o filme. Este tipo de interação não seria tão surpreendente, porém não menos empolgante. Do mesmo modo que Frank fala com Donnie, desta vez ele fala conosco. O "eles", então, são os personagens do filme que pensam igual à todo mundo.

É como se Frank dissesse "Fulano aí de casa, eles me obrigaram a fazer isto justamente porque estão tão presos as suas vidas medíocres que eu - visto que tenho o poder de fazer o que quiser - não tive escolha a não ser colocar dúvida no lugar da certeza em suas cabeças (assim como fiz na cabeça de vocês)".

A evidência deste poder de fazer o que ele bem entender é dito pelo próprio Frank num diálogo com Donnie Darko (na cena do banheiro, após ele convidar Gretchen para sair, onde o protagonista questiona Frank, que por sua vez diz "Eu posso fazer tudo o que quiser (...)".

Uma vez que o filme permite uma série de análises e a minha é feita sob a ótica do existencialismo enquanto movimento filosófico, acredito que podemos tentar desvendar este dificílimo mistério através do raciocínio demonstrado neste capítulo.

domingo, 28 de setembro de 2008

Marmieládov

Este artigo faz parte de uma série que visa analisar a obra Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Para conhecer todos os outros textos que já foram públicados sobre este assunto neste blog, clique aqui.

(...) é na bebida que procuro a compaixão e o sentimento (...) Bebo porque quero exclusivamente sofrer.” – Marmieládov

Este é um personagem chave na condução da história de Crime e Castigo, principalmente no que cerne as tomadas de decisões do protagonista Raskólnikov.

Marmieládov é um perdedor confesso. Marmieládov, víuvo e com uma filha de quatorze anos, decide se casar com Catierina Ivánovna, recém víuva com três filhos pequenos e desamparada por seus pais. A situação de Carierina Ivánovna é comovente e Marmieládov decide cuidar dela e dos pequenos por toda a sua vida. É uma figura apaixonada por sua esposa e a admira muito por todo o seu histórico, de tal modo que quando é demitido de seu emprego, um ano após o casamento, não aguenta o baque e se entrega a bebida.

Depois de um ano e meio desempregado, consegue um novo emprego, porém perde na sequência por sua própria culpa, provavelmente graças aos problemas ocasionados pelo alcoolismo. Com o aluguel atrasado e pressionado pela condições de miséria a qual vive toda a sua família, vê sua filha do primeiro casamento tornar-se uma prostituta para sustentar a casa. A vergonha desta situação faz com quê Marmieládov reclame o seu emprego de volta com o antigo chefe, que comovido com sua história, decide empregar novamente o ex-funcionário.

A notícia é recebida pela família com muita alegria e esperança, porém após uma semana, Marmieladóv pega todo o dinheiro arrecadado até então e some de casa para gastar tudo em bebida. Logo quando o dinheiro acaba, recorre a Sônia – sua filha prostituta – para pegar dinheiro para beber mais.

Todo este relato é descrito para Raskólnikov em uma taberna onde Marmieládov bebê. Todos conhecem a sua história. Raskólnikov o leva de volta para sua família e questiona se todos os homes não seriam sacanas por natureza, afinal porque Marmieládov, depois de tantas oportunidades, continuava fazendo estas coisas, como bebendo e fugindo?

Marmieládov é extremamente complexo. Faz parte da habilidade de Dostoévski criar personagens psicologicamente confusos, ou seja, eles mesmos estão presenciando uma batalha interna e procuram uma definição para os seus males. Podemos, assim, imaginar que Marmieládov é uma figura que busca uma auto-punição por não ter sido capaz de cumprir com aquilo que havia prometido. Ele quer, com isto, buscar infinitamente a dor mais aguda que possa existir. Conforme fosse odiado além dos limites do próprio ódio, imaginava que seria mais fácil de viver com toda a bagagem mísera que leva em seus pensamentos.

Quanto mais apanhasse, fosse xingado e visto com maus olhos, mais perto de sofrer aquilo que ele considerava justo por tudo aquilo que fez com os seus entes. Enfim, considerava-se merecedor de todo sofrimento.

Coincidentemente, é nesta figura sofrível que Raskólnikov encontra a sua salvação. Em dado momento, enquanto Raskólnikov caminha em meio à uma ponte próxima ao apartamento das vítimas que ele assassinara dias atrás, um grupo de pessoas se agita em frente a um acidente que acaba por acontecer. Tudo indica que a vítima é fatal. Quando Raskólnikov se aproxima curioso para saber o que aconteceu, vislumbra que o pobre coitado esmagado por atropelamento é ninguém mais que Marmieládov. Raskólnikov decide ajudar com cuidados médicos, com a locomoção do ferido até a sua residência, e posteriormente, com a morte do personagem decorrente da tragédia, ajuda financeiramente a sua familia, inclusive no enterro.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Aliena Ivánovna

Este artigo faz parte de uma série que visa analisar a obra Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Para conhecer todos os outros textos que já foram públicados sobre este assunto neste blog, clique aqui.

Conforme as próprias palavras de Dostoévski, Aliena Ivánovna era “uma velhota pequerrucha, descarnada, de uns sessenta anos, olhos penetrantes e maus, nariz pontiaguda e cabeça descoberta. Os cabelos de um louro desbotado(...) O pescoço fino e longo como um pé-de-galinha(...)

Nem precisamos ter a imaginação tão apurada assim para logo associarmos a imagem de uma bruxa com a descrição de Aliena Ivánovna. De fato, Dostoiévski apresenta a velha usurária como uma pessoa má e que aproveita da condição desesperada e miserável do ser para enriquecer sem o menor constrangimento.

Aliena Ivánovna é uma espécie de agiota de nossos tempos. As pessoas vão até ela e penhoram os seus bens como garantia de pagamento de um empréstimo, cujo valor irá variar dependendo do objeto penhorado. Os juros cobrados por ela são astronômicos e em nenhum momento ela sente piedade por um de seus devedores, muito embora entenda que aqueles que vem até ela enxergam na velha a ultima possibilidade de se obter algum dinheiro.

São almas malditas que, quase beirando a insanidade, não vislumbram outra alternativa a não ser entrar num empréstimo destes, onde a propabilidade de pagamento é quase nula. Mesmo nesta condição quase animal, Aliena Ivánovna consegue ser fria, rígida e ver com total indiferença toda a situação, o que faz com que todos os seus clientes passem a odiá-la.

Ainda assim a velha aproveita da vergonha e humilhação de homens que não tiveram a sorte que a vida nos exige, ou que não souberam aproveitar a oportunidade que tiveram, para ficar sempre acima e manter o poder sobre eles. De certo, Aliena Ivánovna gosta de torturam psicologicamente as pessoas porque esta é uma forma de justificar para si mesmo que ela não é como eles. Que ela se enquadra num nível superior ao destes seres. Então, na miséria destes homens ela encontra um caminho para tentar ser feliz, ainda que de forma egoísta.

Raskólnikov é um destes clientes humilhados. A sua revolta é tanta com o tratamento recebido que ele decide que a usurária é um mal que precisa ser eliminado do mundo para que este se torne um lugar melhor para viver. Logo no princípio de Crime e Castigo, Raskólnikov planeja assassinar esta mulher em pró de um bem maior. Ele atinge o seu objetivo, porém a sua consciência oscila nos dias pós-crime.

sábado, 20 de setembro de 2008

Radiohead: The Tourist

Finalmente chegamos ao fim desta grande obra prima da música internacional. Com maestria, o Radiohead encerra este épico conceitual de forma brilhante, lenta e reflexiva. Na música anterior, havia uma certa tendência que apontava que nosso personagem havia se entregado e com isto iria viver uma vida rotineira e sem perigos.

De fato, é o que confirmamos no fim. Em The Tourist, o protagonista voltou para o estado que se encontrava antes da experiência catastrófica que levou um Airbag a salvar a sua vida. O sistema acabou por reprimir-lhe, eis que ele não aguentou tamanha pressão e deixou que fosse engolido para viver uma vida sem grandes emoções.

O tédio é parte integrante desta maneira de viver, assim como o estress, o nervosismo, a vontade de fazer tudo mais rápido mesmo sem saber para quê. Por isto somos chamados de idiotas. Os idiotas corporativos, que doam o seu sangue para sustentar todo um sistema que só se preocupa em enriquecer.

A mensagem mais forte no fim deste álbum é justamente alertar que estamos sozinhos na luta contra a toda poderosa máquina, e que por mais que lutemos a tendência é sermos constantemente vencidos. No contesto existencialista, é o aburso do existir que fala mais alto. Tudo depende da sua sorte de berço e do seu meio, de modo que não temos escolha. Por vezes até tentamos desviar daquilo que a vida projetou para nós, mas somos castigados por um crime não cometido, de tentar sobreviver ao caos predominante nestes tempos onde, como diria o Renato Russo, "Viver é foda, morrer é díficil". Ok, computador, você venceu.

The Tourist, ao vivo.

It barks at no one else but me
Ele late para ninguém mais senão para mim
Like it's seen a ghost
Como se tivesse visto um fantasma
I guess it seen the sparks a-flowing
Eu acho que ele viu a faisca fluindo
No one else would know
Ninguém mais saberia

Hey man slow down, slow down
Hei homem, devagar aí, devagar aí
Idiot, slow down, slow down
Idiota, devagar aí, devagar aí

Sometimes I get overcharged
Algumas vezes eu sou cobrado em excesso
That's when you see sparks
É quando você vê faísca
You ask me where the hell I'm going
Você me pergunta onde diabos estou indo
At a thousand feet per second
Há uns mil pés por segundo

Fim

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira: Análise

Acabo de sair do cinema. Me encontro em estado de êxtase contemplativo. Estou pasmo, feliz e um tanto quanto emocionado. Um dos meus maiores temores já não tem razão de ser, pois Fernando Meirelles conseguiu a façanha inédita de adaptar com maestria a obra maior de José Saramago. Creio que as palavras que melhor descrevem o meu estado neste momento são estas duas: orgasmo mental.

José Saramago, em minha franca opinião, é o melhor escritor de literatura de todos os tempos. Me desculpem Dostoiévski, Tolstói, Hemingway, Kafka, Dante, Herman Hesse, Fernando Pessoa - também amo todos estes - mas Saramago, além de sua excepcional criatividade, tem uma maneira singular de contar histórias: ele sabe escolher as palavras certas e como encaixá-las no texto, graças a sabedoria popular adquirida durante toda uma vida levada com simplicidade.

Sua narrativa é um espetáculo a parte e não posso simplesmente tentar explicar a sensação de ler um texto de Saramago justamente porque as palavras me limitam a fazer justiça à sua obra.

Li o livro Ensaio Sobre a Cegueira em Junho de 2001. Poucos dias se passaram entre o início e o fim, pois a história era tão instigante que não conseguia chegar à um ponto que me bastasse. Acabei por ficar tão envolvido com toda a magia do livro que não queria saber de mais nada, a não ser apreciar lentamente e com delicadeza página-por-página daquela história que nunca saiu de minha mente. Se tivesse que escolher apenas um livro para ler durante toda a minha vida, não hesitaria em escolher o Ensaio Sobre a Cegueira como principal candidato.

Este não é o único livro que li de Saramago. Ao contrário, faltam apenas alguns para que eu tome conhecimento de toda sua obra, porém o Ensaio chega a ser tão bom que ofusca outras histórias. Conforme estes meus comentarios, vocês devem imaginar que eu sou uma espécie de fanático pelo autor português, então imaginem a minha preocupação e angústia ao saber que a melhor história de todos os tempos seria filmada?

A primeira coisa que veio em minha mente foi: como? Como uma obra considerada por mim e por muitos como instransponível para as telas poderia ser filmada? Coisa boa é que não poderia surgir de tamanha ousadia. Desta forma, será que os realizadores do filme não iriam assassinar o livro dourado escrito em nosso tempo? Como ficariam os diálogos acídos de Saramago? Como eles poderiam ser traduzidos em imagens?

Não irei assistir! Pronto! Seria persistente em meu ponto-de-vista e valeria de minha teimosia para bater o pé e não ceder. Porém um vídeo no YouTube, que está logo abaixo deste parágrafo me fez mudar de idéia.


Nele, temos Saramago, ao lado de Meirelles, em lágrimas dizendo que a emoção que estava sentindo era a mesma de quando ele havia terminado de escrever o livro. Fiquei arrepiado dos pés a cabeça! O próprio autor havia dado o seu parecer, e de forma tão intensa que não havia como a adaptação ter ficado ruim. Enfim, fiquei ainda mais confuso e curioso. De certo, somente a decisão que iria, a qualquer custo, assistir a película no cinema.

Enfim, minha mente era um turbilhão de pensamentos. Eis que chega o grande dia. Quando entro no cinema entro também numa batalha contra todos os pré-conceitos formulados anteriormente. Tenho medo do resultado final. Desejo, com antecedência, que o filme seja ruim, pois então estaria vingado de todos os diretores que insistem em dizimar um autor consagrado ao tentar prostituir uma bela história nos cinemas hollywoodianos.

Deveria ter me recordado que do outro lado não estava qualquer diretor. Estava um que não insulta a mente do telespectador e que respeita a sua inteligência. O brasileiro Fernando Meirelles já provou que é um dos maiores nomes do cinema internacional. Em algumas entrevistas, ele disse que já foi convidado para dirigir grandes blockbusters, mas este não é o seu foco, mas sim fazer filmes tocantes. Foi assim anteriormente com Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel. Obviamente ele trataria com carinho o maior clássico de Saramago. Ele não entraria num projeto que considerasse inviável apenas para ganhar projeção. Meirelles, ao aceitar o desafio, teve coragem superior aos espartanos na batalha contra os persas. Era o seu nome e sua carreira que estava em jogo. E ele superou todas as minhas expectativas.

ATENÇÃO: Contém SPOILERS a respeito da história. Se não quiser saber o que acontee, então não leia o conteúdo abaixo.

O que aconteceria se as pessoas passassem, de súbito, a perder a visão – e não uma cegueira escura, mas branca, como uma luz cintilante e intensa? Este é o tema explorado por Saramago em seu livro de 1995. Por trás de uma idéia simples surge um leque tão grande de possibilidades que Saramago consegue explorar o que há de mais selvagem e humano nos homens e colocar-lhes em frente à um espelho: hora refletimos bestialidade, hora fragiidade.

Um homem, em meio ao trânsito, fica cego. Logo, outros vão ficando. Passa-se algumas semanas, e a proporção de cegos aumenta de forma que o governo e as forças armadas se vêem forçados a tomar medidas drásticas e colocar os infectados pela “maldição branca” em quarentena numa espécie de alojamento, de modo que acredita-se que o vírus seja contagioso. No começo apenas um casal fica encarcerado, mas em pouco tempo surgem dezenas e dezenas de pessoas, a maioria sem saber o que realmente está acontecendo. Quem está dentro desta prisão improvisada não tem contato algum com o mundo exterior.

Dentro desta situação, temos uma mulher que enxerga, que resolveu entrar em quarentena para ajudar o marido em sua cegueira. Porém ninguém, a não ser o próprio marido, sabe de sua condição. Logo, grupos irão se dividir, e eles entrarão em conflito por necessidades básicas. Depois são apenas os demônios presentes em cada ser que irão orientar o seu caminho, de modo que eles chegam a se tornar figuras selvagens de uma selva sem lei.

A primeira coisa a observar é o caráter existencialista da história: inesperadamente somos devastados com uma epidemia de cegueira. Em nenhum momento sabemos como ou porquê. Sendo os homens seres que entendem que são controladores de todas as situações, ao se deparar com tamanho absurdo entram em crise de identidade. Nestas situações extremas, a figura do homem real, sem influências e sem moderações, costuma aparecer de forma intensa e irracional. O homem tem a necessidade de explicar o início e o fim de todas as coisas, logo quando se depara com algo inesplicável, uma dor muito intensa toma conta de si, de modo que ele beira a falta de sanidade e passar a cometer atos inexplicáveis.

Ainda nesta linha existencialista, temos a figura de uma mulher que enxerga num universo de pessoas que só vêem branco a sua frente. No inicio ela acha que é questão de tempo até ficar cega, como todos os outros, porém logo ela entende que não irá perder a visão. Então porque ela? Como ela pode ser imune à algo que atinge a todos? São perguntas que não temos respostas em nenhum momento. O certo é que ela está sozinha. E a aparente vantagem que ela leva em relação ao resto se converge em sofrimento ao vislumbrar o que há de mais bárbaro nos atos dos homens. Como dizem no popular, as vezes é preferível não vermos do que vermos tantas coisas ruins. Esta é uma verdade.

O segundo ponto a ser observado é que a epidemia é de cegueira. Num mundo onde imagem é tudo, não acredito que Samarago inseriu a deficiência coletiva de forma desproposital. Ao contrário, ao retirar a visão das pessoas, o autor removeu toda a referência disponível para seres subordinados a apenas aquilo que vêem. Ele desnudou o homem e o colocou na frente do espelho para mostrar quem realmente é: o homem sem referência de imagens é um homem desesperado, pacato e covarde, que não se entende e não entende o que está ao seu redor. Imagens funcionam como signos de fé. Logo, acredito naquilo que eu vejo, pois o que eu vejo é evidência daquilo que realmente é. Porém com este raciocínio podemos concluir que quando não vemos não entendemos, logo, deixamos de existir.

O terceiro ponto inicial que gostaria de mencionar é a cegueira branca. No escuro, temos a tendência de ficarmos relaxados. Já no claro, ficamos mais agitados. O dia é para viver e a noite para dormir. Agora imagine que quando você fechasse os olhos, ao invés da escuridão, enxergasse um branco ofuscante como se tivesse olhando para o próprio sol? Como você iria conseguir dormir? Nesta linha, Saramago frisa que o homem começa, vagarosamente, uma jornada rumo a loucura. Sendo assim, cada dia que passa, mais próximos estamos de um colapso generalizado.

Somente com estes três pontos podemos apreciar a obra com um olhar mais crítico e contemplativo. Creio que Meirelles entendeu a sacada e se preocupou mais em trabalhar a trama e estes conceitos do que transpor os dialogos e a narrativa de Saramago no livro. E foi por isto que a adaptação foi estupenda. Justamente porque o filme não inibe o prazer de ler o livro mesmo após ter assistido o filme ou vice-versa.

A direção do filme é soberba e exemplar. É sombria, como deveria ser, e transita os nossos sentimentos entre o desespero e o alívio, a indignação e a resignação. A história não foi criada para ser bonita – ainda que seja – mas para dar um tapa em nossa cara e dizer: “Aí esta você! Acorde antes que seja tarde!”. Meirelles trabalha com o branco e o negro de forma mágica: tons desfocados são inseridos no canto da tela e ao fundo, as vezes temos sobreposições de imagens e efeitos fantasmas, quando então ele decide dilatar a pupila da câmera. Então somos arremessados num mar de leite, a tela fica branca, os diálogos são construídos sob a perspectiva das personagens e quase nos tornamos um deles.

Algumas cenas são perturbadoras e deixarão cicatrizes por anos em minha mente. Servirá para lembrar que para situações extremas podemos esperar atitudes extremas, ainda que sem justificativas. É o desencontro do homem. A fuga que ele necessita para acobertar suas atrocidades sem sentimento de culpa. No fim, jogamos a dignidadade numa lata de lixo e o que nos sobra é este nada que representa o ser humano no contexto universal. Não um nada no sentido mais vazio, mas um nada quando comparado que ele não é a única força que reje o mundo e que a própria vida tem as suas regras que desconhecemos, sendo que todos estão sujeitos a sofrerem as consequências dela.

Na busca pela sobrevivência acabamos por nos encontrar novamente e vemos uma outra face no espelho. Ficamos envergonhados de certos atos ao fazer uma genealogia de nossa vida. É tempo de recomeçar e aceitar as coisas como elas são. Esta é a única maneira de recuperar a nossa dignidade e extrair alguma bonificação que a vida possa nos dar: aprendendo a conviver consigo mesmo, assim como entendendo suas limitações.

Belíssimo! Belíssimo!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Radiohead: Lucky

Esta canção está envolvida por um mistério. Sua letra é um contraste da melancólica melodia. Fala sobre o sentimento que muitas vezes temos onde a sorte parece mudar a nosso favor. Sabe quando a tormenta é tão densa que quando ela diminui nos sentimos tão aliviados que achamos que tudo está bem? O Radiohead talvez esteja por tratar disto.

Não há como ter certeza, o que não poderia ser diferente num album tão genial como este, porém ele diz "Eu estou numa roda" e isto permite uma associação com o antigo conceito da roda da fortuna, onde o homem em dado momento está por cima, em outro está por baixo, sem que aja um lógica exata para explicar porque isto acontece. Segundo este conceito, é a sorte que vai determinar como você está hoje.

Outra coisa que pode ser levada em consideração é uma provocação: o protagonista não estaria sendo seduzido por uma vida inautêntica? Não estaria ele aceitando as coisas como são, de modo que tenha desistido de tentar lutar contra o sistema? Não seria esta aceitação do absurdo que o levou a achar que é a sorte que estava mudando o seu ponto de vista?

Os questionamentos acima têm origem no vídeoclip oficial, que mostra uma série de barbáries cometidas com crianças, consequências da guerra e abuso de poder. E ainda assim, como é possível que as pessoas ainda conseguem sorrir com tantas coisas ruins acontecendo ao nosso redor?

Somente um estado de condicionamento poderia nos levar a esquecer de certos problemas sociais, de forma que olhar para tantas atrocidades e ainda assim poder viver em total indiferença é sorte para poucos.

Videoclip oficial de Lucky

I'm on a roll, I'm on a roll
Eu estou numa roda, eu estou numa roda,
This time, I feel my luck could change
Desta vez, eu sinto que minha sorte mudará
Kill me Sarah, kill me again with love
Mate-me Sarah, mate-me novamente com amor
It's gonna be a glorious day
Este será um dia glorioso

Pull me out of the aircrash
Tire me do acidente aéreo
Pull me out of the lake
Tire me do lago
I'm your superhero
Eu sou seu superherói
We are standing on the edge
Nós permaneceremos no limite

The Head of State has called for me by name
O Chefe de Estado chamou por meu nome
But I don't have time for him
Mas eu não tenho tempo para ele
It's gonna be a glorious day
Este será um dia glorioso
I feel my luck could change
Eu sinto que minha sorte irá mudar

A seguir,  The Tourist.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Radiohead: No Surprises

Desta vez o Radiohead nos alerta para os perigos de uma vida-padrão. Ou seja, todo mundo igual a todo mundo. Mais uma vez o foco é a previsibilidade e a distância do homem consigo mesmo.

Poderíamos falar horas e horas sobre todos os sintomas que indicam que os seres, neste tempo mais do que em outros, vivem uniformizados ao pensar sobre uma mesma coisa e sobre uma mesma idéia.

Nos versos desta bela canção, o homem é retratado como uma figura sem expressão, e esta não-expressão aparenta uma certa melancolia presente na face de um ser sem razão de ser. Uma vida que não é, mas vai sendo, onde as coisas sempre são projetadas para um amanhã que nunca irá chegar.

Os planos que são adiados representam a calmaria em viver esta espécie de vida distraída. A distração é um anestésico que permite que cheguemos ao fim deixando uma série de coisas para fazer, e assim temos uma vida sem alarmes e sem surpresas, estamos tão condicionados que nos tornamos invisíveis para o mundo. Como o Radiohead diz, silenciosos.

Vídeoclip oficial de No Surprises

A heart that's full up like a landfill,
Um coração que está completo como um lixão,
a job that slowly kills you,
Um emprego que lentamente lhe assassina,
bruises that won't heal.
Feridas que não vão cicatrizar.
You look so tired-unhappy,
Você parece tão cansado e infeliz,
bring down the government,
Menospreze o governo,
they don't, they don't speak for us.
Eles não, eles não falam por nós.
I'll take a quiet life,
Eu irei ter uma vida tranquila,
a handshake of carbon monoxide,
um cumprimento de monóxido de carbono.

with no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
Silent silent.
Silêncioso, silêncioso.

This is my final fit,
Este é o meu ataque final,
my final bellyache,
Minha ultima dor de barriga.

with no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises,
Sem alarmes e sem supresas,
no alarms and no surprises please.
Sem alarmes e sem supresas,

Such a pretty house
Uma linda casa assim
and such a pretty garden.
E um jardim lindo assim.

A seguir, Lucky.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Radiohead: Climbing Up The Wall

Nesta música lenta, com o vocal distorcido, o Radiohead divaga sobre um assunto frequente em nossa atual sociedade: a violência e o crime.

A letra retrata uma invasão a residência, todos os passos frios e cruéis do lado do agressor e o retrato da frieza e crueldade de quem já fez do ato uma profissão.

Para nós, resta apenas o medo: "Quinze golpes atrás de minha cabeça. Quinze golpes em minha mente". Esta sentença soa como "Quem bate não se recorda, mas quem apanha nunca se esquece".

"Não berre ou toque o alarme, somos amigos até morrermos" / "E tanto faz onde você for, eu estarei ali, abrindo seu crânio"

Nós, quando vítimas ou espectadores, ficamos sem entender porque as coisas são assim. Porque nos esforçamos tanto para ter as coisas para depois alguém, covardemente - e toda a covardia é cruel, tomar de nós de forma brutal e inconsequente. Aqui estão vidas que jamais serão as mesmas novamente, afinal uma cicatriz foi aberta para jamais ser fechada: o medo do próprio homem, animal da mesma espécie.

Mas porque o Radiohead ressalta uma temática tão abrangente num album que diz sobre os perigos da tecnologia, da alienação e do condicionamento? Obviamente o roubo e o furto não são doenças que surgiram em nosso tempo, há registros de incidentes desta natureza há milhares de anos. Porém, em nosso tempo, surge um certo prazer em fazer o mal.

Antes, o criminoso roubava para suprir uma necessidade monetária, matava para cumprir um objetivo. Hoje estas práticas são quase que um esporte. Há pessoas que gostam de torturar, de testar os limites do homem, de romper com a mais ínfima dignidade presente no coração mais negro possível. Eles matam por prazer. Sabendo disto temos medo, pois o perigo de morte nunca foi mais real. Estamos fragilizados pela brutalidade do homem.

Mais uma montagem de fãs

Mas quais são os sintomas para que este tipo de patologia exista em nossa sociedade? Esta questão é muito complexa e deixar a questão em aberto bastaria para que fizéssemos justiça à intenção do compositor, mas podemos arriscar algumas coisas mais evidentes.

Primeiro que o nosso sistema é baseado na exploração de recursos, ou seja, na humilhação e subordinação do homem como ser jogado no mundo. Somos escravos de um sistema impune e indestrutível. Não há muito o que fazer, a não ser levar cada dia de uma única vez. O sentimento de humilhação e exploração pode levar algumas camadas mais miseráveis da sociedade (ainda que não seja exclusividade de uma classe social) a romper com os seus limites e despertar um sentimento insano de vingança. De certa maneira, a agressão à alguém de uma classe mais elevada, pode representar uma figuração em dar o troco para toda a injustiça - ainda que nesta atitude, por não ser racional, também represente uma injustiça com o agredido.

Segundo, a própria evolução tecnológica levou a criação de armas de fogo cada vez mais precisas por um menor custo. Quem é portador de uma arma de fogo tem o controle total em uma situação de agressão, pois basta um disparo para eliminar qualquer risco que ele poderia ter numa ação de crime. Na outra mão, temos uma outra pessoa que não tem a menor chance de se defender, totalmente refem da circunstância.

Terceiro, o condicionamento das massas levou as pessoas a terem medo das coisas. As mídias insistem, ininterruptamente, em noticiar casos de sequestros, assaltos, assassinatos, estupros e outras formas de agressão, de modo que com o pânico gerado, nos tornamos cada vez mais frágeis e os criminosos cada vez mais encorajados ao saber do estado de nosso espírito.

Poderíamos elencar uma série de outros fatos, porém estes bastam para saber porque tamanha crueldade tem uma relação especial com a temática do album. Quanto mais "evoluímos", mais nos tornamos escravos das coisas.

I am the key to the lock in your house, that keeps your toys in the basement
Eu sou as chaves para as fechaduras de sua casa, que mantém seus brinquedos no porão
And if you get too far inside, youll only see my reflection
E se for muito para o fundo, verá somente o meu reflexo
Its always best when the light is off, I am the pick in the ice
É sempre melhor quando a luz está apagada, eu sou a essência do gelo
Do not cry out or hit the alarm, were friends till we die
Não berre ou toque o alarme, somos amigos até morrermos

And either way you turn, Ill be there, open up your skull
E tanto faz onde você for, eu estarei ali, abrindo seu crânio
Ill be there, climbing up the walls
Eu estarei ali, escalando as paredes

Its always best when the light is off, its always better on the outside
É sempre melhor quando a luz está apagada, é sempre melhor do lado de fora
Fifteen blows to the back of my head, fifteen blows to your mind
Quinze golpes atrás de minha cabeça, Quinze golpes para sua mente
So tuck the kids in safe tonight, shut the eyes in the cupboard
Então mantenha os garotos a salvo hoje a noite, feche os olhos no armário
So not cry out or hit the alarm, youll get the loneliest feeling
Então não berre ou dispare o alarme, você sentirá o mais solitário sentimento
That either way you turn, Ill be there, open up your skull
Que onde quer que você esteja, eu estarei ali, abrindo seu crânio
Ill be there, climbing up the walls
Eu estarei ali, escalando as paredes.

A seguir, No Surprises.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Radiohead: Electioneering

Certa vez, Thom Yorke disse que foi inspirado pela filosofia de Noam Chomsky que escreveu a letra desta canção. Ele dizia que algumas frases saiam enquanto certas idéias vagavam em sua mente. Por exemplo, após ler diversos escritos de Chomsky sobre o 3º mundo, guerras e política, veio a frase "O gado estimulando o f.m.i." (Fundo Monetário Internacional).

A música não é uma das melhores do album, justamente porque quebra o ritmo melancólico e trabalhado em todas as outras faixas para assumir uma postura mais crua, pesada e pop. Talvez seja esta a intenção, o que pode ser constatado quando estabelecemos uma paralelo entre a letra e a melodia.

Electioneering ao vivo, em 1997.

Na letra, o protagonista assume um candidato político que, através de idéia maquiavélicas, mostra como controlar e enganar as pessoas através de um discurso retórico persuassivo. Conforme ele diz: "Diga a coisa certa quando fizer propaganda política". Seguindo este conselho, surge a imagem do candidato sorridente, bem vestido, adentrando-se entre o povo, acenando com as mãos e dizendo: "Eu confio! Eu posso confiar em seu voto!".

Por trás de suas palavras, encontramos o seu pensamento: "Quando eu vou em frente você vai para trás". Vivemos num sistema infálivel e complexo, ditatorial e voraz, enquanto alguns ganham muito, outros não ganham nada. Em países de 3º a diferença é ainda mais gritante: vemos uma pequena parcela da população ganhando rios de dinheiro e uma grande parcela vivendo em extrema condição de pobreza. Este sistema é orientado à exploração. Aqueles que sabem explorar bem irão se dar bem.

Ou seja, é um sistema imoral onde a enganação e a falsidade são pré-requisitos para exercer o controle e ter o poder de oprimir os seus adversários. Talvez, neste contexto, a agitação da música seja explicada: Propaganda política é sinônimo de festa para lavar o cérebro das massas. Como aquelas marchichas disparadas em caminhões de som e grupos que tocam canções ao vivos para enaltecer a imagem do político - o que é extremamente necessário num mundo regido pelas aparências, onde cada idéia não parece ter um mínino valor em frente com aquilo que pode ser visto.

Montagem de Electioneering realizada por fãs, mas que expressa bem o significado da letra.

I will stop
Eu vou parar
I will stop at nothing
Eu vou parar por nada.
Say the right things
Diga a coisa certa
When electioneering
Quando estiver fazendo propaganda política
I trust I can rely on your vote
Eu confio eu posso confiar em seu voto.

When I go forwards you go backwards
Quando eu vou em frente você vai para trás
And somewhere we will meet
E em algum lugar nos encontraremos.

Riot shields
Proteções de revoltas,
Voodoo economics
Economia de vodu
It's just business
São só negócios,
Cattle prods and the IMF
O gado estimulando o f.m.i.
I trust I can rely on your vote
Eu confio eu posso confiar em seu voto.

A seguir, Climbing Up The Walls.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Teoria de Raskólnikov

Este artigo faz parte de uma série que visa analisar a obra Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Para conhecer todos os outros textos que já foram públicados sobre este assunto neste blog, clique aqui.

A Respeito do Crime¹, por Rodion Románovitch Raskólnikov
Artigo publicado no jornal Discurso Periódico

O artigo discorre sobre o estado psicológico do criminoso durante todo o ato do crime. Durante a exposição de sua teoria, Raskólnikov diz que o ato de execução de um crime sempre é acompanhado de uma doença².

A sua teoria consiste em afirmar que existem certas pessoas no mundo que podem cometer toda uma infinidade de crimes que nada acontecem a elas, como se fossem invisíveis a lei. Mais precisamente ele utiliza como exemplo a figura de Napoleão Bonaparte.

As pessoas podem ser divididas em dois tipos de classificação: ordinárias e extraordinárias. No primeiro caso, as pessoas vivem na obediência e não têm o direito de infrigir a lei - até mesmo porque a lei são criadas para controlar esta massa. No segundo caso, as pessoas podem infrigir a lei justamente porque a consciência permite que eles ultrapassem obstáculos para a execução de sua idéia, muitas vezes, benéficas para toda a humanidade. Por exemplo: se para que Newton revelasse suas teorias para o mundo ele precisa-se eliminar algumas pessoas que pudessem lhe impedir, ele teria não somente o direito, mas a obrigação de matá-las.

No artigo, Raskólnikov também desenvolve a idéia que todos os legisladores, que conceberam as leis desde o início do tempo, também são criminosos justamente porque quando criaram novas leis como forma de substituição a anterior, acabaram por violá-las - como no caso de Napoleão, Maomé, Sólon e Licurgo. Por isto mesmo, não hesitaram em cometer atrocidades enquanto rompiam com as leis anteriores.

Desta forma, todos os seres que desejam dizer alguma coisa de novo a sociedade, devem ser forçosamente criminosos para romper com os limites, pois as leis são justamente o que lhes impossibilitam de se destacarem.

Conforme suas palavras, os ordinários são senhores do presente, pois eles conservam o mundo e o multiplicam em número. Os extraordinários são senhores do futuro, pois eles fazem o mundo mover-se e o conduzem para um objetivo.


¹Este artigo é discutido no 5º capítulo da 3º parte de "Crime e Castigo" num diálogo entre Raskólnikov, Porfiri e Razumíkhin.

²Coincidentemente ou não, Raskólnikov fica totalmente debilitado após assassinar Aliena Ivánovna, a ponto de ficar dias na cama e precisar de tratamento médico.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Radiohead: Fitter Happier

Aqui não temos uma canção, mas um robô que cita uma espécie de mandamentos para uma sociedade gélida e distraida. Esta faixa serve como uma ponte para o restante do álbum. Assim como em obras como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell - que o Radiohead admitiu como uma de suas fontes de inspiração para o OK Computer - temos uma série de enunciados que visam simplesmente fazer com que o homem desfoque de qualquer problema que por ventura possa ter.

Existe um animê chamado Ergo Proxy (que falaremos neste blog futuramente) que demonstra muito claramente como este condicionamento funciona: em pleno centro da cidade, alto-falantes dizem a todo o tempo "consumam, consumam muito, pois você merece o melhor e merece cada vez mais". Enquanto isto, acontecem diversas coisas em âmbito político que as pessoas não sabem e não se preocupam em saber, pois estão de tal forma controladas pelo sistema, que não têm tempo para descobrir se alguma coisa estiver errada.

Em nossos dias, temos um discurso semelhante: seja manso. Para isto temos artefatos como televisão, trabalho, danceterias, amigos, animais, bebida, drogas, videogames, esportes, religião e muitos outros. Falta tanto tempo para fazermos as coisas que jamais teremos tempo para repensar os problemas do mundo. Estamos totalmente sujeitos as vontandes do sistema, cada vez mais distantes da realidade e próximos de um mundo de fantasias.

Montagem bem interessante de Fitter Happier

Nas empresas, podemos vislumbrar as coisas acontecerem desta maneira: um empregado desprende horas e horas do seu dia (no caso normal, oito horas de jornada de trabalho, mais uma hora de almoço, mais duas horas para se locomover até o local) para enriquecer alguém. Sua jornada é tão estressante, que a empresa usa e abusa mentalmente de táticas para passar a imagem de boa menina: oferece academia de musculação, curso de idiomas, faculdade, corte de cabelo, escola de música e muitas outras coisas. Isto para quê os empregados acreditem estarem na melhor empresa e se sentem absurdamente gratos por estarem ali, o que faz com que a empresa cobre ainda mais a sua produção. Sabemos, entretanto, que a idéia é fortificar o funcionário para ele trabalhar cada vez mais.

Por exemplo, estou farto de ouvir por aí que quando alguém se queixa que está cansado os outros insistem em dizer que é falta de exercícios ou de uma boa alimentação regular. Pessoal, nós trabalhamos muito, além de sermos pressionados pelas circunstâncias da vida, o que precisamos, então, é somente descansar! Não temos que ficar procurando coisas que nos façam ir além de nossos limites, até porque as empresas querem que você se sinta mais disposto apenas para trabalhar, e só! Se eu durmo apenas seis horas por dia, não me venham falar que eu preciso fazer exercícios ou me alimentar melhor! O que eu preciso é que reduzam a minha carga horária e que diminuam a pressão que exercem em meu ser!

Ainda assim o funcionário passa a ficar na empresa, além das onze horas do seu dia, mais umas três ou quatro horas, de modo que ele só vai para casa, literalmente, para dormir. Não há mais vida. Somos bichos adestrados. Somos facilmente prostituidos por poucas coisas. Enquanto isto, a vida acontece longe dali, para um povo que desistiu de vivê-lá e tudo por uma rápida distração.

Fitter, happier, more productive,
Mais sano, mais feliz, mais produtivo
comfortable,
Confortável
not drinking too much,
Não bebendo demais,
regular exercise at the gym (3 days a week),
Exercícios regulares na academia (3 dias por semana)
getting on better with your associate employee contemporaries,
Relacionando-se melhor com seus atuais sócios e empregados,
at ease,
Descansar,
eating well (no more microwave dinners and saturated fats),
Comendo bem (nada de comidas de microondas e gorduras saturadas)
a patient better driver,
Um motorista mais paciente e melhor
a safer car (baby smiling in back seat),
Um carro seguro (bebê sorrindo no banco traseiro)
sleeping well (no bad dreams),
Dormindo bem (sem sonhos ruins)
no paranoia,
Sem paranóia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
Cuidadoso com todos os animais (nunca lavando aranhas no buraco das tomadas)
keep in contact with old friends (enjoy a drink now and then),
Mantenha contato com velhos amigos (convide-os para um drink de vez em quando),
will frequently check credit at (moral) bank (hole in the wall),
Frequentemente checar crédito no (moral) banco (buraco na parede)
favors for favors,
Favores por favores,
fond but not in love,
Carinhoso mas não apaixonado,
charity standing orders,
Ordens regulares de caridade
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
(Não matar traças ou colocar água fervente nas formigas),
car wash (also on Sundays),
Lavar o carro (mesmo aos domingos)
no longer afraid of the dark or midday shadows
Não mais ter medo do escuro ou das sombras do meio-dia
nothing so ridiculously teenage and desperate,
Nada tão ridiculamente juvenil e desesperado
nothing so childish - at a better pace,
Nada tão infantil - em um rítmo melhor
slower and more calculated,
Mais devagar e mais calculado
no chance of escape,
Sem chance de escapar,
now self-employed,
Agora autônomo (ser seu próprio chefe)
concerned (but powerless),
Preocupado (mas incapaz)
an empowered and informed member of society (pragmatism not idealism),
Um membro da sociedade informado e ativo (pragmatismo e não idealismo),
will not cry in public,
Não chorarás em público
less chance of illness,
Menos chances de ficar doente
tires that grip in the wet (shot of baby strapped in back seat),
Pneus que aderem no molhado (livrou-se do bebê amarrado no banco traseiro)
a good memory,
Uma boa memória
still cries at a good film,
Ainda chorar em um bom filme
still kisses with saliva,
Ainda beijar com saliva,
no longer empty and frantic
Não mais vazio e frenético
like a cat
Como um gato
tied to a stick,
Amarrado a um pau
that's driven into
Que é levado à
frozen winter shit (the ability to laugh at weakness),
Merda do inverno congelado (a habilidade de sorrir da fraqueza)
calm,
Calma,
fitter, healthier and more productive
Mais em forma, mais sano e mais produtivo
a pig
Um porco
in a cage
Em uma jaula
on antibiotics.
Sob antibióticos.

Sample looping in background:
Ao Fundo:
[This is the Panic Office, section nine-seventeen may have been hit. Activate the following procedure.]

(Esta é a oficina do pânico. Seção 917 pode ter sido alcançada. Ativar seguinte processo)


A seguir,  Electioneering.